14 de junho de 2026

2026: Democracia social ou autoritarismo reembalado?, por Marcos Verlaine

O discurso antissistema pode mobilizar afetos e indignações difusas, mas não substitui resultados concretos nem apaga responsabilidades
PR e Agência Senado

Eleições 2026 confrontam lulismo e bolsonarismo, com Lula buscando quarto mandato e Flávio Bolsonaro representando versão moderada.
Lulismo mostra recuperação econômica e social, mas enfrenta desafios fiscais e baixa aprovação popular em 2025.
Bolsonarismo destaca eficiência fiscal, mas carrega histórico de confrontos institucionais e crise democrática.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

2026: duelo das visões — democracia social ou autoritarismo reembalado?

Lula e Flávio Bolsonaro simbolizam mais que candidaturas. Representam projetos antagônicos de Estado, economia e democracia que serão confrontados à luz dos legados oferecidos à sociedade.

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por Marcos Verlaine

Há 2 projetos e 2 legados a serem escrutinados nas eleições de outubro. Assim, o pleito de 2026 não será uma disputa convencional. Será, na verdade, plebiscito entre 2 campos políticos consolidados — lulismo e bolsonarismo — que carregam consigo não apenas propostas, mas experiências concretas de poder.

De um lado, Lula (PT) tentará o quarto mandato ancorado no balanço de seu terceiro governo (2023-2026).

De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), preposto do ex-presidente, se apresenta como “versão moderada” do bolsonarismo, embora o movimento que representa mantenha como eixo a confrontação institucional, sobretudo com o STF (Supremo Tribunal Federal).

Em 2026, o eleitor não decidirá no vazio: decidirá comparando gestões.

LULISMO SOB ESCRUTÍNIO: CRESCIMENTO COM TENSÃO FISCAL

O terceiro mandato de Lula chega a 2026 com indicadores ambivalentes. Há recuperação econômica relevante: o Brasil voltou ao grupo das 8 maiores economias do mundo em 2024, 66 dos 99 principais indicadores sociais melhoraram, programas como o Bolsa Família foram reestruturados e o Minha Casa, Minha Vida retomou foco nas faixas de menor renda.

O governo também recuperou protagonismo ambiental e diplomático, com destaque para a agenda climática e a preparação para a COP 30. Aprovou proposta de governo importante: isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil. Ao final do ano fiscal, isso vai significar um 14º salário.

Mas o cenário fiscal preocupa. A dívida bruta avançou de 71% para 78% do PIB até o fim de 2025. As estatais registraram déficit recorde de R$ 20,5 bilhões.

A articulação política no Congresso tem sido frágil, resultando no pior aproveitamento legislativo desde 1988.

A aprovação popular oscilou, chegando a mínimas de 24% em momentos de inflação pressionada.

O lulismo, portanto, apresenta-se como projeto social-liberal de forte intervenção estatal, redistribuição de renda e reconstrução institucional. Porém tensionado pelo desafio da responsabilidade fiscal1 e pela dificuldade de formar maioria estável no Congresso.

BOLSONARISMO E HISTÓRICO: EFICIÊNCIA FISCAL COM EROSÃO DEMOCRÁTICA?

O governo Jair Bolsonaro (2019-2022) entregou superávit primário em 2022 (R$ 54,9 bilhões), reduziu a dívida em relação ao pico de 2021, aprovou a contrarreforma da Previdência, nos moldes do mercado, privatizou a Eletrobras e registrou lucros recordes na Petrobrás. Houve avanço na infraestrutura rodoviária e reorganização das contas públicas.

Isso porque, em grande medida, deu de ombros para a agenda social. Lembre-se, os mais pobres fizeram filas para pegar ossos, porque estavam passando fome no auge da crise pandêmica. Vamos escrever sobre isto em artigo específico. Houve conjunção de fatores conjunturais. 

No entanto, o saldo institucional é o ponto central do debate.

A condução da pandemia marcou profundamente o período. A postura negacionista, o confronto com recomendações médicas e científicas e a demora na aquisição de vacinas são amplamente criticados.

O Brasil superou 700 mil mortes por covid-19. A CPI da Pandemia recomendou o indiciamento do então presidente por 9 crimes. Mesmo que Bolsonaro sustente que agiu para preservar a economia e que estados tinham autonomia para restrições, o embate com a ciência e a promoção de tratamentos sem eficácia deixaram marcas políticas, sociais e morais.

