Em busca de alternativas para a oposição e as mídias, por Jean D. Soares

O presidente atual vai servindo de cortina de fumaça para a consolidação de ideias há tempos abandonadas.

Refém das narrativas alheias?

Em busca de alternativas para a oposição e as mídias

por Jean D. Soares

O Brasil vive uma situação particular no que se refere à distribuição das forças políticas. Parte relevante da oposição se torna cada vez mais estranhamente legalista e, em alguns casos, passou a buscar colocações em cargos eletivos ou burocráticos ao invés de disputar o espaço político ele mesmo. O motivo? Seria uma forma de manter a institucionalidade, de lutar dentro das regras do jogo. Esqueceu-se porém que o jogo político vai  além das regras escritas e também supõe a disputa de narrativas. A situação, com o poder em mãos, usa o discurso revolucionário (“Tem que mudar tudo isso que tá aí, tá ok?) como álibi para a defesa de interesses pessoais. Abusa das narrativas falsas, tanto econômica (“O país está quebrado”) quanto socialmente (“No Brasil ninguém passa fome”). E muitas vezes ganha, mesmo quando perde. Se seu polo mais extremo perde força, ganha dinamismo seu mecanismo central que se perpetua no poder do país desde tempos imemoriais. O presidente atual vai servindo de cortina de fumaça para a consolidação de ideias há tempos abandonadas.

Para não chover no molhado, entretanto, é preciso pensar como ultrapassar a sensação de inépcia de uma oposição de esquerda legalista e sanitariamente contida pelas medidas de distanciamento do CoronaVírus. E um dos meios pelos quais passa essa mudança é a transmissão de informação para mais pessoas, para além daquelas que são de esquerda.

A situação possui formas de mídia diferentes. Se pensarmos na direita brasileira tradicional, ela tem uma longa relação com a mídia: os jornais, as revistas, os canais de TV e as estações de rádio. O que os atores da extrema-direita fizeram? Se apropriaram do discurso crítico da esquerda em relação à mídia tradicional e utilizaram uma mídia em ascensão para disseminar sua informação de forma mais rápida, mais direcionada e de forma a desconstruir a relação do público com os canais tradicionais.

Os pressupostos dos quais partiam eram o de que em redes de informação personalizadas, os atores dão mais credibilidade a informações repassadas por pares, bem como relações grupais, portanto sectárias, tendem a se insinuar como mais sólidas do que a relação do espectador com sua fonte tradicional. Através desse sectarismo, eles transmitiam com êxito informações distorcidas, falsas, descontextualizadas entre outras formas de elaborar uma narrativa que lhes dava tanto a independência típica até então das mídias ditas de esquerda, como também a permissão para afirmar os valores reacionários mais terríveis, eivados em preconceitos os mais profundos. A crítica à rede Globo é um exemplo clássico e lúdico de crítica de esquerda apropriada pela direita. O antipetismo, em sua face mais radical (“Fuzilar a petralada”), ou o “Vai esperar chegar o oxigênio. Não tem o que fazer” aparecem como exemplos terríveis do cinismo e da desfaçatez dessa nova forma de modular o discurso que se apoia nesses meios de transmissão da informação.

Pois bem, a emergência de canais de informação de esquerda vem bem a calhar e mantém um suspiro no meio de toda a loucura de informação que espalhou no Brasil de 2021. Muitas vezes os jornais tradicionais narram para benefício próprio de seus financiadores. Eles não se veem como uma ferramenta de escrita da história pública, mas geralmente como indutores de interesses particulares. Essa tendência foi escancarada quando das mobilizações que levaram ao golpe contra Dilma Rousseff. Mesmo se pensarmos na Folha de São Paulo, dita por pessoas da situação como um jornal de esquerda, vemos que ela possui forte participação do mercado financeiro e que seus interesses representam bem a “capitalização” que se faz dos grosserias presidenciais em prol do pensamento de direita.

Por outro lado, canais como a Mídia Ninja ou The Intercept que fazem um jornalismo investigativo importante não tem servido como ferramentas amplas e plurais o suficiente para fazer frente a esse jornalismo tradicional e macropolítico, pois são no mais das vezes micropoliticamente engajadas na discussão de pautas específicas. Então chegamos à pergunta crucial na nossa era , a saber, como criar um canal capaz de transmitir informação de interesse público e ao mesmo tempo furar os interesses de bolha que muitas vezes pautam os veículos.

Lendo este GGN, posso dizer que algo se ensaiou. Nassif mostra-nos sempre esse esforço por compreender o fato antes de manifestar interesses, bem como o cuidado em discutir os interesses já impressos na notícia. É preciso reunir todos os esforços micropolíticos em um canal plural, amplo e cujo discurso seja acessível e dirigido à população.

A campanha de Boulos em São Paulo demonstrou um pouco como fazer isso. É precisar falar com as pessoas nas ruas, nas redes, onde for possível ouvir sua forma de ver o mundo e apresentar a partir desses pontos informações novas, capazes de levá-las a pensar. Sem doutrinar ninguém, mas disputando o sentido público da informação, a forma pela qual elas se alinham para criar uma narrativa histórica.

Este GGN faz um esforço notável na direção de escutar seus leitores, publicá-los e ampliar o debate. Ajuda assim a escrever uma outra história do Brasil recente com seus “Xadrezes”, reportagens técnicas bem ajustadas, dados acurados e gráficos inteligentes.

Se adicionarmos a essas fórmulas a estrutura necessária a sua amplificação e duração, se somarmos inciativas de jornalismo aberto à voz da população, talvez encontraremos aí uma nova forma de criar um país cidadão. Enquanto estivermos entre as mentiras propagadas por redes sociais e as distorções da mídia tradicional, o país seguirá à deriva em mar de piratas de colarinho branco. Precisamos de uma oposição que saiba se apropriar dessas novas possibilidades abertas, que ouça o whatsapp, que ligue pro tiozinho, que se emociona com as histórias duras da vida de quem se expõe pelo pão de cada dia. Precisamos explorar essas possibilidades não só para construir um país melhor, mas também mais bem informado, capaz de acreditar nas suas próprias potencialidades e ideias.

Jean D. Soares é  músico, investigador em filosofia e desenvolve projetos de convivência em espaços públicos.

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