Flávio Dino. Olhar “bolsonazi” sobre Liberdade de expressão
por Armando Coelho Neto
A arrogância de certos jornalistas e sua suposta superioridade moral estão bem demonstradas numa fala do magnata da mídia Logan Roy, personagem da série “Succession” da HBO. Com desprezo, sarcasmo e pragmatismo brutal, ele vê a notícia como um simples negócio que reforça o seu bolso, e não como um serviço público. Que coisa familiar, não? Informar o leitor não tem a menor importância.
A banalização da notícia, moldada a padrões de mercado e submetida a uma espécie de lógica industrial, está bem retratada na obra “Notícia, um Produto à Venda”, da professora Cremilda Medina (1971). Em detrimento da função social, o que seria notícia é transformado em algo fabricado em série, sujeito a custos, prazos, demanda, lucro. Cai por terra o jornalismo isento e romântico.
Voltando à série, Logan, mesmo beneficiado, revela incômodo com o fato de que certos jornalistas pensam ter “privilégios” que outros profissionais não têm. A rigor, escondem-se na suposta proteção das fontes, na “busca da verdade”. Para ele, é tudo fachada, escudo para espalhar informações falsas, influenciar no fechamento de negócios e manipular a opinião pública para favorecer interesses financeiros alheios.
Se um empresário enganar clientes, espalhar informações falsas para fechar um negócio, invadir a privacidade de alguém e usar isso para ganhar dinheiro, seria crucificado. Eis aqui um exemplo dado por Logan do que considera típico do privilégio e da arrogância de certos jornalistas. Com ressalva, cabe refletir sobre isso diante da bandeira rota na qual “bolsonazis” transformou a liberdade de imprensa.
Esse tema vem a propósito da operação da Polícia Federal na casa de um blogueiro maranhense, que estaria “perseguindo” o ministro do STF Flávio Dino. Entre notas críticas, repúdio e apelos à liberdade de imprensa, o jornalismo “bolsonazi” deu ao blogueiro o status da “Débora do batom”, integrante da horda que invadiu e depredou sedes dos Três Poderes, destruiu mobiliário, vidraças, obras de arte…
Com status de “Débora do Batom”, a violação de regras de segurança de proteção de autoridades, por parte do blogueiro, ficou reduzida à simples divulgação da placa de um automóvel. Os indícios, porém, sinalizavam para a possível ocorrência do crime de perseguição, previsto no Artigo 147-A do Código Penal, conhecido internacionalmente como stalking, inclusive nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Segundo a PF, o blogueiro estaria realizando um monitoramento ilegal da rotina e dos deslocamentos de Flávio Dino e de seus familiares em São Luís (MA). Muito além da divulgação da placa e do modelo dos veículos, houve a publicação da logística e das rotinas, de forma a pôr em risco a integridade física do magistrado. Usou-se como argumento o suposto uso irregular de carros oficiais ligados à segurança de Dino.
O consenso na Suprema Corte é que não existe nenhum direito absoluto. Até mesmo o direito à vida tem restrições (aborto legal). Nesse sentido, a liberdade de imprensa não é exceção. Cabe lembrar que, nos EUA, suposto país das liberdades, em se tratando de segurança de autoridades o jornalismo sofre restrições. Estivesse naquele país o blogueiro bolsonarista, estaria certamente em maus lençóis.
Os protagonistas do valor absoluto da liberdade de expressão têm duas caras. Hoje libertários, em 2021 aplaudiram o então ministro da Justiça André Mendonça (hoje no STF), quando invocou a Lei de Segurança Nacional e processou (sem sucesso) um sociólogo de Palmas (TO), o qual, num outdoor, chamou o ex-presidente (hoje esquálido presidiário) de “Cabra à toa, não vale um pequi roído”.
Cumpre anotar que sobrevive no país, com ares de crime continuado, o espectro de golpe e afronta às instituições vigentes. No caso, qualquer ato dos ministros da Corte Suprema tem merecido distorcidas leituras. O caminho da ruptura institucional sempre passou, necessariamente, pelo atropelo às normas legais. No caso, o STF seria e continua sendo o obstáculo. Assim, a meta sempre foi fechar o STF.
No passado, à imprensa bastava responder: quem, quando, como, o quê, onde e por quê. Mas as promíscuas relações com o poder econômico acabaram inspirando frases do gênero: a imprensa, se bem paga, até publica a verdade. Fugir disso implicaria noutras questões: é verdade? É legal? É ético? Há risco para algum valor humano, fraterno e democrático? Sem arrogância e superioridade moral, claro!
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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PAULO MAURICIO GONCALVES
19 de março de 2026 6:55 amCampanha eleitoral travestida de jornalismo sério, alegando liberdade de expressão e pondo em risco segurança de terceiros. As eleições de 2026 vão ter tal receita de sobra. Valha-nos Deus…