Haddad Taxador, por Flávio Vieira
Passei os últimos meses muito próximo da campanha de Fernando Haddad ao governo de São Paulo. Depois de uma derrota como a do último domingo, talvez a reação mais fácil seja procurar um erro, um episódio ou uma explicação capaz de organizar tudo.
Resultados eleitorais são produzidos por uma combinação de fatores: avaliação de governo, ambiente econômico, identificação ideológica, estrutura partidária, territorialização do voto, rejeição, capacidade de mobilização e, cada vez mais, pela forma como candidatos são cognitivamente organizados na cabeça do eleitor.
Nesse último aspecto, há uma questão que me parece incontornável: a consolidação da imagem de Haddad como o “taxador”.
Não estou dizendo que esse rótulo explica uma eleição. Muito menos que toda crítica às políticas tributárias conduzidas por Haddad seja artificial. Há críticas legítimas e uma discussão necessária sobre tributação do consumo, regressividade e impacto distributivo.
O ponto é outro.
Campanhas não acontecem apenas no terreno dos fatos. Elas acontecem também no terreno dos enquadramentos.
Em comunicação política, um enquadramento eficiente não precisa explicar toda a realidade. Precisa selecionar uma parte dela, torná-la saliente e oferecer ao eleitor uma chave simples para interpretar informações futuras.
Foi exatamente isso que aconteceu com o “Taxad”.
A partir do momento em que esse enquadramento se consolidou, medidas distintas passaram a ser percebidas através da mesma lente. Importação, reforma tributária, alterações de benefícios fiscais ou qualquer discussão sobre arrecadação podiam ser incorporadas a uma narrativa previamente estabelecida: Haddad é alguém que cria impostos.
E há uma enorme assimetria comunicacional aí.
Explicar fundos exclusivos, offshores, progressividade tributária, tributação sobre renda e patrimônio, isonomia entre produtos nacionais e importados ou os efeitos distributivos de uma reforma tributária exige contexto, conhecimento prévio e alguns minutos de atenção.
“Taxad” exige três segundos.
Essa diferença parece banal, mas é uma das questões centrais da comunicação política contemporânea.
O eleitor não processa cada informação política como um especialista avaliando políticas públicas individualmente. Diante de um ambiente de excesso de informação, ele utiliza atalhos cognitivos: partidos, lideranças, símbolos, identidades e narrativas que ajudam a interpretar uma realidade complexa.
O problema para uma campanha começa quando o adversário consegue produzir o atalho pelo qual o seu candidato será interpretado.
Nesse momento, a disputa deixa de ser apenas sobre propostas. Passa a ser também sobre o significado atribuído a cada nova informação.
Isso ajuda a entender por que simplesmente responder que determinado rótulo é “mentira” costuma ser insuficiente. Quando uma percepção já está cristalizada, apresentar mais informações não necessariamente a desfaz. Muitas vezes ocorre o contrário: os novos fatos são assimilados dentro do enquadramento já existente.
Também seria um erro concluir daí que o eleitor foi enganado ou que faltou compreender a política econômica.
Há uma diferença importante entre falsidade factual e simplificação política. O debate tributário brasileiro é suficientemente contraditório para fornecer elementos reais a discursos muito diferentes. O país tributa excessivamente o consumo, uma característica regressiva do nosso sistema. Ao mesmo tempo, houve iniciativas de aumento da tributação sobre fundos exclusivos, offshores, renda e patrimônio no topo da distribuição.
As duas coisas podem ser verdadeiras simultaneamente.
A política, porém, dificilmente trabalha com essa simultaneidade. Narrativas eleitorais selecionam.
E a direita conseguiu selecionar um aspecto, transformá-lo em personagem, dar-lhe um nome e repeti-lo até que deixasse de ser apenas uma crítica econômica para se tornar um atributo pessoal do candidato.
Isso é politicamente muito poderoso.
Ontem, Tarcísio foi reeleito governador de São Paulo no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos. Uma diferença dessa dimensão evidentemente não pode ser reduzida a uma questão de comunicação.
Mas, para quem esteve tão próximo dessa campanha, fica uma questão que considero importante para qualquer análise séria do resultado.
Na política contemporânea, não basta disputar a avaliação que o eleitor faz de uma política pública. Antes disso, frequentemente é preciso disputar a estrutura mental através da qual ele vai avaliá-la.
Porque, quando um lado precisa de dez minutos para explicar uma política econômica e o outro precisa de três segundos para nomeá-la, a disputa já começou em condições profundamente assimétricas.
Flávio Pires Vieira, advogado especialista em Direito Eleitoral pelo IDP e sócio do escritório Vieira, Marques e Mazini
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