
Quando o Estado decide pautar as mulheres: o caso da China
por Maria Luiza Falcão Silva
Entre o empoderamento e o controle
Há algo de profundamente ambíguo quando o poder político “descobre” as mulheres. Na China de Xi Jinping, essa ambiguidade ganhou contornos nítidos: o Partido Comunista passou a incluir a igualdade de gênero entre os pilares da “modernização socialista”, ampliando leis, planos quinquenais e discursos em torno do protagonismo feminino. Mas, como sempre ocorre quando a emancipação é concedida de cima para baixo, o gesto tem mais cálculo do que coragem.
O feminismo estatal chinês é uma construção cuidadosamente roteirizada. Nas páginas do China Daily, multiplicam-se artigos sobre o “renascimento das mulheres na nova era” — um vocabulário que mistura meritocracia, dever familiar e patriotismo. As trabalhadoras são exaltadas como “pilares da prosperidade”, as mães, como “guardadoras do futuro da nação”, e as jovens, como “força moral da nova civilização digital”.
Tudo soa grandioso, mas também um pouco inquietante. Porque quando o Estado define quem as mulheres devem ser, já não se fala de liberdade, e sim de funcionalidade.
O pano de fundo demográfico e político
Não se trata apenas de benevolência ideológica. A “pauta feminina” surge num momento em que a China enfrenta o maior desafio demográfico de sua história: o país envelhece rapidamente, as taxas de natalidade despencam e o número de trabalhadores em idade ativa encolhe.
A resposta oficial foi dupla: de um lado, incentivos à maternidade e expansão dos direitos trabalhistas; de outro, uma campanha moral para restaurar o “valor da família tradicional”.
Nesse contexto, falar em “empoderamento feminino” significa, em grande parte, tentar conciliar a mulher moderna com a necessidade de produzir mais filhos — uma equação que, nas entrelinhas, reafirma a ideia de que o corpo feminino continua sendo um instrumento de política pública.
Ou seja: a pauta das mulheres serve também para resolver o problema dos homens — e do Estado.
Leis avançadas, práticas desiguais
É verdade que a legislação chinesa evoluiu. A Lei de Proteção dos Direitos e Interesses das Mulheres, revisada em 2022, incorporou medidas contra assédio, discriminação e desigualdade no trabalho. O texto prevê que governos locais devem avaliar o impacto de gênero em políticas urbanas, o que, no papel, é um avanço notável.
Mas as estatísticas contam outra história: mulheres ainda representam menos de 9% dos cargos de comando em empresas públicas e apenas 8% nos comitês centrais do Partido. O “teto de vidro” na China é reforçado por tijolos ideológicos — e nem mesmo o mais vigoroso plano quinquenal consegue quebrá-lo.
Nos grandes centros urbanos, a desigualdade de renda entre homens e mulheres voltou a crescer após a pandemia. E nas zonas rurais, o empoderamento é mais uma palavra de ordem do que uma realidade concreta: persistem os casamentos arranjados, o trabalho não remunerado e a escassez de serviços básicos.
Há, claro, exemplos de sucesso — engenheiras, cientistas, empreendedoras —, mas são exceções que o regime transforma em vitrine, não em regra.
O feminismo sob vigilância
O paradoxo mais gritante é este: enquanto o Estado celebra as mulheres, reprime o feminismo. Ativistas, escritoras e pesquisadoras que tentam discutir assédio, casamento forçado ou orientação sexual fora da norma são silenciadas nas redes, suspensas das universidades ou detidas sob acusações genéricas de “subversão”.
Nos últimos anos, o governo censurou coletivos feministas independentes, fechou blogs sobre direitos das mulheres e prendeu jovens envolvidas em campanhas de denúncia de violência doméstica. Na lógica do Partido, a mulher empoderada é bem-vinda — desde que não ouse questionar o poder que a empodera.
É o empoderamento tutelado, domesticado, higienizado.
Entre o discurso e a realidade
Quando Xi Jinping afirma que “o desenvolvimento das mulheres é símbolo do progresso de uma civilização”, ele toca num ponto real: nenhuma sociedade avança sem as mulheres. Mas o problema é que, na China, o discurso de igualdade vem amarrado a uma ideia de funcionalidade nacional.
A mulher é chamada a ser simultaneamente produtiva e maternal, moderna e obediente, autônoma e devota ao coletivo. É uma equação impossível, e profundamente política.
A retórica da “modernização feminina” funciona, em parte, como instrumento de soft power internacional: ajuda a projetar a China como nação civilizada e progressista diante de um Ocidente que, sob governos conservadores, retrocede em direitos. Serve, também, para reforçar a coesão interna, oferecendo à população uma imagem de harmonia social — uma vitrine de estabilidade num mundo em crise.
O risco é que, ao transformar a mulher em símbolo de virtude pública, o regime acabe reforçando o mesmo patriarcado que afirma combater — agora revestido de linguagem tecnocrática e paternalista.
O que há de novo — e o que permanece
Sim, há avanços. A escolarização feminina é alta, a participação no mercado de trabalho é expressiva e o debate público sobre desigualdade de gênero, embora controlado, existe. Mas há um desconforto latente: a sensação de que o corpo e a voz das mulheres continuam sendo territórios de disputa entre tradição e modernidade, Estado e indivíduo, política e intimidade.
A China não é exceção — é um espelho.
Quando governos, mesmo progressistas, decidem “pautar as mulheres”, quase sempre o fazem com a pretensão de moldar comportamentos, não de libertá-los.
O feminismo que nasce do poder corre o risco de ser apenas uma versão elegante do velho patriarcado de Estado.
A pauta e o silêncio
O maior paradoxo chinês é este: as mulheres estão em toda parte — na economia, na ciência, na política local — e, ao mesmo tempo, continuam pouco ouvidas.
O Estado fala por elas, legisla por elas, as exalta — mas raramente as escuta.
Quando a igualdade é concedida como política de Estado, e não conquistada como direito, o silêncio volta a ser uma forma de opressão.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário