Da normalização do mal…, por Eduardo Ramos

A normalização do mal é essa capacidade doentia, imoral, antiética, da sociedade seguir uma vida cotidiana sem ter sua paz social abalada mesmo no meio de toda a sorte de perversidades

Da normalização do mal…

por Eduardo Ramos

A expressão não é criação minha. Me foi dada de presente pela amiga Silvana Conterno ao comentar um texto meu sobre esse Brasil perverso que nos tornamos. Assim que a li, esse texto veio praticamente na íntegra à minha mente, duas perguntas pulsando furiosamente: primeiro, como eu deveria/poderia conceituar essa “normalização do mal”. Segundo, em que ela seria diferente da consagradíssima expressão de Hannah Arendt, a “banalização do mal”? Não seriam iguais, idênticas…?

Por ter encontrado uma resposta que me satisfez inteiramente, e dentro dessa resposta, diferenças sutis mas marcantes entre uma e outra, resolvi colocar “no papel” essa reflexão, por acreditar que a NORMALIZAÇÃO DO MAL em nossa sociedade é, hoje, como um câncer psicossocial, que nos adoece, nos cega. nos deprime, nos deixa entregues “à própria sorte”, o que na verdade, jamais existe em sociedades humanas, ficamos entregues, essa é a realidade, à sanha, à insanidade, à intolerância, à perversidade infernal, de seres bestiais como Bolsonaro, a seres covardes, omissos e cínicos, como a maioria dos ministros das altas cortes jurídicas do país, ficamos entregues a uma mídia venal, corrompida, que utiliza tons e matérias de acordo com os ventos políticos e os interesses das oligarquias, ficamos entregues a um dos Congressos mais hediondos de nossa História, e, por fim, ficamos entregues à catatonia de uma elite e uma classe média rasas, deseducadas, ignaras ao extremo, narcísicas em suas auto-imagens lustradas a bens, viagens e penduricalhos, mas sem cultura real sobre História, Sociologia, Política, Filosofia…. Estamos entregues, portanto, ao conjunto de forças que fez e faz desse país, há 500 anos, esse horror permanente, de fome, miséria, injustiças, degradações, um vexame eterno aos olhos do mundo civilizado, que com razão, nos vê quase sempre com vergonha alheia e desprezo.

O que, afinal, a tal da “normalização do mal” tem a ver com tudo isso descrito acima? É o que pretendo decifrar.

Quando utilizou nas primeiras vezes a expressão “a banalização do mal”, uma Hannah Arendt perplexa, o fez porque percebeu que muitos nazistas ao falar de seus crimes no julgamento de Nuremberg, o faziam com uma naturalidade que beirava o absurdo. Quase que na totalidade dos casos se eximiam de qualquer culpa ou responsabilidade, por estarem “cumprindo ordens”, e ela não viu neles traços exacerbados de psicopatias ou diferenças gritantes entre eles e “o resto da humanidade”. Deveria haver explicações super complexas para o comportamento monstruoso, mas seu espanto, que ela levou semanas para digerir, foi o oposto: eram HOMENS NORMAIS PRATICANDO AÇÕES DE PERVERSIDADE JAMAIS VISTA, na dimensão do que foi o Holocausto. Foi dessa descoberta, que muitos até hoje rejeitam porque parece um contrassenso, que a fez perceber que muitos nazistas eram HOMENS COMUNS, CAPAZES DE TORNAR O MAL ALGO BANAL, mesmo o mal em uma escala máxima de covardia, maldade, sadismo, intolerância, perversidade. A partir daí escreveu vários livros tendo como base sua frase mais genial, um conceito que hoje ganhou vida própria, é estudado praticamente em todas as Universidades e nações.

A “normalização do mal”, seria uma extensão desse conceito, poderíamos utilizá-la nos referindo aos alemães que, sem praticarem diretamente os atos de maldade dos nazistas, eram omissos e/ou indiferentes, SEGUINDO NORMALMENTE EM SUAS VIDAS, mesmo vivendo em um país governado por um genocida bestial e demente, mesmo mergulhados em uma guerra mundial provocada por esse líder, e mesmo tendo visto e até participado, dos primeiros passos de violência, tortura e perseguição contra vários grupos sociais, não apenas os judeus, sem com isso se importarem.

A normalização do mal é essa capacidade doentia, imoral, antiética, da sociedade seguir uma vida cotidiana sem ter sua paz social abalada mesmo no meio de toda a sorte de perversidades, injustiças, crueldades, ações bestiais contra uma parte do seu próprio povo.

Podemos dizer que aconteceu na Alemanha nazista, podemos dizer que tem acontecido de forma constante e crescente no Brasil de hoje.

