A roupa velha e as cores novas
O PT diante da urna de 2026 e do espelho que insiste em evitar
por João Vicente Caixa d’Água
“Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar de
dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer…
Belchior escreveu “Velha Roupa Colorida” como advertência a uma geração que admirava, não como ataque. A canção diz o que ninguém quer ouvir: o passado, por mais belo e heroico, não se veste de novo como se o tempo não tivesse passado. A roupa que um dia foi colorida e ousada, quando se recusa a ser trocada, vira fantasia. E fantasia não ganha eleição.
As urnas de 4 de outubro disseram isso ao Partido dos Trabalhadores sem nenhuma delicadeza. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 56.104.268 votos (47,03% dos válidos); Lula ficou com 53.876.617 (45,16%). Um presidente no exercício do cargo, com a máquina, a economia e a memória dos anos 2000 a seu favor, chega ao segundo turno atrás de um candidato que disputa a Presidência pela primeira vez. O próprio Lula admitiu, na noite da apuração, que estava convencido de vencer no primeiro turno. A convicção é o sintoma: ninguém na direção viu, ou ninguém quis ver.
… E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é
antigo
E precisamos todos rejuvenescer…
O resto do mapa é pior. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e terá 28 senadores a partir de 2027. O PT terá nove: a bancada do adversário será três vezes maior. No Paraná, Sergio Moro foi eleito governador no primeiro turno, o juiz da Lava Jato governando um dos maiores estados do país pela legenda dos Bolsonaro. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos; Fernando Haddad, o melhor quadro que o partido tinha para oferecer, ficou com 36,42%.
Quem quiser se consolar pode. A Bahia reelegeu Jerônimo Rodrigues no primeiro turno, a bancada petista na Câmara passou de 68 para 70 deputados, e 45% dos votos válidos não é derrota de quem desapareceu. É exatamente esse raciocínio que precisa morrer. O PT não encolhe: estagna, enquanto o adversário ganha 22 cadeiras em quatro anos. Em política, ficar parado é recuar.
… Nunca mais meu pai falou: She’s leaving home
E meteu o pé na estrada, like a rolling stone…
O PT não fez transição geracional. Não a adiou nem a fez mal: recusou-se a fazê-la, e agora apresenta a conta a toda a esquerda brasileira. A direção que fundou o partido, a quem o país deve a maior experiência de inclusão social de sua história, tratou a própria permanência como prova de competência. Longevidade no comando é, com frequência, apenas a ausência de quem pudesse disputá-lo.
… Nunca mais eu convidei minha menina
Para correr no meu carro
Loucura, chiclete e som…
Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento
Amor e flor, quêde o cartaz?
A geração que fundou o PT andou para que esta pudesse correr. Quando aqueles homens e mulheres, hoje entre 70 e 80 anos, começaram a fazer política, o mundo caminhava: a notícia levava um dia para chegar, a assembleia uma semana para ser convocada, o panfleto um mês para ser lido. Hoje o mundo corre, e correr não é mais o papel deles. O papel deles é o do técnico à beira do campo. O técnico, quase sempre, já foi o jogador que protagonizava as jogadas, que decidia partidas, que carregava o time nas costas. Não entrou em campo com menos talento do que tinha; entrou com mais experiência, e é com ela que hoje orienta o time, lê o jogo, corrige a posição, segura a bola quando é preciso e manda atacar quando o adversário cansa. Mas quem corre são os outros. Em campo estão jogadores novos, com outro fôlego, outras técnicas de domínio de bola, outra intimidade com um jogo que já não é o mesmo que o técnico jogou. Nenhum grande jogador se desonra ao virar técnico. Desonra seria insistir em jogar com as pernas de hoje e os esquemas de ontem, e perder a partida que o time ainda pode ganhar.
Dizer isso a um partido de formação marxista não é heresia, é ortodoxia. Em dezembro de 1906, respondendo a um menchevique que se queixava de que o partido tinha operários jovens demais, Lênin recorreu a Engels: “Somos o partido do futuro, e o futuro pertence à juventude. Somos o partido dos inovadores, e é sempre a juventude que segue os inovadores com mais entusiasmo. Somos o partido que trava uma luta abnegada contra a velha podridão, e a juventude é sempre a primeira a se lançar a essa luta.” E arrematou com palavras próprias: que os liberais ficassem com os “velhos cansados de trinta anos” e com os revolucionários que “ganharam juízo”; “nós seremos sempre o partido da juventude da classe avançada”. Lênin tinha 36 anos quando escreveu isso. A direção do PT tem o dobro, e já não o cita.
