4 de junho de 2026

Entre tapas e beijos, por Antonio Machado

O contraditório também vale: o que quer de nós o governo Trump, ou, conforme o seu estilo personalista, o que quer Donald Trump?
Official Whte House Photo by Joyce N. Boghosian

Entre tapas e beijos

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por Antonio Machado

Interesses comuns aproximam Brasil e EUA, apesar das diferenças de visões entre Trump e Lula

A poucos dias da entrada em vigor da tarifa com o gosto amargo de sanção econômica de 50% sobre as exportações aos EUA, ainda falta ao governo clareza sobre o que e como negociar algo menos severo.

O contraditório também vale: o que quer de nós o governo Trump, ou, conforme o seu estilo personalista, o que quer Donald Trump?

A resposta a tais incertezas pode ser simples, se considerarmos o que os partidos Republicano e Democrata buscam desde a eleição de Trump em 2015: conter o poderio tecnológico, militar e econômico, nessa ordem, da China, e reaver a fabricação local do que as suas próprias empresas terceirizaram para países com mão-de-obra barata e disciplinada, regulação fraca e tributação muito baixa.

Apple, Nike e Nvidia, por exemplo, fabricam a totalidade do que vendem nos EUA em fábricas de empresas sobretudo da China, dando nexo à globalização contra a qual Trump e antes Biden se opuseram em graus variados em resposta a seus eleitores. O que leva o nome de neoliberalismo virou expressão maldita a boa parte dos EUA, tal como com a chamada “financeirização” das relações produtivas.

Atentemos que o início da decadência da manufatura brasileira nos anos 1980, quando nossa indústria de transformação era maior que a da China e Coreia do Sul combinadas, coincide com a largada da expansão do chamado modelo de produção asiático, inspirado com aperfeiçoamentos no nosso projeto de desenvolvimento dos anos 1950 a 1970. Brasil e EUA se perderam no mesmo momento.

Mas isso é história, o que não empolga Trump nem Lula, políticos com idade avançada, 79 anos, com intervalo de quatro meses entre um e outro, narcisistas, e prestes a enfrentar eleições decisivas. Nos EUA, em novembro de 2026, será renovada a totalidade da Câmara e parte do Senado, nas quais a maioria republicana é estreita, e Lula e a esquerda vão às urnas um mês antes, com risco para ambos de ampliar-se a já folgada maioria de centro-direita no Congresso.

Trump e Lula procuram objetivos comuns, embora divergentes quanto às visões de mundo e do que representam para os seus seguidores. É resultado o que pode uni-los, sem implicar que tenham de desistir de suas preferências ideológicas. Essa iniciativa cabe ao Brasil.

O que importa negociar

Três áreas de desenvolvimento econômico são críticas para Brasil e EUA. Com ou sem tarifaço e mesmo ao tempo do segundo governo de Lula, já deveriam estar em execução com a mesma prioridade que se deu à exploração do petróleo do pré-sal. E sem favorecimentos.

O primeiro é a exploração de minerais estratégicos, vulgo “terras raras”, uma lista de 17 elementos todos escassos na natureza, que entram na composição dos bens da economia digital, de smartphone e smart TV a carro elétrico e híbrido, bateria e placa para energia solar, lentes e componentes de mísseis, entre outras aplicações.

China é o maior produtor, com 49% das reservas de terras raras no mundo e 69% do refino. Brasil é o segundo no mundo em reservas com 23% do total, mas ínfimos 5% de produção. Nessa lista, EUA tem 2% das reservas conhecidas e 11,5% do refino. É de interesse mais que urgente a exploração desses minerais, ampliar a nossa produção de nióbio e lítio, e essa pode ser a oportunidade para as negociações com EUA, sem privilegiar nenhum país.

A digitalização dos processos é outro campo de desenvolvimento em que estamos atrasados, assim como o uso aplicado da inteligência artificial (IA), ferramentas do mundo digital alavancadas por data centers (DC). DC equivale ao digital como a geração de energia, as duas circulando por redes cabeadas ou não. Energia não nos falta e a custo acessível, excluindo o ônus desarrazoado da tributação.