A normalização do mal no Brasil acompanhou a banalização do mal no Brasil: compreendamos o que isso significa.

Enquanto Moro, Janot, Dallagnol e cia., com a colaboração indispensável, por covardia e omissão na maioria das vezes, dos ministros do STF e a cumplicidade criminosa da mídia, rede Globo à frente do processo hediondo, perseguiam Lula, Dilma e o PT, destruíam todos os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição, entregavam aos EUA segredos de Estado e das nossas maiores empresas, promoviam uma destruição sem precedentes de duas cadeias de indústria pesada, petróleo e gás e construção civil pesada, provocando um desemprego recorde, miséria, fome e desespero – A ISTO CHAMAREMOS A BANALIZAÇÃO DO MAL, PORQUE HOMENS COMUNS CAUSARAM TODO ESSE HORROR… – uma sociedade tornada fanática, preconceituosa, e ensinada a odiar Lula e o PT como “O SATANÁS DE SUAS VIDAS”, a tudo assistia sem enxergar qualquer desses males, na verdade, a maioria das pessoas de nossa elite e classe média exultou com a Lava Jato, fizeram de Moro e Deltan seus heróis, e celebraram a operação dos homens de bem que enfrentaram e derrotaram “a corrupção dos petralhas” – A ISTO CHAMAREMOS A NORMALIZAÇÃO DO MAL, ESSA CAPACIDADE DE HOMENS E SOCIEDADES CONVIVEREM NORMAL E LIVREMENTE COM UM PROCESSO PERVERSO, CRUEL, ONDE VIOLÊNCIAS SÃO COMETIDAS CONTRA HOMENS E GRUPOS SOCIAIS TORNADOS EM “INIMIGOS DA SOCIEDADE”.

Assim enxergamos o que houve no Brasil, assim enxergamos uma diferenciação dos conceitos – banalização do mal (sua feitura, sua realização por esses homens comuns…) e normalização do mal (a aceitação do mal como normal, e até bom, pelas pessoas e sociedades que vivem aquele processo doentio…

Termino esse artigo refletindo, com profundas tristeza e dor, que nada mudou no Brasil tornado ainda mais bestial e demente, o Brasil dos Bolsonaro!

Temos uma réplica de tudo o que vimos na Lava jato, mas piorado, tornado mais intenso, mais perverso, mais selvagem (e olha que a Lava jato foi quase imbatível em selvageria e bestialidade por parte da mídia, de juízes como Moro, Cristina Lebbos e Gabriela Hardt e a própria sociedade, como nos episódios das trágicas perdas de Lula, do irmão Vavá e do neto Arthur, quando o pior do Brasil aflorou em autoridades e “cidadãos de bem”…).

E apesar dessa exacerbação da bestialidade, da incivilidade em grau máximo, da violência, do assassinato em massa que representam as mais de 200.000 mortes pelo corona-vírus, muitas delas evitáveis se tivéssemos um governo minimamente humano e decente, apesar de todas essas coisas, seguem os militares no poder (covardes, covardes, covardes!), a família miliciana, o Congresso, o Judiciário e o PGR por omissão cúmplice, a mídia, que jamais usou o tom terrorista contra Bolsonaro, mas usaram dia e noite contra Lula, Dilma e o PT, seguem essas corporações todas, fazendo o mal, calando sobre o mal, apoiando o mal, enfim, a prática da BANALIZAÇÃO DO MAL.

A sociedade brasileira? Aparentemente, a metade o celebra, ao “mito” (sic…), numa demonstração deprimente do que somos enquanto nação bárbara, incivilizada, inculta, deseducada e ignara… A outra metade, deplora, lamenta, os mais lúcidos chegam a se deprimir, mas na verdade, fomos, cada um ou cada grupo do “seu jeito”, nos acostumando, normalizando dentro de nós a situação, tocando as vidas, à espera de uma espécie de “milagre”, que não virá – só a ação política tira déspotas do poder! – ENFIM, A NORMALIZAÇÃO DO MAL permeando nossas vidas, nossa sociedade.

Todo esse processo iniciou lá atrás, com a Lava jato, Bolsonaro é fruto de todas as perversidades, crimes, permissividades inacreditáveis (das instituições e da sociedade!) concedidas a esses falsos heróis, para “agirem em nome do bem contra os canalhas petistas” – era o ÓDIO E O NOJO falando, não a razão, a ética, e o que trazemos em nós de civilizado.

Deu no que deu.

Levaremos sim, décadas para reconstruir, um dia, um Brasil democrático, civilizado e digno.

O fanatismo e o ódio fizeram de nós esse horror.

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(eduardo ramos)

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