Como Dória perdeu a batalha da cracolândia, por Luis Nassif

Sem ser um conciliador, Dória poderia ao menos ter ocupado o lugar da direita racional, se fosse menos direita e mais racional. Mas deixou um rastro de destruição complicado em sua passagem pela Prefeitura.

É curiosa a trajetória do governador paulista João Doria Jr, que parece ter entrado em um processo autofágico.

Primeiro, embarcou na onda do obscurantismo e da violência, com um discurso político virulento, de ódio, anti-social, com ações judiciais pesadas contra qualquer crítica e overdose de redes sociais.

Procurando surfar nas ondas do sentimento de ultradireita, Consolidou uma imagem de intolerância. Como alertei, no início do fenômeno Doria, com o fenômeno das redes sociais o tempo político tornou-se muito rápido e Dória perdeu o timing com as mudanças ocorridas.

Tosco por tosco, o espaço da ultradireita acabou ocupado por Bolsonaro; a esquerda, pelo PT. O território de disputa, o centro, cansou-se da polarização, do discurso de ódio, abrindo espaço para candidatos conciliadores.

Ao mesmo tempo, vem ocorrendo um fenômeno pouco perceptível – mas inevitável – nas grandes corporações, com questões éticas passando a ocupar um lugar relevante no seu planejamento, não apenas em relação à corrupção, como ao meio ambiente e às questões sociais. A modernidade chegou às empresas antes que a LIDE – a empresa de eventos de Doria – percebesse.

Sem ser um conciliador, Dória poderia ao menos ter ocupado o lugar da direita racional, se fosse menos direita e mais racional. Mas deixou um rastro de destruição complicado em sua passagem pela Prefeitura.

Assim que assumiu a Prefeitura, e depois o governo do Estado, recorreu ao mesmo estoque de medidas terraplanistas de Bolsonaro, investindo contra políticas sociais consagradas, apenas para atender o senso comum e manter a fama de mau. Para quem pretendia vestir o uniforme de governante moderno, foi um desastre.

Políticas sociais visam dois objetivos.

O primeiro, o de apoiar as populações mais vulneráveis. Essa noção de solidariedade costuma vicejar apenas em sociedades mais civilizadas. Em sociedades toscas, como a brasileira, é fácil explorar a falsa analogia de quem é a favor de pobre é a favor de bandido.

O segundo é que chagas sociais não condizem com economias de mercado que se pretendem modernas. Geram conflitos, aumento de criminalidade, distúrbios sociais, contaminam a imagem do governante, geram resistência nos investidores e nos grandes fundos, mais expostos às pressões das opiniões públicas de seus países.

Por isso mesmo, existe toda uma lógica, desenvolvida ao longo de décadas, para se buscar as soluções. A esse conjunto de estudos e princípios, se chama de ciência. Não tem a ver com esquerda ou direita, mas com o estudo continuado de práticas e desenvolvimento de metodologias.

No caso das políticas anti-drogas, há as medidas de redução de danos, de fornecer ao viciado um mínimo, reduzindo os danos à sua saúde, enquanto se trabalha na sua recuperação. Depois, as políticas de inclusão social, de sociabilidade, de oferta de alimentação e, depois, de emprego. Passa pelo trabalho de psicólogos, assistentes sociais, alimentação, oportunidade de emprego, círculos de apoio emocional, um conjunto de conhecimentos só disponíveis em sociedades modernas.

Assumindo a Prefeitura, a exemplo de Bolsonaro, Dória quis implementar o senso comum. Poderia ter consultado especialistas do PSDB. Preferiu ficar no terraplanismo, acabando com os programas sociais da Prefeitura,  tratando drogados como caso de política, expulsando-os da Cracolândia a golpes de cassetete e jatos de água gelada.

O que se tem hoje em dia é uma população de drogados espalhada pela cidade, várias Cracolândia instaladas, aumento do número de drogados e do consumo de drogas. Pior, sem recursos de programas sociais, os viciados bancam o vício com roubos e assaltos na região.

Pesquisa da UNIFESP, junto a 151 usuários de crack da cracolândia, constatou que o consumo de drogas não se alterou. 25%, aliás, opinam que o consumo aumentou.

Os pesquisadores estimaram um gasto médio de R$ 192,50 por dia, por usuário, perfazendo um total calculado em R$ 9,7 milhões por mês.

A política de Doria-Covas, de reduzir os hotéis sociais, acabar com os programas geradores de renda, conseguiu isso: o aumento do abandono, a consolidação de outras cracolância e um sentimento de vergonha que acomete cada paulistano, quando olha o aumento da população de rua.

A reação de Dória tem sido a de abrir reiteradamente ações judiciais contra as críticas, e se aproximando da parte mais execrável dos trânsfugas do bolsonarismo, consolidando cada vez mais a imagem do radical autoritário.

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