24 de setembro de 2026

A escolha difícil é do Estadão, por Gustavo Tapioca

Estadão é voz tradicional de setores conservadores de SP, frequentemente hostil ao PT. Alertar contra Flávio não significa aderir a Lula.
Imagem gerada por IA

Assessora de Flávio Bolsonaro negociou R$ 200 mil com condenado por ligação a organização criminosa ligada a milícias.
Estadão alerta que candidatura de Flávio pode levar milícias ao topo do poder, revisitando postura do jornal em 2018.
Editorial atual não reconhece erro passado, mas sinaliza limite conservador contra extrema direita e risco institucional.

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A escolha difícil é do Estadão 

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Em 2018, o jornal equiparou Haddad a Jair Bolsonaro. Agora alerta que Flávio pode levar as milícias ao topo do poder. É autocrítica ou um aviso do conservadorismo paulista? 

por Gustavo Tapioca 

Uma assessora do senador Flávio Bolsonaro negociou com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, a destinação de quase R$ 200 mil em emenda parlamentar. Calixto foi depois condenado por integrar uma organização criminosa ligada aos irmãos Brazão, mandante do assassinato de Mariele Franco. 

 É esse o fato recente que abre o editorial publicado pelo Estado de S. Paulo nesta quinta-feira, 23 de setembro de 2026. O jornal recapitula outros episódios da trajetória do candidato e conclui que sua candidatura traz o “risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República”. 

É uma advertência grave, sobretudo por vir do jornal que, em 8 de outubro de 2018, apresentou a disputa entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro como “Uma escolha muito difícil”. Naquela ocasião, o próprio Estadão descreveu Jair como “o truculento apologista da ditadura militar”. Haddad virou “o preposto de um presidiário”. A primeira expressão apontava um risco para a democracia. A segunda procurava transformar a ligação de um candidato com Lula em risco da mesma ordem. 

Haddad não era um figurante. Professor da USP, ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, tinha uma trajetória pública a ser examinada e criticada. Jair Bolsonaro também tinha a sua: a defesa da ditadura e a homenagem a um torturador não foram descobertas depois da eleição.  

Em 2018, ninguém podia prever cada ato de seu futuro governo. Já se podia, porém, reconhecer que as duas candidaturas não ofereciam o mesmo risco institucional. O desfecho conhecido torna a antiga equivalência ainda mais constrangedora: Jair foi condenado a 27 anos e três meses de prisão por crimes que incluem tentativa de golpe de Estado. Haddad é candidato a governador de São Paulo. 

O alerta de agora tampouco se explica apenas pelo sobrenome de Flávio. Seu pai foi condenado; o filho não responde por essa condenação. Mas o editorial examina a carreira política do próprio senador: suas antigas declarações favoráveis às milícias, a presença de familiares de Adriano da Nóbrega em seu gabinete e a negociação de emenda parlamentar que veio à tona.  

Flávio deve responder por seus atos e explicar os vínculos apontados. Também é dele a promessa de trabalhar por uma anistia que alcance Jair

E Lula? Em 2018, foi impedido de concorrer por condenações posteriormente anuladas pelo STF. Em 2022, venceu Jair Bolsonaro nas urnas e iniciou seu terceiro mandato.  

Seu governo pode ser combatido, suas decisões contestadas e sua reeleição rejeitada. Nenhuma dessas posições dispensa uma avaliação honesta do risco que o Estadão acaba de atribuir à candidatura adversária. 

Seria o editorial de 2026 um arrependimento pelo de 2018?  

Não há como conhecer o sentimento de quem o escreveu. Como autocrítica pública, a resposta é não. O jornal não menciona seu antigo julgamento, não revê a equivalência entre Haddad e Jair e não pergunta como ajudou a tornar aceitável uma escolha que ele próprio sabia envolver um apologista da tortura e da ditadura. Reconhecer hoje um perigo não equivale a assumir o erro de ontem. 

Há outra leitura possível, mais próxima do papel político do jornal.  

O Estadão é uma voz tradicional de setores conservadores de São Paulo, frequentemente hostil ao PT. Alertar contra Flávio não significa aderir a Lula. Pode ser uma forma de dizer a esse campo que derrotar o petismo não justifica entregar a chefia do Estado a uma candidatura cuja trajetória, segundo o próprio editorial, traz o risco de elevar as milícias ao poder.  

Trata-se de uma interpretação do gesto do jornal, não de uma confissão de suas intenções. 

Se for essa a mensagem, ela tem peso. Um jornal conservador pode estabelecer um limite diante da extrema direita. Mas o limite se torna mais convincente quando vem acompanhado de memória. 

Em 2018, o Estadão chamou de difícil a escolha entre um professor e o defensor da ditadura. 

 Em 2026, adverte que a candidatura do filho de Jair Bolsonaro pode pôr as milícias no topo da República. O alerta atual merece ser levado a sério. A explicação pelo editorial de 2018 continua faltando. 

Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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