De contêineres a fluxos, salvem o SUS, os palhaços e os laços, por Cristiane Hillal

Alguém pode mesmo supor que o Estado faltante para aquelas pessoas é o Estado policial, e não o que dá chão, teto, nome, riso?

Flavio Falcone – Público.pt

do Coletivo Transforma MP

De contêineres a fluxos, salvem o SUS, os PALHAÇOS e os LAÇOS

por Cristiane Hillal

(RADICAIS E INTRANSIGENTES, reuni-vos para cuidar, cantar e dançar!!)

 O fluxo passava por mim. Era de sangue, suor, cachaça e lágrima. De noite, na frente de um contêiner gigante, ao lado da cracolândia, no centro da cidade de São Paulo, eu ainda ouvia os ecos da paralisia diante dos gritos dos doutores da verdade.

Tentava entender por onde fluía o ódio que se acumula em contêineres maiores do que aquele em que eu via na minha frente e por onde eles extravasam. É fatal. Em algum momento, ódios, frustrações, egos feridos extravasam os reservatórios das aparências e nunca estamos preparados para isso, talvez porque uma parte de nós, de todos e qualquer um de nós, também seja ódio. Ainda que seja de um ódio ao ódio.

Em fluxos, me via tentando entender as armadilhas verbais, o que falta, o que excede, as convocações para a voz seguidas dos silêncios ensurdecedores, as justificativas infames, o fluxo das lágrimas de um contêiner maior que eu. Fluía de mim o que era meu, o que era dos outros, do Outro, de nós, de todos. Naquele dia, foi contra mim que fluiu a covardia, a vaidade, o ódio ao estranho e ao novo, ao que nos desconcerta diante do espelho. Mas em todos os dias o ódio flui para alguém. E, para alguns, flui todos os dias.  

No fluxo alucinado dos meus pensamentos, eu mal respondi ao motorista do uber quando me perguntou se eu tinha, mesmo, certeza de que era aquele o meu destino: um contêiner onde se lia “teatro”, no coração caótico de São Paulo.

Ele, que vivia do fluxo do trânsito, não conseguia entender que eu era inteira fluxo a ser contido dentro daquele contêiner naquela noite. Sem esperar explicação, ele fluiu.

Me vi, de repente, sentada diante de um palhaço.

Palhaço mesmo. Com sapato engraçado, roupa larga, maquiagem, nariz de palhaço. Meio abobalhado, meio constrangedor, meio triste, meio assustador…meio…  sei lá… um palhaço, ou o que Cristiane Paoli Quito, formadora, há décadas, de palhaços, definiu como: a “fragilidade partilhada”. (1)

E ele cantava, dançava, gesticulava, fluía pelo espaço entre corpos negros e trans. Corpos maltrapilhos, desconformes, desajustados e excluídos. Todos fluíam porque, afinal, viviam no fluxo. Crianças passavam de lá pra cá, entre encenações de violência policial, enquanto comiam pipoca e riam do palhaço. No caos de vidas que fluíam dentro daquele contêiner junto com a minha, eu não sabia quem interpretava e quem “só” existia. Quem era, afinal, o mais palhaço, o menos lúcido e o mais doutor por ali.  

Desde 2012, o médico psiquiatra Flavio Falcone, baseado nos princípios da política nacional de saúde mental, cuida de dependentes químicos que moram no fluxo da cracolândia.

O médico não demorou para perceber que se trocasse o jaleco branco pelo nariz de palhaço criaria o laço que é condição para todo cuidado que se preste.

“O Palhaço faz as pessoas rirem do erro. É o que você faz de errado, é o seu defeito e não sua qualidade que é colocada ali, na frente de todo mundo. E é assim que me conecto com aqueles que estão em uma situação de esquecimento completo, que são marginais,” explica o Doutor Palhaço em uma de suas entrevistas (2), no rastro de Federico Fellini que dizia que o clown era o símbolo de inadequação do homem frente à vida. Através dele exorcizamos a nossa impotência, as nossas contradições e principalmente, a luta desproporcional contra os fantasmas de nosso egoísmo, de nossa vaidade e de nossa ilusão”. (3).

O palhaço e todos aqueles corpos fluentes em palavras, gestos, música e dança, aos poucos, foram me arrebatando para a dimensão de humanidade mais temida de todos nós: a do imenso ridículo que é nos levarmos tão a sério. O profundo non sense da cracolândia e da dita “guerra às drogas”, ali escancaradas enquanto o palhaço cantava melancolicamente “cálice”, é a prova cabal de nossa profunda incompetência ética e estética.

Será que é mesmo possível, após tantas investidas fracassadas, que alguém ainda acredite que a “terra do crack”, que na verdade é mais terra da cachaça legalizada do que do crack, pode acabar por meio de operações policiais?

