28 de outubro de 2026

A democracia venceu. O golpe pode vir de fora, por Reynaldo Aragon

Necessário compreender quem age, com quais recursos e em que condições a contestação pode afetar a capacidade do país de governar a si mesmo.
Imagem gerada por IA

Lula foi reeleito em 25/10 com mais de 4,4 milhões de votos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro.
Acusações de fraude sem provas foram amplificadas por figuras como Trump e Bannon, gerando contestação internacional.
Investigações no Brasil apuram possível ingerência estrangeira e financiamento de campanhas contra a eleição.

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A democracia venceu. O golpe pode vir de fora

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A reeleição de Lula encerrou a votação, não a disputa pelo poder. Da contestação internacional das urnas aos instrumentos de pressão de Washington, a soberania brasileira enfrenta um teste que ultrapassa o calendário eleitoral.

Por Reynaldo Aragon

Há dois anos venho investigando como conflitos internos brasileiros podem ser convertidos em instrumentos de pressão estrangeira. Reuni parte desse trabalho em O Cerco, livro que lanço pela Kotter Editorial. O segundo turno de 25 de outubro deu uma dimensão imediata ao problema. Há quem procure submeter a decisão popular a interesses externos. É necessário compreender quem age, com quais recursos e em que condições a contestação pode afetar a capacidade do país de governar a si mesmo.

A eleição terminou. A disputa não.

Lula foi reeleito em 25 de outubro com 64.256.232 votos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro. A diferença superou 4,4 milhões. Naquela noite, o candidato derrotado anunciou que buscaria anular a votação, alegando irregularidades decorrentes da decisão de Cristiano Zanin de prorrogar o funcionamento de seções eleitorais até as 19 horas. A medida fora tomada depois de relatos de obstáculos ao transporte de eleitores por ambas as campanhas, inclusive de um pedido de extensão apresentado pelo próprio PL em parte do país.

O Tribunal Superior Eleitoral registrou 34.393 votos após as 17 horas. O total inclui eleitores que já estavam nas filas. Apenas 1.981 foram computados entre 18 e 19 horas, e 13 depois disso. Nem a atribuição de todos os votos posteriores às 17 horas a um mesmo candidato alteraria o vencedor. O TSE reconheceu dificuldades operacionais. Questionar seus fundamentos é legítimo; apresentar o episódio como prova de fraude, sem evidência correspondente, é outra coisa.

A acusação ganhou imediatamente uma audiência internacional. Donald Trump afirmou que o resultado lhe parecia fraudado, sem apresentar provas. Steve Bannon exigiu isolamento diplomático e comercial do governo Lula até a anulação da eleição. Ao mesmo tempo, o próprio PL reconhecia a vitória presidencial, e o Carter Center cumprimentava a conclusão do segundo turno, embora sua missão de especialistas tivesse escopo limitado e registrasse ressalvas sobre decisões judiciais. A reação externa estava dividida.

O efeito político imediato da acusação sem provas é manter aberta a questão da legitimidade. A contestação pode, entretanto, oferecer argumentos a grupos que dispõem de canais diplomáticos, recursos financeiros e acesso às instituições. A partir daí, o problema deixa de ser somente o comportamento de um candidato derrotado.

A rede que atravessa fronteiras

Steve Bannon ocupa uma posição reconhecível nesse circuito. Ex-estrategista da Casa Branca e interlocutor do bolsonarismo, não se limitou a levantar dúvidas. Defendeu punições ao governo brasileiro e associou a eleição de Lula à possibilidade de fraude nas legislativas norte-americanas de novembro. Martin De Luca, advogado ligado à empresa de mídia de Trump, questionou a prorrogação e pediu apuração independente. Donald Trump Jr. difundiu sua manifestação. Elon Musk deu projeção a uma leitura enganosa das variações de votos entre os turnos. As mensagens mantiveram a suspeita em circulação.

