A camisa amarela, por Felipe Bueno
A proximidade do dia decisivo para a democracia no Brasil traz de volta a disputa pelo direito de vestir a camisa da seleção brasileira e expõe um paradoxo que não pode ser ignorado: usar a amarelinha para expressar orgulho ou pertencimento é ao mesmo tempo envergar o emblema da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma entidade privada que, ao longo de sua trajetória, acumulou escândalos de corrupção, disputas pelo poder e um histórico de aparelhamento político.
A tentativa progressista de retomada da camisa começa em 2022 – ano em que, excepcionalmente, Copa do Mundo e eleições presidenciais foram praticamente eventos simultâneos – como uma resposta aos movimentos que, anos antes, originando-se nas famosas jornadas de junho, em 2013, pavimentaram o caminho para o golpe contra Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro usando como principal uniforme a camisa amarela, num capítulo extremo da confusão entre o Brasil nação e o Brasil FC, corporação esportiva e econômica conectada a um espectro definido da sociedade.
O histórico de controvérsias começa com a instituição antecessora da CBF, a Confederação Brasileira de Desportos. Durante a ditadura militar, a CBD manteve relações próximas com os governos dos generais, usando as conquistas da seleção, como o tricampeonato de 1970, para fins de propaganda política e legitimação do regime. Num país de baixo espírito crítico, o futebol era – e é – instrumentalizado como ferramenta de coesão social para encobrir a repressão e a censura.
A consolidação da CBF sob o comando de João Havelange e posteriormente de seu genro Ricardo Teixeira inaugurou a era do futebol de negócios. Teixeira presidiu a entidade entre 1989 e 2012, período marcado por contratos de patrocínio pouco transparentes e denúncias de recebimento de propinas. Investigado no Brasil e no exterior, renunciou ao cargo em meio a suspeitas de corrupção que culminaram com seu banimento perpétuo do futebol pela Fifa em 2019.
Os presidentes que o sucederam mantiveram o padrão. José Maria Marin assumiu em 2012 e foi preso pela polícia suíça em 2015 a pedido do FBI, no escândalo mundial conhecido como Fifagate. Foi condenado pela justiça dos Estados Unidos por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Seu sucessor, Marco Polo Del Nero, foi indiciado pelas mesmas investigações e banido de qualquer atividade ligada ao futebol pela Fifa.
A crise permaneceu. Rogério Caboclo assumiu o comando em 2019, mas foi afastado definitivamente do cargo em 2022 após acusações de assédio moral e sexual, que acabaram sendo arquivadas. Vieram depois outros nomes, e mais desentendimentos e questionamentos jurídicos sobre a legitimidade de processos eleitorais e acordos internos, que resultaram em intervenções judiciais e afastamentos.
A sequência de escândalos mostra que a estrutura que gere o futebol nacional opera à margem dos anseios do torcedor – e isso vale também para os clubes, cuja conexão com as torcidas é muito mais forte. Aliás, mais que operar à margem, essa estrutura usa a paixão cega e incondicional de milhões para se fortalecer em disputas nas quais seus interesses estão em jogo. O capítulo mais recente é a posição beligerante dos principais times contra o governo federal no caso das bets, posição claramente simbolizada pela frase proibir não é proteger usada recentemente em alguns uniformes.
Voltando ao “Brasil”, considerando que o posicionamento padrão é de defesa das próprias causas, não dos torcedores nem do futebol, é de se pensar se vale a pena continuar usando a camisa da seleção como símbolo positivo, especialmente para a metade progressista da sociedade.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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