Nos EUA, é escassa e cara o que temos em excesso, energia e água, enquanto a tecnologia aplicada, especialmente de semicondutores, é abundante a custo relativamente baixo. A terceira área possível na mesa de negociação é o desenvolvimento conjunto de inovações que criam mercados (ICMs), fazendo a ponte entre produção e serviços.

Como apimentar a relação

O relacionamento inovador, como o gerado pelo tarifaço sem causa de Trump, é aquele em que você abre conversa contando algo que a outra parte não sabe e passa a desejar ao saber. Já passou o tempo de descomoditizar a economia, excessivamente pautada pelas contas fiscais e dependente da exportações de commodities (grãos, minério de ferro, petróleo). Isso todos têm e adicionam pouco valor.

As oportunidades para distensionar a relação entre um presidente que cultiva um sentimento antiamericano desde quando era um líder sindical e outro que quando levava vida de playboy já falava que tarifa era a salvação dos EUA terão de vir fora da caixa. O czar chinês Xi Jinping e o seu vizinho indiano Narendra Modi têm tais ambições de liderança e são bem-sucedidos no relacionamento aziago com Trump sem vergar a espinha nem armar palanque contra os EUA.

Algumas pré-condições devem ser observadas. Trump e Lula não são de terceirizar decisões, mas delegam a auxiliares o que não lhes convém vocalizar. Trump delegou ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, um milionário que fez fortuna especulando com moedas, as negociações com Japão, já encerradas em boa parte, China e Índia. Lula passou ao vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, moderado e próximo ao capital, missão semelhante.

O fez, em tese, para levantar a bandeira da soberania nacional em sua campanha eleitoral antecipada. Nestas semanas em que se tateia o que pode levar ao adiamento do tarifaço ou sua substituição por algo mais digerível, convém passar despercebido ao “cowboy”. Por exemplo, ignorar os Bolsonaro – mão de gato de Trump e sem a menor condição de o ex-presidente ambicionar papel relevante em 2026.

Tempo de abrir os olhos

A polarização entre Lula e Bolsonaro é hoje mais suposta que real e isso porque ela interessa aos dois, já que vai ficando clara a intenção da centro-direita de disputar a presidência e, vencendo, unificar a sua maioria parlamentar à governança do executivo.

Os possíveis candidatos centristas perceberam que Bolsonaro mais atrapalha que ajuda. E pior que isso: sem maioria parlamentar, ao executivo resta o jogo mafioso das emendas, o que faz exacerbar a atuação do STF como poder moderador sem ter amparo constitucional.

Isso não tem futuro até pela mudança fiscal tornada obrigatória ao próximo governante, seja qual for. No realinhamento global das forças políticas e econômicas, melhor ter uma economia forte, com orçamento crível e não esculachado como o atual.

Desaforo e caos não são apreciados pelos senhores do mundo, ainda mais para o que é o maior mercado de consumo de massa que restou ainda potencial. É tempo de abrir os olhos…

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Carlos

    27 de julho de 2025 12:00 pm

    Meio fácil para China e Índia levar o débil mental americano na flauta.
    Primeiro, juntas suas populações representam praticamente 1/3 da população mundial.
    Segundo, se o maluco americano quiser apoiar algum quinta coluna usando como bucha para tumultuar o regime de China ou Índia, a China se desfaz rapidamente de um merda destes e a Índia coloca num avião e manda pra casa branca.
    Aliás sugiro mandar o rato para a casa branca, de tornozeleira e no estilo Nazareno: “tá com pena trump? Leva pra vc.

  2. Terezinha Arnoud

    27 de julho de 2025 3:31 pm

    Perfeito

  3. Lênin and The Ulianovs

    27 de julho de 2025 3:57 pm

    Sardenberg, é você?

  4. Anônimo

    27 de julho de 2025 5:32 pm

    Quem Antonio Machado? Não achei no texto

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