Democracia liberal. Muito além das perebas do ex-capitão
Armando Coelho Neto, com colaboração
O Brasil desconfiado nunca engoliu a facada contra o ex-capitão. Facada real que pode ter sido um erro de cálculo, pois o que seria farsa virou tragédia. Coisas de Odorico Paraguaçu, de O Bem-Amado (Dias Gomes). Na vida real, a bênção na barriga, feita pelo pastor Reuel Bernardino, cinco meses antes do episódio, não surtiu efeito. Rendeu o flagelo público para sensibilizar incautos, corações puros.
A facada deu flor. A clássica cena do mendigo exibindo a ferida para despertar piedade e comoção, com nítidos propósitos de pedir esmolas, digo, votos, ganhou notoriedade em horário nobre na grande mídia. A ferida física virou chaga moral, criminosa, oportunista e ou verdadeira tábua de salvação de um político moribundo. A doença mental é contagiosa e avança, tornando incerto o futuro do Brasil.
É que a democracia liberal, de tão liberal, tem permitido que neofascistas de plantão usem a democracia para acabar com a própria democracia. O liberalismo democrático já não soa adstrito e baseado na cultura geral, suportada em regras, costumes, valores morais e éticos ínsitos no contrato social. As instituições e autoridades que os representam estão sob ataques, sofrem pressões econômicas.
A tornonezeleira rombuda do ex-capitão realça a contradição, digamos, filosófica. A contestação da autoridade suportada nos valores vigentes, seria em tese, decorrência da luta de classes. Se oriundas do proletariado, seriam, na visão das classes favorecidas atos de subversão. Afrontar a democracia liberal soaria como terrorismo do proletariado. Entretanto, o ataque parte da própria classe dominante.
Em plena hora de “já ir” para a Papuda, o ex-capitão expõe mais que feridas físicas e morais. Entre soluços e refluxos dramatizados, entre a bile verde amarelada exsurge o fel da contradição. Leia-se a não aceitação das regras vigentes pelas classes dominantes. Ora pois. São elas que tentam romper as regras do jogo, e também não aceitam as respostas judiciais contra a quebra do contrato social.
Um tênue olhar sobre a Faria Lima, por exemplo, onde não importa a origem do dinheiro – se do trabalho ou da sarjeta, deixa claro que já não é preciso mais cumprir regras. O estado como estágio civilizacional possível perdeu o sentido. Está em curso um novo arranjo político institucional, no qual é visível a disfuncionalidade do Estado, o que torna mais delicada ainda a sobrevivência da democracia liberal.
A contestação já não parte mais de uma classe que precisa se organizar para poder fazer frente a um poder que explora, escraviza e se enriquece. Na prática, o próprio poder econômico, que tem o estado nas mãos, não consegue se desvencilhar de suas próprias tramoias. A classe dominante se arvora em contestar o estado suportado no ideário dominante, suas instituições instrumentais, a democracia.
Se antes Deltan Dalagnol e Damares conversavam com Deus, computadores e goiabeiras, o perebento (versão lunático) conversa com a tornozeleira eletrônica. Em cena, o jogo perigoso deles contra eles, de forma que a parcela da classe dominante já deteriorada se perde na representação política. Faz política negando a política, perdida entre o factível e o digerível: “já que não tem tu, vai tu mesmo”.
Sim, “tu” podes até nem ser o cara, mas na hora agá vai ser preciso passar um pouco de batom em algum porco. Tarcísio? Caiado? Zema? E se o Derrite derreter? E se de repente surge outro Pablo Marçal? Nada de novo. Os militares já passaram batom noutro porco e deu no que deu. O clima é de desespero. Que tal apelar para o drama? Um porco internado, outro preso, um perdido, outro foragido.
Drama é pouco, talvez algo cinematográfico, mas o roteirista está perdido, e o que restou da institucionalidade está fragilizado. A luta política hoje é dentro da classe dominante, onde ela já não encontra mais espaço. Precisa de pilantragem, não haja regras, que o mundo seja mais pilantra do que já é. Então que tal um “laissez-faire” caboclo, um tanto bílis um tanto fel com toque mulato e sem taxas do Trump?
Muito além das perebas do ex-capitão, a democracia liberal agoniza. A classe dominante briga para torrar direitos, explorar trabalhador sem regra nenhuma, sem previdência; quer explorar jogos, prostituição, financismo sem regras confiáveis, direito de traficar, falsificar e ou adulterar produtos, comprar órgãos… Mas, as moscas sobre o corpo moribundo a la “já ir” atrapalham tudo. E o Lula, heim?
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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Euclides Roberto Novaes de Sousa
26 de novembro de 2025 12:01 pmTexto curto e grosso. Certeiro.