21 de maio de 2026

Cecil, o leão x Orelha, o cachorro: ou como a internet deforma a política, por Fábio Ribeiro

Tanto no caso do leão Cecil quanto no do cachorro Orelha é visível a apropriação do fato para fins econômicos e políticos.

Em 2015, o leão Cecil foi morto por Walter Palmer, gerando reação global e campanha virtual contra o caçador.
No Brasil, a morte do cachorro Orelha por adolescentes provocou ameaças a inocentes confundidos com os pais dos suspeitos.
O deputado Nikolas Ferreira usou o caso Orelha para fins políticos, desviando atenção de pautas importantes como o destino de Bolsonaro.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Cecil, o leão x Orelha, o cachorro: ou como a internet deforma a política

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

2015 foi um ano marcado pela morte de Cecil. Caçado e morto por Walter Palmer, um dentista norte-americano, o leão se tornou um símbolo da proteção dos animais. A reação pública na internet foi mundial e viralizou. Rapidamente, a morte do leão impulsionou uma caçada virtual contra o caçador-dentista, obrigando-o a se arrepender do que ele fez. Aterrorizado pela campanha virtual e midiática contra si e ameaçado de morte por internautas, Walter Palmer fechou o consultório e desapareceu. Dez anos depois, o fenômeno continua sendo lembrado e despertando atenção dos internautas.

Orelha, o cachorro repete o mesmo padrão no Brasil. Maltratado e morto por adolescentes, Orelha rapidamente virou um símbolo da proteção dos animais. Internautas clamam por justiça e alguns estão até se excedendo. Um casal de pessoas inocentes confundidas com os pais dos adolescentes que mataram o cachorro foram ameaçados pela internet e denunciaram centenas de perfis à Polícia.

O que os adolescentes fizeram é ilegal e moralmente reprovável. A crueldade contra animais deve ser objeto de apuração e eventual punição. Mas nada justifica ameaças virtuais contra a integridade física dos responsáveis pela morte do cachorro Orelha. Os pais deles (e pessoas confundidas com ambos) também não devem ser ameaçados ou molestados.

É preciso ter bom senso em relação ao que está ocorrendo. A morte de um leão ou de um cachorro não pode se transformar numa caça às bruxas, porque isso pode resultar em agressões reais contra pessoas igualmente injustificadas e criminosas.

Existe uma diferença entre o caso do leão Cecil e o do cachorro Orelha: a velocidade com que a notícia se espalhou e a onda de ódio começou a se formar na internet parece ter sido muito maior. Um indicativo claro disso foi o deputado surfista virtual Nikolas Ferreira se desligar do fiasco da marcha para libertar Jair Bolsonaro ao mergulhar na onda de reação por causa da morte do cachorro Orelha.

Nikolas Ferreira nunca se destacou pela proteção dos animais e sempre votou contra pautas ambientais na Câmara dos Deputados. Quando era vereador ele comemorou o veto ao empréstimo de 907 milhões de reais destinados à contenção de enchentes provocadas por chuvas torrenciais em BH.

Tanto no caso do leão Cecil quanto no do cachorro Orelha é visível a apropriação do fato para fins econômicos e políticos. Econômicos porque os dois fatos geram grande engajamento emocional sendo impulsionados pelos algoritmos das plataformas de internet cujo lucro depende da quantidade de cliques em conteúdos associados à ads de propaganda. A intensidade do tráfego digital desperta a atenção dos políticos surfistas virtuais e eles podem então até mesmo se apropriar de um fato para propósitos bem diferentes.

É isso que está ocorrendo no caso do cachorro Orelha. A maioria dos internautas que defendem o bem-estar dos animais são contrários à redução da maioridade penal proposta por Nikolas Ferreira. Não existe relação de causa e efeito entre as duas coisas (proteção dos animais x encarceramento de adolescentes), mas esse detalhe escondido pelo intenso fluxo de mensagens em favor da punição dos responsáveis pela tragédia do cachorro Orelha.

Os algoritmos das plataformas de internet não medem e impedem a intenção política maliciosa. O que eles fazem é empoderá-la permitindo uma deformação da arena política. No caso de Nikolas Ferreira, isso fica evidente porque nem mesmo os eleitores dele são capazes de perceber que rapidamente o cachorro Orelha passou a ter mais importância política do que o destino de Jair Bolsonaro.

É possível ligar a onda de ódio despertada pelo assassinado do cachorro à pauta bolsonarista de redução da maioridade penal. Mas o custo político disso parece ser o desligamento da atenção do público de Nikolas Ferreira da situação do líder condenado e preso. Impulsionada de um lado para o outro pelas ondas virtuais, a política se torna caótica, contraditória, efêmera e impossível de ser estruturada tendo em vista necessidades de médio e longo prazo.

A despolitização virtual algorítmica da política é um tema extremamente importante sobre o qual a maioria das pessoas poderia e deveria debater. Mas elas são atraídas para um debate de menor importância que se torna capaz de reconfigurar todo o cenário político até que ele seja novamente abalado por outro fato que se torne viral. Nesse contexto, o crescimento da importância eleitoral dos políticos surfistas virtuais como Nikolas Ferreira é evidente e preocupante.

Como vereador, Nikolas Ferreira defendeu os policiais que caçam e matam seres humanos. Isso é um indicativo claro de que ele não poderia ter se posicionado em favor do leão Cecil, do cachorro Orelha ou mesmo contra os adolescentes que mataram o agora famoso cachorro.

Em 2015 Nikolas de Ferreira tinha 19 anos e era um ilustre desconhecido. Todavia, devemos supor que mesmo sendo um cidadão comum ele deve ter se posicionado sobre a questão da morte do leão Cecil. Qual foi o posicionamento dele? Ele defendeu o leão morto ou o caçador-dentista Walter Palmer? Seria interessante alguém revirar as postagens mais antigas de Nikolas Ferreira para descobrir o que ocorreu em 2015.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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1 Comentário
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  1. julio edson silveira de souza

    3 de fevereiro de 2026 10:36 am

    Orelha … não é só sobre um cão, é sobre canalhas em formação.

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