Alguém pode mesmo supor que o Estado faltante para aquelas pessoas é o Estado policial, e não o que dá chão, teto, nome, riso, toque, escuta, remédio, comida e agasalho?

De onde vem a estranha necessidade de eleger corpos inimigos para justificar e normalizar a violência e o aniquilamento? Quando vamos ter coragem de enfrentar a lógica binária do bom vencendo o mau na guerra, o estranho, o ridículo que não sou eu, que não mora em mim, mas sempre naquele outro que preciso exterminar porque não suporto ter como espelho?

Será que as pessoas estão excluídas socialmente por causa das drogas? Ou buscaram as drogas justamente porque eram excluídas socialmente?

Flavio Falcone estudou medicina e palhaçaria na Universidade de São Paulo e nas ruas. Aprendeu que há remédios que não se vendem em farmácias e que patologizar a vida e dar contornos moralistas a ela é a melhor forma de despolitização que existe. Quando deixamos de enxergar a engrenagem de poder que está gerindo e alimentando as dores psíquicas e culpamos os indivíduos por serem tão fracos, depressivos, tão pouco esforçados, tão ingratos, ignóbeis, sujos, maltrapilhos e feios… renunciamos à nossa capacidade de pensar e criar novas formas de vida coletiva que não dependam do adoecimento e do descarte de seres humanos.

O palhaço, que se faz na maquiagem, não suporta maquiar o mundo.

Em 2017, sob a justificativa de uma gestão eficiente, com cortes de gastos, o palhaço foi demitido do programa Recomeço do governo estadual de São Paulo. Ele não fazia nada, afinal …   

Não há lugar político, não há polis para um sujeito tão ridículo, de jaleco e nariz de palhaço, que dá palco e microfone para as vidas fluídas da cracolândia e as convida a cantar, atuar, dançar e falar, livres pelas ruas, em vez de manda-las para comunidades terapêuticas para as quais não há eficientes cortes de despesas.

   O Relatório Nacional de Inspeção em Comunidades Terapêuticas realizado em outubro de 2017, nas cinco regiões do Brasil, em uma iniciativa da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC/MPF) – em conjunto com o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) trouxe todo o extenso rol de atentados à dignidade da pessoa humana praticados em comunidades terapêuticas marcadas sob a lógica do retorno a um modelo asilar de afastamento da pessoa com transtorno mental do seio social e familiar. Castigos corporais, falta de liberdade de ir e vir, regime de trabalho forçado, sedações sem acompanhamento médico e toda sorte de maus tratos que se imaginavam superados, há décadas, retornam a esses ambientes que de comunitários ou terapêuticos só têm o nome (4).

Com viés religioso e moralista, as comunidades terapêuticas surgiram, em um primeiro momento, à margem do sistema público. Pregam a abstinência, são baseadas em modelos disciplinares rigorosos que massificam os indivíduos e não cultivam Plano Terapêutico Singular – na contramão do que ocorre nos serviços da Rede de Atenção Psicossocial que seguem os princípios da luta antimanicomial.  A despeito disso, as comunidades terapêuticas ocupam, hoje, o centro da Política Nacional Antidrogas. Segundo dados do Ministério da Cidadania, a quantidade de vagas financiadas pelo governo federal nessas entidades cresceu de 2,9 mil, em 2018, para aproximadamente 11 mil, em 2019. Na toada dessa política nacional, segue a política estadual. Prender em prisões ou manicômios disfarçados: essa é a meta. O ridículo, de fato, prescinde de um palhaço. (5)

“Se lembra da jaqueira, a fruta no capim, do sonho que você contou pra mim?”, cantava o palhaço enquanto a bailarina negra se contorcia em malabares, o MC preparava seu microfone dourado e a criançada interpretava as almas com perfume de jardim dentro do contêiner.

“Sabe porque o palhaço está de preto e vermelho?”, me perguntou o defensor público sentado ao meu lado que eu acabava de conhecer. Diante do meu fluxo de espera, ele respondeu: “por causa de EXU, que abre os caminhos”.

E assim, pelos caminhos abertos por EXU, dentro de um contêiner teatro, cercada de corpos negros, trans, pobres, sonhadores e cantantes, no laço de um palhaço, em uma noite miserável qualquer, eu fui, radical e intransigentemente, fluxo.

Se lembra do futuro que a gente combinou?
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar, que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou

Mas não me deixe assim
Tão sozinha a me torturar
Que um dia ele vai embora
Maninha, pra nunca mais voltar.
(6)

Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

Leia também:

Como Dória perdeu a batalha da cracolândia, por Luis Nassif

Cracolândia – uma Política Higienista, por Arnobio Rocha

A estratégia de Frankfurt para lidar com sua ‘cracolândia’

O que está por trás da ação higienista na cracolândia, por João Sette Whitaker

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador