A esquerda que combate o bolsonarismo, mas empurra a direita para ele, por Dora Nassif
Tratar todo eleitor conservador como bolsonarista é um erro de análise e um presente para Flávio Bolsonaro às vésperas do segundo turno. Enquanto isso, pouca gente olha para o Congresso que acabamos de eleger
@Dora Nassif
O resultado do primeiro turno exige uma leitura honesta. Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula, uma diferença de cerca de 2,3 milhões de votos. Somam-se a isso mais de 33 milhões de abstenções, um dos maiores números absolutos da nossa história. Para quem acredita, como eu, que o projeto representado por Flávio é danoso para o país, o domingo foi duro. Mas é justamente por isso que precisamos olhar para o que parte da esquerda fez de errado, e não apenas para o que o eleitor teria feito de errado.
E é preciso dizer com todas as letras: parte da esquerda é, sim, soberba. Bastou a apuração terminar para parte das redes progressistas se encher de rótulos lançados contra toda a direita, sem distinção: gado, fascista, burro, cúmplice de golpe. Imagina-se que só existe uma direita, a que se resume a Flávio Bolsonaro, e que qualquer pessoa que se declare conservadora carrega automaticamente o golpismo e o negacionismo. Há anos, o discurso de parte de nós soa professoral e moralista, como se estivéssemos ensinando o povo a pensar de forma correta, em vez de escutar suas demandas reais de moradia, alimentação, transporte, saúde, educação e lazer. Muita gente prefere lacrar na internet a pisar no território.
Ser de direita não significa apoiar Flávio Bolsonaro, assim como ser de esquerda não significa ser petista. Existe no Brasil um eleitor conservador, liberal na economia e tradicional nos costumes, que não se reconhece no golpismo nem no culto à família Bolsonaro. É também verdade que parte da direita brasileira não sente necessidade de estudar: a produção intelectual desse campo é rarefeita, e o espaço que deveria ser ocupado por ideias foi tomado por políticos criadores de conteúdo, eleitos por radicalizar debates para alimentar o algoritmo. O resultado são dois extremos que não conversam. De um lado, a parte da esquerda que despreza; de outro, a parte da direita que não se informa. No meio, o eleitor conservador com bom senso, que não se vê representado e ainda tem suas opiniões criminalizadas como se seguisse a mesma cartilha dos extremistas.
Nada disso suaviza o que Flávio Bolsonaro é. Ele não tem projeto de país. Sua candidatura se sustenta no sobrenome e no ressentimento, não em propostas. E mente. Disse que não pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, embora mensagens e uma reunião entre os dois sobre o financiamento do filme Dark Horse tenham vindo a público. Afirmou que o pai foi condenado a 27 anos sem ter feito absolutamente nada, quando Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe de Estado. Voltou a lançar suspeitas sobre as urnas que o elegeram tantas vezes. Mas a crítica a Flávio perde força quando é estendida, sem critério, a todo o campo conservador. Ao chamar de bolsonarista quem não é, parte da esquerda faz exatamente o que ele deseja: transforma a direita inteira em seu eleitorado cativo.
Há ainda um problema que essa polarização esconde. Estamos tão concentrados em Lula e Flávio, e são preocupações legítimas, que muita gente não estudou em quem votar para o Congresso. E o Congresso é, por definição, a casa que deveria nos representar. Boa parte do que acabamos de eleger não nos representa. A partir de 2027, quase 60% do Senado será bolsonarista, com força para mudar a Constituição. É um Congresso que convive, sem constrangimento, com o escândalo do Banco Master: CPIs foram abertas, o presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira, foi alvo de operação da Polícia Federal (ele nega qualquer irregularidade), e o próprio candidato do PL à Presidência tem relações com Vorcaro expostas. Enquanto discutimos quem ganha o debate da semana, o Legislativo que vai definir os próximos quatro anos foi escolhido quase no escuro.
O próprio Lula é a prova de que outro caminho é possível. Antes de ser presidente, foi líder sindical, homem de porta de fábrica, de assembleia, de rua. A esquerda que ele ajudou a construir estava na favela, na obra, na rodovia, na fila do posto de saúde, ao lado das famílias que passavam fome. Escutava antes de explicar. Em algum momento, parte do campo progressista trocou o território pela tela e a escuta pelo sermão. O eleitor percebeu.
Faltam 19 dias para o segundo turno, e é aqui que mora a esperança. Os mais de 33 milhões que ficaram em casa não são inimigos. Muitos não entendem de política, muitos não tiveram acesso à instrução, muitos apenas precisam de convencimento e, sobretudo, de acolhimento. São pessoas que não se sentem bem-vindas para conversar, para perguntar, para discordar sem serem humilhadas. O povo precisa ser instruído, mas, mais do que isso, precisa ser entendido. Ninguém muda de voto depois de ser chamado de burro. Essas pessoas serão alcançadas por conversa: sobre o fim da escala 6×1, que o Senado começa a votar nesta semana, sobre segurança, emprego, custo de vida e respeito às instituições.
Não há incoerência em sustentar duas posições simultaneamente. É perfeitamente possível combater, sem nenhuma concessão, o projeto de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, reconhecer que a direita brasileira é maior e mais diversa do que ele. Separar o adversário democrático do projeto autoritário é o que diferencia uma política comprometida com a democracia de um discurso fechado em si mesmo.
O Congresso que elegemos já levou boa parte da esperança que tínhamos para os próximos anos. Resta o dia 25 de outubro. Com Lula, ainda teremos um mínimo de esperança, mas ela não será conquistada por quem tem razão na internet, e sim por quem souber acolher, explicar com paciência e voltar ao território. Derrotar Flávio Bolsonaro exige isolar o bolsonarismo, e não entregar a ele, de presente, toda a direita brasileira.
Dora Nassif – Advogada, Mestra em Direitos Humanos e Doutoranda em Ciências Jurídicas e Políticas pela Universidad Pablo de Olavide, em Sevilla.
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