… No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais…
O sintoma mais visível é a comunicação. Parte da cúpula ainda acredita que conteúdo para internet é o corte do programa de televisão. As redes têm gramática, ritmo, humor e tempo próprios; quem não os domina fala sozinho, ainda que fale a milhões. Foi o que aconteceu: uma campanha que gastou energia para ser vista e nenhuma para ser ouvida por quem tem menos de 35 anos.
Que isso não é impressão, provam as urnas, e a prova vem de dentro do próprio campo.
Em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) foi a segunda deputada federal mais votada do estado, com 1.596.472 votos, seis vezes os 256.903 que obteve em 2022. Sâmia Bomfim (PSOL) veio logo atrás, com 583.107. Luna Zarattini foi a petista mais votada para a Câmara, com 233.733 votos, à frente de todos os nomes históricos da bancada paulista, e Duda Hidalgo, com 154.953, e Leonardo Grandini, com 122.158, entraram na Assembleia Legislativa pelo PT com votações que não dependeram de sindicato nem de prefeitura.
Em Minas, Ana Elisa, 21 anos, filiada ao PT em março deste ano, foi a segunda deputada federal mais votada do estado, com 524.219 votos, mais do que Romeu Zema obteve para presidente no Brasil inteiro. Nenhum deles herdou mandato. Todos construíram audiência antes de pedir voto, com a língua da rede e não com a do palanque.
… Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar
de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é
antigo
E precisamos todos rejuvenescer…
Agora o outro lado da moeda. Nikolas Ferreira passou de 3 milhões de votos em Minas e se tornou o deputado federal mais votado da história, mais que o dobro de 2022. Lucas Pavanato, cria de Nikolas, fez 3.038.271 em São Paulo, quase o dobro de Erika Hilton. Para a Assembleia paulista, Eduarda Campopiano (PL) teve 1.956.238 votos, três vezes Eduardo Suplicy. A esquerda tem seus fenômenos digitais; a direita tem fenômenos maiores e, o que é mais grave, os multiplica. Nikolas formou candidatos, emprestou audiência, gravou junto, criou uma tropa. Fez o que o PT fazia nos anos 1980 com os núcleos de base, em vídeos de sessenta segundos.
… Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho
Black bird, assum-preto, o que se faz?…
A réplica previsível é que o partido tem, sim, quadros jovens e comunicadores competentes. Tem, e os números acima o mostram. Mas nenhum deles decide nada. Estão na vitrine, não no comando. Juventude exposta como adereço de campanha não é renovação, é cenografia.
Também não se resolve com cotas dadas como esmola ou como um “para-te quieto”. Formação de sucessores exige compromisso de quem forma e desapego de quem parte. Fazemos isso com os filhos. A Igreja Católica faz com seus noviços há quase dois mil anos. O exército faz com seus soldados desde a Roma antiga. Nenhuma instituição duradoura sobreviveu sem preparar quem a herdaria, e nenhuma preparou herdeiros sem aceitar que eles, um dia, mandariam.
Os fundadores precisam ter a generosidade de passar a condução política e partidária, depois de preparar quem a receberá. O partido deveria ser o amálgama entre a experiência de quem viveu e a disposição de quem vai viver. Hoje é a justaposição das duas, sem diálogo, e com a primeira segurando a chave.
… Assum-preto, pássaro-preto, black bird, me
responde
Tudo já ficou atrás…
Durante décadas o PT leu a direita brasileira como uma força que só queria do povo o voto e a distância. Essa direita acabou. A extrema direita que a substituiu caminha na mesma rua de lama em que o PT caminhava, e caminha mais, com mais gente e todos os dias. O líder comunitário que ajudava a erguer barracos nas ocupações encontra, no espelho do mundo bizarro, o pastor que acolhe, cuida, resolve e pede o voto. Chamemos o adversário pelo nome que não espanta aliados: extrema direita. Mas que ninguém se engane sobre o método, que é o mesmo dos movimentos de massa do século XX: ganhar corações e mentes da classe trabalhadora, não apenas seu voto.
