5 de junho de 2026

Colunismo de tutela e a democratização da burrice, por Gustavo Conde

O tédio é grande, a chance é única e o momento é crítico. Seria a deixa para retomarmos o raciocínio histórico e a subjetividade perdida.

Colunismo de tutela e a democratização da burrice, por Gustavo Conde

O que eu acho engraçado pra caramba é a militância indo na onda de colunista para definir o voto. Voto é algo que se constrói ao longo da vida e diante de experiências pessoais concretas, não no bojo de teses impressionistas e levemente pistoleiras do colunismo de vitrine.

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Não admira que as igrejas tenham entrado de sola na política: existe uma demanda excessiva do eleitor, progressista ou não, por ‘tutela’. Todo mundo quer ser tutelado.

Tem gente que chega ao cúmulo de dizer que vai votar no Boulos (por exemplo), ou que é preciso uma aliança ‘Boulos-Tatto’ (por exemplo), porque o fulano de tal (dá o nome do colunista) falou.

É de doer.

Cadê a autoestima das pessoas? Cadê a capacidade de formulação própria das pessoas? Cadê a educação política das pessoas?

Querem tudo mastigadinho? Tudo com a escrita mecânica e previsível dos colunistas “monogeracionais” (e monotemáticos) que jogam para a plateia almejando meia dúzia de likes condescendentes?

É por isso que eu me cansei dessa fraude paralisante que é ficar retroalimentando a idolatria capenga do colunismo de vitrine nos espaços digitais públicos que simulam diversidade – mas que, no fundo distribuem tutela.

O debate público está precarizado demais, emocionalizado demais, ‘claquetizado’ demais, servindo ao próprio monstro da indignação forjada, empresarial, que gera essa réstia infame de energia digital para manter vivas as plataformas confusas no pão nosso – amassado – de cada dia.

É um processo permanente de despolitização.

Quando eu defendo a candidatura do Jilmar Tatto, por exemplo (pelo direito que ele tem de ser candidato, pela escolha partidária a que o eleitor deve e pode ter direito) eu peço aos convictos psolistas ou aos “petistas antipetistas” que votem no Boulos com todo o tesão eleitoral que lhes convier – e manifesto minha torcida para que Boulos vença ou tenha um maravilhoso desempenho.

Mas quem entende esse tipo de postura avessa às igrejinhas e à pancadaria sub ideológica?

O tédio é grande, a chance é única e o momento é crítico. Seria a deixa para retomarmos o raciocínio histórico e a subjetividade perdida.

Mas a lona de circo armada no “empreendedorismo da esquerda digital” vai exercendo o papel de atrasar em mais alguns anos (ou décadas) a restauração da consciência de classe.

E ninguém escapa, nem os nossos ídolos do passado recente.

Nisso, a democracia realmente existe e cumpre seu papel: as armadilhas da linguagem e do sentido abduzem do mais humilde trabalhador sem escolaridade e sem acesso à internet ao mais celebrado e incensado dos intelectuais orgânicos da esquerda progressista.

É uma espécie de espelhamento pedagógico do simulacro da covid-19: o vírus da ignorância e do autoengano ideológico atinge a todos sem distinção de classe, cor, credo ou medo.

É por isso que é bom viver perigosamente: porque simplesmente não existe a outra possibilidade.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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2 Comentários
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  1. Zé Sérgio

    20 de outubro de 2020 4:56 pm

    A pergunta que deveria ser feita é o que PT e PSOL tem de diferentes? Qual é o Projeto de Governo que não poderia ser adensado nas Campanhas dos Partidos Progressistas ou Socialistas? A mesma coisa em Partidos que se dizem Conservadores? Por que temos mais que 2 ou 3 Candidaturas realmente sérias e consistentes? Por que temos mais que estes mesmos 2 ou 3 Partidos Políticos? Podem ser centenas, mas com relevância? Relevância em qual Projeto de Governo e Estado. Usemos desta ‘ sinuca de bico ‘ ente Boulos e Tatto. O que Eles e seus Apoiadores, podem oferecer de tão diferente para a Cidade? Ou neste caso tão singular da Capital Paulista, o que está em jogo é o “Trampolim” para saltos maiores? A Política então, mas principalmente a Cidade de São Paulo, tornou-se isto? O dote que vem com a Noiva? A Política Brasileira continua tão mesquinha e oportunista como nestes trágicos 90 anos. Pobre Cidade Rica. Mas de muito fácil exploração.

  2. Marcello Sokolowski

    20 de outubro de 2020 5:59 pm

    Boa Conde. Sinto essa opressão da burrice digital também. Boulos com pt não seria Boulos pois foi criado contra o pt. Porém sem o pt não há eleição de Boulos, sem os votos do pt Boulos é um nanico. Surge daí o que você está falando, a opinião do fulano, tentando nos empurrar um boulos inflado. Inflado pela folha e veja…ops, que bandeira.

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