A amplificação passou por comunicadores com audiências próprias. Benny Johnson questionou os números em seu programa, Jack Posobiec apresentou o episódio como advertência aos eleitores dos Estados Unidos e Andrew Kolvet propôs pressão política sobre Brasília. James Uthmeier, procurador-geral da Flórida, participou desse debate ao desacreditar as instituições brasileiras. Alex Jones e Nick Shirley difundiram acusações em registros e formatos distintos. Sem provas, a acusação atravessou programas, redes e círculos políticos.

A circulação alcançou a Argentina. Javier Milei compartilhou conteúdo que acusava Lula de tentar roubar a eleição. Lilia Lemoine, Agustín Laje e Daniel Parisini reiteraram suspeitas ou lhes deram alcance. Javier Negre, ligado à La Derecha Diario e à UHN Plus, integra uma estrutura de comunicação transnacional com presença em vários países latino-americanos. Nenhum desses atos, isoladamente, comprova a existência de um centro único de comando.

O dinheiro oferece uma pista mais concreta. Em setembro, a Folha de S.Paulo identificou pelo menos onze contas estrangeiras que divulgaram publicações pagas favoráveis a Flávio, associadas às cotações da Polymarket. Entre elas estavam Matt Gaetz e UHN Plus. Os anúncios conectam mercado de previsões, publicidade e eleição, mas não identificam todos os pagadores ou contratantes. Essa diferença é decisiva para separar militância ideológica, negócio publicitário e ação coordenada.

Havia também interlocutores brasileiros. Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Alexandre Ramagem acompanharam a apuração em Miami, enquanto Eduardo mantinha contatos em Washington e defendia sanções contra autoridades nacionais. Seus participantes ocupam posições diferentes, transitam entre países e utilizam recursos desiguais. O mapa começa a adquirir valor quando identificamos não apenas quem fala, mas quem tem acesso ao dinheiro, às plataformas e às decisões de Estado.

A fabricação de uma eleição roubada

Uma operação de deslegitimação não exige que todos os fatos sejam inventados. A decisão de Zanin existiu; os problemas de transporte também. O artifício consiste em retirar elementos que mudam a interpretação do episódio e acrescentar uma intenção que não foi demonstrada. A suspeita sobre o passado profissional do ministro ocupou o lugar da análise dos votos. Circulou ainda a história de que fiscais do PL teriam sido expulsos da sala-cofre do TSE, embora o espaço não fosse aberto a esses representantes. Um procedimento real e uma acusação falsa podiam, assim, aparecer como partes de uma mesma narrativa.

Musk divulgou uma aparente inconsistência no aumento da votação de Lula entre os turnos. O argumento desconsiderava a mudança no comparecimento e a redistribuição de votos antes destinados a outras candidaturas, brancos e nulos. A força desse tipo de mensagem não depende da solidez do cálculo. Depende da velocidade com que circula e de quem a repete. Quando pessoas com grande audiência tratam a mesma hipótese como evidente, parte do público pode confundir repetição com confirmação independente.

A psicologia social ajuda a explicar essa dinâmica. Estudo experimental publicado na Nature em 2026 acompanhou dois mil participantes por oito semanas, durante a eleição presidencial norte-americana de 2024. Sistemas que priorizavam engajamento ampliaram a exposição a conteúdos hostis e moralizados e afetaram percepções sobre o antagonismo político. O estudo não prova manipulação da eleição brasileira. Mostrou como a arquitetura de circulação pode alterar aquilo que as pessoas acreditam ser predominante no ambiente social.

Essa diferença entre fato, interpretação e percepção tem consequências políticas. Uma acusação reiterada pode manter grupos mobilizados mesmo depois de perder força nos tribunais. Pode também fornecer justificativas a autoridades predispostas a agir, sem que estas dependam de convencer a maioria da população. Por isso, a investigação não termina na remoção de uma publicação enganosa. Precisa alcançar sua origem, eventuais pagamentos, circulação e capacidade de influenciar decisões concretas.

O país que está em disputa

O Brasil não interessa a Washington apenas pela orientação de seu presidente. Interessa por seus minerais críticos, energia, alimentos, mercado interno e posição nas rotas comerciais sul-americanas. A China ocupa posição central no comércio brasileiro, enquanto os BRICS ampliam interlocuções econômicas. Essas relações oferecem alternativas de negociação, apesar das dependências históricas. A questão material é quem se apropria da renda desses recursos e onde se realiza sua transformação industrial.

A Estratégia de Segurança Nacional divulgada pela Casa Branca em dezembro de 2025 recupera a Doutrina Monroe sob o nome de Corolário Trump. O documento afirma a intenção de restabelecer a primazia norte-americana no hemisfério e limitar o controle de ativos estratégicos por concorrentes externos à região. Prevê mobilizar instrumentos econômicos e relações políticas favoráveis a esses objetivos. A estratégia deixa explícito como Washington pretende exercer influência sobre decisões que outros países consideram parte de sua autonomia.

O SOUTHCOM, comandado desde fevereiro pelo general Francis Donovan, dispõe de estruturas permanentes de cooperação militar e segurança regional. Em setembro, quinze governos divulgaram a declaração do Escudo das Américas, que reúne compromissos econômicos, securitários e multilaterais. O texto trata de controles de investimentos, cadeias de minerais críticos e infraestrutura digital confiável. O Brasil não integra a declaração. Isso não comprova hostilidade militar contra Brasília, mas indica uma arquitetura hemisférica cujas decisões podem afetar recursos, empresas e rotas brasileiras sem participação do país em sua formulação.

O interesse pelos minerais tem expressão empresarial verificável. Em março, a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, a Amcham Brasil, o Ibram e instituições financeiras participaram de um fórum sobre cadeias estratégicas de suprimento. Para o Brasil, vender minério bruto e dominar seu beneficiamento, seus equipamentos e suas patentes são posições opostas na divisão internacional do trabalho. Acordos podem beneficiar ambos os países. A questão é quanto conhecimento e poder de decisão permanecem no Brasil. Soberania econômica não é rejeitar comércio; é negociar sem entregar a terceiros as escolhas que estruturam o desenvolvimento.

As divergências dentro do governo Trump importam. Reportagens identificaram setores mais voltados a favorecer os Bolsonaro e outros concentrados em minerais e oportunidades comerciais. Há divergências entre eles, embora alguns objetivos coincidam. O interesse estratégico permanente de uma potência convive com disputas entre seus próprios agentes, empresas e correntes políticas. É nessa relação entre Estado e capital que a pressão externa precisa ser examinada, não apenas nas declarações de seus dirigentes.

Quando a pressão encontra o Estado

Uma investigação da Reuters publicada em 24 de outubro, baseada em dez integrantes e ex-integrantes da administração norte-americana, identificou Darren Beattie e Ricardo Pita como articuladores de iniciativas para favorecer o retorno da família Bolsonaro ao poder. Segundo a agência, os dois procuraram direcionar a atuação diplomática para essa alternativa e defenderam medidas contra autoridades brasileiras. A reportagem não estabeleceu até onde agiam por determinação da Casa Branca ou de Marco Rubio. Ainda assim, descreveu uma disputa partidária estrangeira alcançando o interior de estruturas oficiais dos Estados Unidos.

Em 2025, Eduardo Bolsonaro encontrou-se com Beattie enquanto defendia sanções contra Alexandre de Moraes. A Reuters relatou que o funcionário pressionou o Tesouro pela aplicação da Lei Magnitsky, posteriormente revogada. Pita esteve envolvido nas iniciativas relacionadas à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, formalizada pelos Estados Unidos em 2026. Tarifas e restrições de vistos compuseram o mesmo período de tensão, embora não seja possível atribuir todas essas decisões aos dois funcionários.

A pressão repercutiu depois das urnas. A Folha de S.Paulo informou que o Departamento de Estado preparara uma mensagem de reconhecimento da eleição, cuja divulgação foi suspensa após a contestação de Flávio. No dia 27, a Reuters noticiou, com base em um aliado do senador e numa fonte do governo norte-americano, que ele deixara o Brasil rumo aos Estados Unidos, após descumprir a ordem de entregar seus passaportes. Rota e eventual proteção oficial continuavam sem esclarecimento. Sua saída, por si, não demonstra que Washington tenha acolhido um plano de desestabilização.

No mesmo dia, Flávio Dino determinou investigação da Polícia Federal sobre possível ingerência estrangeira no processo eleitoral. Entre os pontos estavam contatos envolvendo Rockbridge Network, Tallis Gomes e Pedro Sang, a contratação de publicidade por perfis sediados no exterior, a origem dos recursos, eventuais relações com minerais críticos e suspeitas de tratamento algorítmico intencional. A decisão abre uma apuração, não estabelece culpabilidade. A apuração deverá seguir pagamentos, contratos e beneficiários.

A passagem da propaganda à coerção exige essa materialidade. Uma declaração pode causar desgaste; uma sanção afeta bancos, empresas e pessoas. O custo social de decisões tomadas fora do país pode chegar à produção, ao emprego e ao orçamento público. O problema estratégico surge quando instrumentos estatais estrangeiros passam a condicionar escolhas que deveriam ser feitas segundo as instituições e os interesses da sociedade brasileira.

O que pode acontecer agora

As próximas semanas exigem atenção ao que os agentes fazem, não apenas ao que anunciam. Intenção, capacidade e decisão são categorias distintas. Sem separá-las, qualquer declaração agressiva parece prenúncio de uma intervenção e qualquer gesto diplomático conciliador parece garantia de normalidade. Os sinais precisam ser verificáveis.

Uma acomodação diplomática continua possível. O reconhecimento da reeleição por governos de diferentes orientações e a continuidade dos canais econômicos dão base a negociações pragmáticas. O indicador será uma manifestação inequívoca de Washington sobre o resultado, acompanhada de relações bilaterais que não condicionem a validade do voto a exigências políticas. Os interesses norte-americanos continuariam presentes.

Outro cenário é a pressão econômica prolongada. Sanções individuais, barreiras comerciais, financiamento e investimentos podem ser vinculados a concessões sobre recursos naturais, tecnologia ou alinhamentos externos. Nesse caso, será preciso observar fundamentos legais, destinatários, contrapartidas e quem absorve os custos. O sinal de alerta aparece quando instrumentos de coerção são utilizados para retirar do Brasil alternativas legítimas de decisão.

A crise de legitimidade também pode persistir sem ruptura formal. Pagamentos ocultos a intermediários, campanhas sincronizadas, contatos documentados com autoridades e tentativas de bloquear o funcionamento de instituições seriam sinais de agravamento. A presença de Flávio nos Estados Unidos torna relevante acompanhar encontros, pedidos de proteção e iniciativas oficiais, caso ocorram. A hipótese de ruptura apoiada externamente exige evidências ainda mais fortes, incluindo articulação anticonstitucional com agentes internos e participação comprovável de estruturas de Estado. Não há, neste momento, prova pública de uma decisão militar norte-americana de intervir no Brasil.

Também há forças capazes de alterar qualquer uma dessas trajetórias. Investigação independente, publicidade dos contratos e fluxos financeiros, controle judicial e legislativo, imprensa livre, organização social e diversificação de parceiros ampliam a margem de ação do país. A defesa do voto não se esgota em reconhecer um resultado, assim como a autonomia nacional não nasce de um discurso. Ela se mede pela capacidade de decidir onde produzir, em que investir, como proteger direitos e com quem negociar. Se essas escolhas forem progressivamente transferidas para interesses definidos fora do Brasil, a democracia poderá conservar suas formas enquanto perde parte substantiva de seu poder.

Artigo publicado originalmente em <código aberto>

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

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