O pragmatismo de Lula como método de vitória retorna em 2026
por Gustavo Tapioca
Nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, o cenário político brasileiro foi sacudido por dois movimentos que, embora ocorram em salas diferentes do Palácio do Planalto, convergem para a mesma estratégia de sobrevivência e poder.
Primeiro, a sinalização do ministro Márcio França sobre a possibilidade de Gilberto Kassab (PSD) ocupar a vice-presidência na chapa de Lula em outubro. O argumento principal é o de que a inclusão de Kassab facilitaria a vitória de Lula, a governabilidade e a ampliação da base eleitoral e parlamentar.
Atualmente, segundo o Brasil 247, “o PSD liderado por Kassab é a sigla com maior número de prefeitos em São Paulo, o que amplia seu peso nas articulações eleitorais. Nesse contexto, um dos cenários cogitados por aliados de Lula seria oferecer a Kassab a vaga de vice em uma eventual chapa presidencial.”
Ponte entre governo e Centrão
O segundo movimento na direção do Centrão foi a posse do deputado José Guimarães (PT-CE) na Secretaria de Relações Institucionais visto como um articulador político que dialoga bem com o Centrão, tem histórico de relações estáveis com seus líderes e é considerado confiável por esse grupo — características que explicam sua escolha para fortalecer a ponte entre o governo e esse bloco parlamentar.
Para quem observa a política com o fígado, são movimentos que despertam dúvidas, sobretudo em relação à possibilidade proposta pelo ministro Marcio França para que Kassab figure na chapa como vice de Lula. Para quem analisa a política com a mente, é a confirmação de uma genialidade tática que Lula lapida há décadas.
Uma Retrospectiva Vitoriosa
A trajetória de Lula na Presidência é uma aula de realismo político. Ele compreendeu, antes de todos, que no Brasil não se governa — e muitas vezes não se ganha — apenas com a “pureza” da esquerda.
• 2002 O Pacto com o Capital
Para vencer o “medo” do mercado, Lula contratou o marqueteiro Duda Mendonça — egresso das campanhas de Paulo Maluf — e chocou o PT ao escolher o grande empresário José Alencar (PL) como seu vice. A “Carta ao Povo Brasileiro” foi o selo de um compromisso que garantiu a vitória 2022 e a reeleição em 2006.
• 2010 A Consolidação da Base:
Para eleger Dilma Rousseff, Lula buscou João Santana (ex-sócio de Duda) e selou a aliança com o MDB de Michel Temer. Embora o desfecho de 2016 tenha sido o traumático golpe legislativo, a vitória de 2010 e a reeleição de 2014 confirmaram que o “presidencialismo de coalizão” era a única via para a estabilidade.
• 2022 A Frente Ampla Democrática:
Diante do abismo autoritário de Jair Bolsonaro, Lula sacou seu movimento mais audacioso. Trouxe Geraldo Alckmin, seu antigo rival tucano, para o coração do projeto. O resultado foi a reconquista da democracia em uma eleição onde cada voto de centro foi decisivo.
O “Choque de Realidade” na Militância
Lula conhece sua base como ninguém. Em ocasiões anteriores, quando as alianças com a direita geraram ruído interno, o presidente não hesitou em confrontar os radicais com a crueza dos fatos, sugerindo que, se a alternativa da coalizão não lhes servia, o caminho seria o isolamento — ou o voto direto nos adversários.
Diante do cenário de 2026, onde o Datafolha aponta um empate técnico perigoso e a ameaça real de um segundo turno contra o filho de Bolsonaro ou nomes como Caiado e Zema, Lula parece projetar o mesmo choque de realidade.
Ao ser provocado pelos setores mais ortodoxos de sua militância, ele terá a autoridade histórica para repetir o ultimato numa forma mais indignada:
“Votem no filho de Bolsonaro, então. Deixem ele ganhar e entregar nossas terras raras e minerais estratégicos aos Estados Unidos em troca de um tapinha nas costas de Trump”. É o uso do absurdo para forçar a união em torno do que é essencial: a soberania nacional.
O Espelho do Mundo: Budapeste vs. Lima
O balão de ensaio atual em torno de Kassab e a posse de Guimarães respondem a um cenário global dramático. Na Hungria, a queda recente de Viktor Orbán provou que a autocracia só é vencida quando uma frente ampla unifica forças fora da bolha progressista.
A lição de Budapeste é clara: a pureza isolada é a antessala da derrota. Por outro lado, o Peru serve como o aviso do abismo. Sem lideranças aglutinadoras, a política em Lima virou uma guerra de fígados expostos que consome o Estado. Lula olha para o Peru e vê o que não quer para o Brasil: a fragmentação que imobiliza a nação.
