
𝐀 𝐀cademia Brasileira de Letras e o eterno outono
por Alexandre Coslei
Fundada no final do século XIX como guardiã da língua e da literatura nacionais, a Academia Brasileira de Letras transformou-se, ao longo das décadas, em um espaço onde o outono da vida reina soberano. A ausência de juventude não é apenas um dado estatístico — é o sintoma de uma instituição que se fecha em torno de si mesma, preferindo reverenciar nomes consagrados pela mídia e pelo prestígio social a promover a oxigenação cultural. Está mais para uma conquista do jogo “Banco Imobiliário” do que um mérito cultural.
Ao investir na eleição de “𝑛𝑜𝑡𝑎́𝑣𝑒𝑖𝑠” — políticos aposentados, celebridades midiáticas, artistas consagrados —, a ABL mantém um diálogo confortável com a memória e com o capital simbólico de figuras já estabelecidas, mas rompe o elo com as novas gerações. Insiste no suicídio do status quo. A literatura, que deveria ser território de invenção, risco e diálogo com o presente, converte-se num salão de honra onde a novidade só entra como visitante eventual.

As consequências são evidentes. Ao não abrir espaço para autores jovens, de diferentes classes sociais, origens étnicas e trajetórias, a Academia se distancia de um Brasil que pulsa fora de suas paredes. Ignora a produção literária que floresce nas periferias, nos 𝘴𝘭𝘢𝘮𝘴 de poesia, nos coletivos digitais, nas vozes que se formam sem pedir licença às velhas instituições. O resultado é a desconexão social: a ABL fala para um público que envelhece com ela, enquanto a juventude constrói suas próprias arenas culturais, alheias e, muitas vezes, indiferentes ao bolor do fardão.
Argumentar que jovens não possuem obra consolidada é esquecer que João do Rio entrou para a ABL antes dos 30 anos — no furor da juventude — e seu nome ainda permanece vivo para quem reverencia a literatura. Em contrapartida, muitos idosos eleitos como “imortais” foram solenemente esquecidos, suas memórias soterradas pelo tempo.
De nada adianta zelar apenas pelos troncos prestes a ruir; é preciso cultivar sementes, trazer cores novas e tenras ao jardim. A ABL precisa abandonar a lógica de conclave, como se apenas velhos papas pudessem ser eleitos, e mirar um horizonte mais longo.
Se não se renovar, continuará relevante apenas como peça de museu — respeitável, mas imóvel. E, nesse processo, pode perder justamente o que justificaria sua existência: ser um espelho múltiplo e vibrante da literatura brasileira, capaz de refletir não apenas o passado, mas também o futuro que já está sendo escrito.
Alexandre Coslei — Jornalista e Professor
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