Governo Tarcísio: privatismo e repressão policial
por José Manoel Ferreira Gonçalves
Estado e o desprezo pelos pobres
Em São Paulo, a locomotiva econômica do Brasil, o modelo de gestão atual revela um viés cada vez mais nítido: um governo que pune a pobreza e premia o capital privado. Essa contradição se escancara em duas frentes simultâneas: o avanço feroz de uma política de privatizações com interesses empresariais escancarados, e uma política de segurança pública violenta, dirigida por uma figura sob suspeita de enriquecimento ilícito.
Ambas as frentes têm algo em comum: desconsideram a população mais vulnerável. Por um lado, a repressão policial é seletiva e sistemática, concentrando-se nas periferias, sob o comando de um secretário cuja integridade está sob questionamento. Por outro, projetos bilionários de infraestrutura ferroviária se desenham sem qualquer conexão com a necessidade locomotiva do povo, nem o desenvolvimento comercial e industrial dos pequenos.
Necessidade locomotiva do povo, nem o desenvolvimento comercial e industrial dos pequenos
Segundo apuração da Agência iNFRA, o governo paulista planeja reutilizar trechos ferroviários desativados, transferindo sua gestão à iniciativa privada, por meio de parcerias com empresas do setor de transporte e construção pesada. O pacote estimado em quase R$ 200 bilhões contempla linhas que conectam o interior à capital e ao litoral — mas, à luz do modelo proposto, sua finalidade está longe de atender aos interesses da maioria da população.
Ao ignorar as reais demandas de mobilidade da população periférica e dos pequenos comerciantes e industriais, o governo restringe o uso público da infraestrutura ferroviária a grandes empreendimentos orientados por retorno financeiro, e não por justiça social ou reequilíbrio regional. Trata-se de um movimento típico do privatismo seletivo, no qual a “eficiência” serve apenas ao lucro de poucos.
Segurança para quem?
Paralelamente, São Paulo segue mergulhado em uma política de segurança truculenta, sob liderança do secretário Guilherme Derrite — investigado pelo Ministério Público por movimentações financeiras incompatíveis com seus rendimentos. A Polícia Militar, sob sua gestão, tem protagonizado operações marcadas por mortes, violações de direitos e ausência de transparência. Os alvos? Jovens negros, pobres e moradores das franjas da metrópole.
Essa repressão não ocorre por acaso. É parte de um projeto político que retira direitos com uma mão e impõe medo com a outra. Ao transformar as periferias em territórios de exceção e os centros urbanos em vitrines para investidores, o governo constrói um estado policial para vigiar os pobres e um estado corporativo para servir aos ricos.
Necessidade locomotiva do povo, nem o desenvolvimento comercial e industrial dos pequenos
O discurso de modernização esconde o desmonte de um possível projeto nacional de mobilidade e desenvolvimento regional inclusivo. As ferrovias — historicamente instrumentos de interiorização do progresso — são agora moldadas como produtos para investidores internacionais, ignorando que pequenas e médias empresas respondem por mais de 70% dos empregos no estado, segundo dados do Sebrae-SP.
Não se trata de ser contra a iniciativa privada. Mas de exigir que o interesse público venha primeiro. Ferrovias devem servir ao povo, encurtando distâncias, promovendo integração regional e impulsionando a economia real — aquela construída por milhões de trabalhadores, empreendedores e comunidades esquecidas.
Qual projeto de estado queremos?
Entre repressão e privatismo, o governo paulista mostra qual é seu verdadeiro norte: conter e silenciar os pobres enquanto entrega o patrimônio público ao capital privado. Se há R$ 200 bilhões disponíveis para projetos ferroviários, por que não priorizar o transporte de massa nas periferias, o escoamento da produção dos pequenos e o fortalecimento dos polos industriais regionais?
A locomotiva de São Paulo poderia estar puxando o Brasil rumo a um futuro mais justo e equilibrado. No entanto, escolheu trilhos que favorecem poucos e excluem muitos.
José Manoel é pós-doutor em Engenharia, jornalista, escritor e advogado, com uma destacada trajetória na defesa de áreas cruciais como transporte, sustentabilidade, habitação, educação, saúde, assistência social, meio ambiente e segurança pública. Ele é o fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva. Em 2018, fundou e passou a coordenar o Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD), criado a partir da convicção de que a engenharia, como base material do desenvolvimento nacional, deve estar a serviço da democracia, da ética e da justiça social.
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