Com Aristóteles, clamamos: deuses e bestas, fiquem fora da política!
Na crise da democracia, devemos ir aos clássicos. Aristóteles dizia que o homem é um ser sociável por natureza. É um politikon zoom, animal político. Ou isso, ou somos deuses. Ou somos bestas.
Por isso, foi enfático: a política é uma ciência estritamente humana, não é assunto nem de bestas nem de deuses.
Também Aristóteles dizia que, por ser um animal político, o ser humano busca parceiro(a) para se unir e formar família, grupos e assim vai.
Talvez hoje em dia o homem (ou mulher) busca parceiros de WhatsApp para formar neocavernas. É o novo “homowhatszapiens”.
Acima dos grupos humanos estão os grupos de WhatsApp. Viva. E o TikTok, é claro.
Platão, professor de Aristóteles, talvez tenha sido o primeiro a criticar as bestas, os néscios. Contra esses, formulou a Alegoria da Caverna.
As sombras são sombras, denunciava. Mas de nada adiantava. O rei filósofo foi apedrejado ao dizer que as sombras não eram a realidade.
Hoje em dia já não há fatos. Há apenas narrativas. Mas, como vimos, isso é coisa velha. E, pior, sempre cabe qualquer narrativa. Eis o novo mundo. Vasto mundo. Que, assim, pode, sim, ser chamado de Raimundo, para desdizer o poema de Drummond.
Hoje já é possível dar às palavras o sentido que se quer, dando razão ao personagem Humpty Dumpty, de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll.
Como exercitar a democracia nestes tempos em que já não há fatos? Eis a pergunta de 2.500 anos de filosofia. E de política.
Pergunta-se: do modo como se apresentam, hoje, as redes sociais são compatíveis com a democracia?
As redes, com seus algoritmos e quejandos, criam seus próprios critérios de verificação. É esse o ponto. Daí a incompatibilidade com a democracia.
A democracia moderna é uma questão de linguagem pública. Há critérios para se dizer as coisas — e esses critérios são públicos, construídos intersubjetivamente.
Por isso não surpreende os “outsiders”. Outsider é quem vem de fora do jogo de linguagem da política. As redes facilitam isso. Por quê? Ora, exatamente porque criam seus próprios critérios de verdade.
O que é uma república? A resposta é polis. É res pública. Coisa pública. Política. Coisa essencialmente pública. Porém, quando o meio de se fazer política passa a ser as redes, privatiza-se os critérios de verificação. Desaparece a mediação.
Daí passam a valer todos os paradoxos e paroxismos: gente contra a corrupção que tem orgulho de sonegar. Médico a favor de cloroquina. Médicos que possuem autonomia absoluta para receitar cloroquina; mas canabidiol, não. Pastores e evangelizadores que apoiam tortura, misturam o que é de Deus e o que é de César para prosperar (anti)politicamente com base na fé alheia. Fracassamos? A pergunta é retórica.
As redes permitem isso, porque, assumindo o já paradoxal papel de meio — porque não há mediação —, substituem a política, pública e tradicional, por um simulacro em que os critérios são ad hoc.
A mentira como critério da verdade.
A política foi degenerada — pelos tais outsiders — e, fundamentalmente, “evangelizada”: pastores da fé e da carteira alheia, “padres” de festa junina — os outsiders de um Estado que é laico.
A esperança? Recuperar o politikon zoom. O animal político. E não as bestas “políticas”.
Afinal, fatos existem, por mais que as narrativas queiram se impor. E, sim, as sombras eram mesmo sombras.
Às vezes, o padre é mesmo só de festa junina. E o que é de Deus não é de César.
A política é pública. Como disse Aristóteles, a política não é assunto nem de bestas nem de deuses.
Logo, como os tais “outsiders” e os protagonistas — que misturam religião e sua (anti)política — à toda evidência não são deuses, resta-lhes a segunda hipótese, segundo o velho Aristóteles: bestas.
Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional, pós-doutor em Direito e sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados.
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Antonio Uchoa Neto
20 de outubro de 2022 9:56 amDeus é o que o homem quer ser, ou julga já ser. E besta é o que ele é. A Rede Social é a nova caverna – nenhuma dúvida quanto a isso. Mas a caverna dos nossos antepassados era apenas um abrigo, para mantê-lo a salvo das intempéries e dos predadores. A Nova caverna é a intempérie e o predador – com a diferença trágica de que essas duas antigas inimigas são agora de nossa própria criação, e nos envolvem em seu abraço como bons amigos que aparentam – e fingem – ser.
Não creio em Deus, ou deuses em geral. Não existem, senão em nossas mentes e desejos, em nossos temores e sonhos. Gostaria imensamente de dizer o mesmo em relação às bestas.
O único espírito cuja existência a ciência – e nem seria necessário recorrer a ela, a observação empírica já seria o bastante – comprova é o de porco. Infelizmente abundante nessas paragens brasílicas.
Mas a ciência, hoje, e particularmente aqui, nessas mesmas paragens brasílicas, é anátema. Ela não pode ajudar quem sequer desconhece sua existência e propósitos – por baixo, 90% de nossa população infeliz.
Adeus Aristóteles! O mundo é dos alexandres pequenos, que nem bestas chegam a ser – são apenas metidos à bestas.
Enquanto a ignorância – leia-se, a falta de educação formal, instrução, cultura, capacidade crítica e de apreciar a arte e o conhecimento – prevalecer, as bestas prosperarão. Nem que seja preciso recorrer aos deuses, como temos feito nesses últimos milênios. Para isso os criamos, esta é a sua utilidade: a de cabresto.
Prezado Lênio Streck, tudo está sob controle; e se sair do controle, por escassos 13 nos que sejam, sempre haverá masmorras de curitiba espalhadas por aí. Lá não entram deuses nem bestas; apenas sonhadores incorrigíveis.
Os sonhadores sempre voltam ao local do sonho.
E sempre são apanhados, quando começam a tentar despertar o ser humano adormecido dentro das bestas. Ou dos deuses – como distinguir, se são todos humanos?
Antonio Uchoa Neto
20 de outubro de 2022 10:39 amCorrigindo o texto, a frase correta é “Ela não pode ajudar quem sequer conhece sua existência e propósitos”. Mais abaixo, onde se lê “13 nos”, leia-se “13 anos”.
Desculpem os erros.
Fábio de Oliveira Ribeiro
20 de outubro de 2022 11:07 amNós estamos assistindo o fim da democracia ocorrer com requintes de ironia, pois o militar carioca que governará São Paulo como interventor bolsonarista não está sendo imposto a força como ocorreu em 1930. Ele será eleito pelos paulistas, ou seja, pelos descendentes dos soldados que lutaram contra a União na guerra de 1932 justamente porque um militar interventor mandou matar um punhado de jovens paulistas que se insurgiram contra o autoritarismo. Meu avô e meu tio avô foram soldados paulistas em 1932. Eles devem estar rolando de raiva nos túmulos deles nesse momento.