Os números do Estado brasileiro explicam o terreno. Segundo o Censo 2022 do IBGE, os evangélicos passaram de 21,6% da população em 2010 para 26,9% em 2022, 47,4 milhões de pessoas, enquanto os católicos caíram de 65,1% para 56,7%. No Norte, os evangélicos já são 36,8% da população. Essa não é uma estatística religiosa, é uma estatística de organização territorial: igrejas abertas sete dias por semana, nos bairros em que o diretório petista fecha depois da eleição. O PT trata o tema com uma mistura de desprezo cultural e constrangimento, e colhe o que planta.
Não tarda a chegar às portas das fábricas e depois ao seu interior, disputando sindicatos, e às universidades, disputando centros acadêmicos. O povo na rua, que o PT julgava monopólio seu, eles já colocam também, e em maior número. Quem ainda acha que a disputa se dá no horário eleitoral, e não no cotidiano, perdeu e vai seguir perdendo sem entender por quê.
… Black bird, assum-preto, pássaro-preto, me
responde
O passado nunca mais…
Se o PT não quer conduzir o povo latino-americano às trevas da política, precisa engolir a soberba e construir uma frente democrática de verdade, com quem está fora do seu campo e não lhe deve favores. Isso significa aceitar, em voz alta, a alternância de poder com forças de centro-direita que respeitem as regras do jogo. Significa, inclusive, ajudar a direita liberal a se reorganizar no Brasil, porque uma democracia sem direita civilizada entrega o eleitor conservador à direita selvagem. Foi o que aconteceu. O PT passou vinte anos comemorando a destruição do PSDB e agora disputa o segundo turno contra quem ocupou o espaço vazio.
Nada disso se resolve com nota da Executiva nem com reunião de diretório que termina em moção de apoio ao presidente. Exige um debate franco, honesto e sem paixão, com um único objetivo: atualizar o ideário e a estratégia histórica do partido, dialeticamente, como recomendaria o marxismo que o formou e que sua direção hoje cita menos do que teme. Dialética não é ritual de congresso. É aceitar que a tese de 1980, a antítese dos governos e a síntese necessária não cabem mais nas mesmas pessoas.
… Você não sente nem vê, mas eu não posso deixar
de dizer, meu amigo…
Esse debate talvez custe o sacrifício de toda uma geração de quadros: dirigentes que não voltarão à direção, parlamentares que não voltarão ao mandato, nomes que viraram marca e precisam voltar a ser biografia. Que seja. A alternativa é sacrificar o partido inteiro para poupar a geração que o fundou, e não há honra nenhuma nisso. Há três semanas até o segundo turno para ganhar uma eleição, e quatro anos para decidir se haverá partido para disputar a próxima.
O PT precisa decidir, e decidir agora, se quer ser um instrumento perene de luta da classe trabalhadora, que vai precisar dele como nunca, ou uma experiência, ainda que maravilhosa, datada e vencida por uma questão meramente biológica. Não há terceira opção, e a segunda já está em curso por omissão.
… Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é
antigo…
Belchior sabia que o novo sempre vem, com ou sem a permissão de quem está no palco. Não adianta fingir que a roupa velha ainda serve, nem acusar de ingratidão quem percebeu que ela está puída. A roupa pode ser trocada; o corpo, não. Resta saber se o partido vai escolher a roupa ou o corpo. As urnas de 4 de outubro já mostraram o que acontece quando ele não escolhe.
… E precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer
E precisamos todos rejuvenescer.”
João Vicente Caixa d’Água
operário, advogado, marxista-leninista, militante desde que se
entende por gente
Fontes:
TSE, resultado presidencial do 1º turno · TRE-SP, governo de São Paulo · Agência Brasil, composição do Senado · Rádio Senado, bancadas · Composição da Câmara 2027 · Deputados federais eleitos por SP · 20 mais votados em SP · Deputados estaduais eleitos em SP · Ana Elisa (Revista Fórum) · Ana Elisa (Itatiaia) · Nikolas Ferreira (Metrópoles) ·
IBGE, Censo 2022: Religiões. As votações do PT ao governo paulista de 2006 a 2022 e os números de 2026 devem ser conferidos no repositório de dados do TSE antes da publicação; as listas de imprensa divergem em poucas dezenas de votos entre si.
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