No plano ambiental, houve aumento expressivo do desmatamento e enfraquecimento de órgãos de fiscalização, com desgaste internacional.

No plano institucional, as tensões com o STF foram constantes. O mandato terminou sob a sombra de ataques retóricos às urnas e à legitimidade do processo eleitoral, culminando na crise golpista frustrada que marcou a transição de poder.

FLÁVIO: MODERAÇÃO ESTRATÉGICA OU CONTINUIDADE DISFARÇADA?

Flávio Bolsonaro tenta se descolar do tom incendiário do pai, mas não do projeto político. A estratégia anunciada de formar maioria no Senado para emparedar o STF e eventualmente promover impeachment de ministros indica que o conflito institucional permanece no horizonte.

A questão central não é apenas estilo, mas substância: o bolsonarismo aceitará os limites do Estado de Direito ou seguirá operando sob a lógica de enfrentamento permanente às instituições?

A “moderação” discursiva será testada pela coerência prática?

O QUE ESTÁ EM JOGO

A eleição de 2026 opõe, a rigor, 2 visões de mundo reais:

• Uma que aposta em Estado ativo, políticas redistributivas, protagonismo ambiental e reconstrução diplomática. Ainda que com desafios fiscais e de governabilidade.

• Outra que privilegia ajuste fiscal, contrarreformas estruturais e agenda conservadora, com histórico de tensão com a democracia liberal e as instituições de controle.

Mais que programas, estará em julgamento o conceito de democracia.

O lulismo pede voto com base na recuperação social e econômica. O bolsonarismo pede nova chance sob argumento de eficiência e combate ao “sistema”.

O eleitor decidirá entre modelos que já governaram. Não haverá espaço para ilusões.

RETÓRICA FALACIOSA

A propósito, é legítimo questionar: como alguém pode exercer mandato parlamentar por quase 3 décadas sem apresentar agenda substantiva de transformação nacional, chegar à Presidência da República e, ao fim do mandato, reivindicar para si o rótulo de “antissistema”?

A retórica da ruptura perde força quando confrontada com a biografia.

Quem passou 28 anos no Parlamento integrou — goste ou não — o próprio sistema que depois diz combater. E, ao assumir o comando do Executivo, teve à disposição os instrumentos formais para promover reformas estruturais profundas.

O discurso antissistema pode mobilizar afetos e indignações difusas, mas não substitui resultados concretos nem apaga responsabilidades acumuladas ao longo da trajetória pública. Em política, biografia também é argumento — e coerência — entre fala e prática, que costuma ser um dos critérios mais severos do julgamento eleitoral.

PLEBISCITO SOBRE O FUTURO DEMOCRÁTICO

Se 2022 foi a eleição da sobrevivência institucional, 2026 será a da consolidação — ou da reversão — desse processo.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro transcende nomes. É o embate entre projeto que opera dentro das regras, ainda que sob tensões fiscais e políticas, e outro que testou reiteradamente os limites do sistema e flertou com sua ruptura.

A pergunta que ecoará nas urnas não será apenas “quem governa melhor?”, mas “queremos preservar a democracia e o Estado de Direito?”.

Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

____________________

1 A responsabilidade fiscal é um conjunto de normas e princípios — consolidado no Brasil pela LRF (Lei Complementar 101/00) — que exige a gestão equilibrada e transparente dos recursos públicos. Impõe limites para despesas com pessoal e dívida pública, visando o planejamento, prevenção de riscos e combate à corrupção.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Carlos

    3 de março de 2026 5:56 pm

    Desculpe simplificar, mas na minha humilde opinião o que está em jogo é a manutenção da democracia.
    A famiglia é toda suspeita e o novo postulante é mais ainda.
    Porém outro dia, num filme, rolou um diálogo onde se destacou que qualquer ser pensante não votaria em um determinado candidato ao que um dos interlocutores afirmou que apenas com seres pensantes (lúcidos) não se ganha eleição.
    E é verdade!
    Então, é deixar que as pesquisas apontem empates no 2o turno e, após a oficialização das candidaturas, se mantido o miliciano, Lula deverá utilizar todo meio possível para esclarecer para os grupos não pensantes quem realmente é o rival e, mais ainda, o que representa o bolsonarismo.
    Vale lembrar que antes do uso da máquina em 2022 Lula estava muito a frente de bolsonaro nas pesquisas e após a utilização descarada de recursos publicos pelo rato condenado vimos a disputa que foi.

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