A Coroação de uma Biografia Fantástica
Afinal, a história do nordestino sertanejo que migrou ainda criança com a mãe e os irmãos, fugindo da fome para se transformar no maior líder de trabalhadores do país, não admite retrocessos.
O homem que foi preso político da ditadura, fundou o Partido dos Trabalhadores e subiu a rampa do Planalto por três vezes, não pode coroar essa biografia fantástica com uma derrota para mediocridade do filho de Bolsonaro, Caiado ou Zema.
A articulação com o centro e a vinda de figuras como Kassab, se vier a ser adotada por Lula – que ainda não se pronunciou a respeito nem foi provocado nesta terça, 14 – não são recuos, mas a blindagem necessária para que o legado de Lula permaneça intocado.
No xadrez do poder, ele provaria, mais uma vez, que está dez jogadas à frente, transformando adversários em aliados para garantir que o Brasil não volte para as mãos de quem o despreza. Lula joga pela biografia, joga pelo povo e, acima de tudo, joga para vencer.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
MARTHA MASSAKO TANIZAKI
15 de abril de 2026 12:24 pmKassab como vice será a repetição do impeachment da Dilma!!! Pode não chegar ao impeachment mas o governo andará mais rápido para a centro direita pela força do kassab! A desvantagem do lula hoje está na comunicação com a população já que realizações não faltam. O.problema de comunicação será resolvido na campanha com Lula atuando mais junto à população!!! Não ao kassab na vice presidência!!
Rui Ribeiro
15 de abril de 2026 12:48 pmMariliz Pereira Jorge publicou matéria nesse mesmo sentido:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/04/a-eleicao-deste-ano-sera-pior.shtml
O Raul Seixas e o Oscar Rasmussen escreveram em “Por quem os sinos dobram”:
“Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Você sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada
É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro
Evita o aperto de mão de um possivel aliado, é
Convence as paredes do quarto, e dorme tranquilo
Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo
Coragem, coragem
Se o que você quer é aquilo que pensa e faz
Coragem, coragem
Eu sei que você pode mais”
Rui Ribeiro
15 de abril de 2026 1:16 pmA ascensão do Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto se deve aos seus méritos ou a deméritos do governo?
Resposta de outra IA:
“Pelas pesquisas mais recentes de abril de 2026, Flávio Bolsonaro e Lula estão em empate técnico no 2º turno. Então a ascensão dele é real, mas ainda não é uma liderança consolidada.Aí vai o que os dados e analistas apontam como causas principais — mistura dos dois fatores:
1. Méritos / Fatores pró-FlávioConsolidação como herdeiro político: Com Jair Bolsonaro inelegível, Flávio ocupou o espaço de principal nome da direita. Ele herdou a base conservadora já organizada.
Reorganização do eleitorado conservador: Analistas apontam que ele conseguiu reduzir a diferença para Lula com crescimento consistente, interpretado como reorganização desse campo.
Vitimização do clã Bolsonaro: Parte da leitura é que o discurso de perseguição política contra a família tem mobilizado eleitores.
2. Deméritos / Fatores do governoAvaliação do governo Lula: Levantamentos da Quaest vinham mostrando queda gradual na aprovação, com equilíbrio entre aprovação e desaprovação. Em out/2024 a aprovação estava em 36% e desaprovação entre 43-55%.
Cenário econômico: Lula chegou ao 2º ano do 3º mandato pressionado pelo custo de vida, mesmo com PIB crescendo 3,5% em 2024 e desemprego no menor nível histórico, 6,6%. A percepção de inflação acumulada de 26,93% no governo anterior ainda pesa na memória do eleitor.
Polarização: O dado de empate reflete o grau de polarização que deve marcar 2026. Os dois lados têm rejeição alta, então parte do voto é “anti-outro”.
Números atuais para contexto:Meio/Ideia, 3-7 abr 2026: Flávio 45,8% x Lula 45,5% – diferença de 0,3pp, dentro da margem de erro de 2,5pp.
Outro cenário estimulado: Lula 40,4% x Flávio 37%.
Quaest: apontava empate técnico em rodadas anteriores e nova pesquisa saiu esta semana para ver se a tendência se mantém.
Conclusão: Não dá pra atribuir a uma coisa só. É uma combinação: Flávio conseguiu se firmar como o candidato único da direita bolsonarista, enquanto o governo Lula enfrenta desgaste natural de meio de mandato + polarização. Em eleição, crescimento de oposição quase sempre vem casado com queda de aprovação do governo.
Faltam 6 meses pra eleição e muita coisa muda. O que vai definir é como os dois vão performar na campanha, economia e eventuais terceiros nomes como Caiado”.
Mário Mendonça
15 de abril de 2026 1:24 pmTapioca, mas ele tem acordo com o picolé de chuchu, no qual já falou que ele continuará como você! Abração