11 de junho de 2026

A taxa Selic e as eleições, por Ítalo de Aquino

Cabeças que não sabem ler planilhas não entendem que alguns indicadores aparentemente saudáveis mascaram uma situação febril.
Imagem gerada por ChatGPT

Gastos com juros da dívida pública atingem R$ 1 trilhão em 2025 e devem manter esse valor até 2027.
Banco Central reduziu Selic para 14,75% em março de 2026, mas mantém política monetária restritiva.
Inadimplência familiar atinge 49,75% e 8,9 milhões de empresas enfrentam dívidas; austeridade agrava crise.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A taxa Selic e as eleições

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Ítalo de Aquino

Nunca na história deste país se gastou tanto com os juros da dívida pública – um trilhão de reais em 2025. E os cálculos apontam que também será esse o montante a ser desembolsado em 2026 e 2027.

A posse de Galípolo no Banco Central gerou uma expectativa de reversão da política monetária conduzida pelo seu antecessor, contudo ele atuou em direção oposta, ao invés de iniciar um relaxamento da taxa de juros, o movimento foi de crescente elevação. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil de reduzir a taxa Selic em 0,25%, de 15% para 14,75 ao ano, na reunião dos dias 17 e 18 de março de 2026, pouco impacta, visto que não altera as condições gerais da economia. A atual gestão do BC amplia: “(…) uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado.” (9º parágrafo da ata da 277ª reunião).

Em seu segundo parágrafo a ata afirma que: “(…) o resultado do PIB no último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração esperada da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho segue resiliente”, avocando o objetivo de retrair a economia como forma de conter a demanda e por extensão conter a inflação. A realidade do país necessita de outra política, só para dar um exemplo: aquela que priorize a universalização do saneamento básico, pois 30 milhões de brasileiros vivem sem acesso a água tratada e 90 milhões sem coleta de esgoto, seria o suficiente para alavancar o PIB em sucessivos anos. Considerando isso, a defesa de uma desaceleração da economia é um despautério. A macroeconomia do Banco Central é um erro.

Quanto ao mercado de trabalho resiliente cabe um esclarecimento de ordem metodológica. O IBGE divulga a taxa de ocupação e não taxa de desemprego. Embora interlocutores do governo, a imprensa e o próprio BC tomem ambas as taxas como idênticas – elas não o são. O desemprego é um grave problema social que ainda permanece oculto. A taxa de ocupação contabiliza todo e qualquer cidadão, a partir dos 14 anos de idade, que na semana de coleta da pesquisa tenha se ocupado ao menos uma hora. Segue um caso típico: se o tempo fecha e o céu fica escuro é sinal de que um temporal se aproxima, o cidadão corre para casa pega meia dúzia de guarda-chuvas, vai ao terminal de ônibus e fica por uma hora ocupado aos gritos – “Vendo guarda-chuva!”.  Se conseguiu ou não, tanto faz. Esse cidadão entra para o número dos que trabalhou na semana da pesquisa. Essa é a realidade do mercado de trabalho no Brasil. E cinicamente esse cidadão é classificado como empreendedor, candidato a empresário. Isso demonstra que as atas do Copom expressam ideologia de maneira oposta ao rigor científico.

Cabeças que não sabem ler planilhas não entendem que alguns indicadores aparentemente saudáveis mascaram uma situação febril. Famílias e empresas estão falindo. A inadimplência entre as famílias bate recordes – metade delas, 49,75% – e o comprometimento com as dívidas alcança em média 30% da renda. O total de empresas inadimplentes alcançou 8,9 milhões. Mais de 90% delas, cerca de 8,5 milhões são pequenas e médias empresas (PME) e pouco mais de 18% dessas PMEs, cerca de 1,6 milhão, são de microempreendedores individual (MEI). Os casos de recuperação judicial e extrajudicial crescem anualmente. Para 2026 estima-se que o recorde poderá ser quebrado tanto em valor como em número de empresas.

A política de austeridade é uma falácia. A geração de déficit do Estado, está diretamente relacionada com os custos da dívida pública brasileira, que é das mais caras do mundo, verdadeira fonte de especulação e de enriquecimento de uma elite rentista, nacional e internacional. Todos os anos forja-se novos déficits e novos empréstimos a juros exorbitantes que pauperizam o Estado para mantê-lo em bancarrota artificialmente. A administração pública é – então – obrigada a rolar sua dívida pública com a oferta de empréstimos a taxas mais caras e em condições cada vez mais desfavoráveis. A aristocracia financeira domina a opinião pública e os poderes do Estado, à medida que ela legisla, governa e julga. Ademais essa mesma política obriga o Estado e entregar seus bens a preço de fim de feira via privatizações, dado o crescente endividamento. 

Com uma diretoria do Banco Central em sua maioria composta por indicação do atual presidente do país a lógica segue de predomínio do financismo. Uma eventual derrota eleitoral de Lula não poderá ser justificada por interferência estrangeira, fraude, manipulação de resultado, fake news, obscurantismos etc. Nada disso esconde o fato de que a responsabilidade maior é de quem hoje governa o Brasil. Às vésperas das eleições ocupamos o podium das maiores taxas de juros do mundo.  Nesse cenário nos perguntamos qual o papel de Galípolo – seria ele um cabo eleitoral do retorno da dupla dinâmica, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto?

Ítalo de Aquino – doutor em história econômica

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados