Imprensa brasileira recebe mal discursos de Bolsonaro

Bolsonaro fez discurso de candidato, não de presidente, adotando “tom eficiente para manter a tropa mobilizada”
 
Foto: Valter Campanato / Agência
 
Jornal GGN – Os dois primeiros discursos do presidente Jair Bolsonaro (PSL), primeiro no Congresso, para a classe política, e o segundo para a população, no parlatório, não foram bem recebidos pela imprensa brasileira. É o que mostram as análises dos veículos no país.
 
No jornal O Globo, Ascânio Seleme criticou especialmente a fala de Bolsonaro em “libertar o Brasil do socialismo”. Pontuando que o novo presidente recebeu a faixa do Michel Temer que, definitivamente, nem chegou perto do espectro político atacado, e completa:
 
“Os governos dos ex-presidentes Lula e Dilma nunca foram socialistas. Foram sociais democratas com foco na distribuição de renda. Ponto final”. Para o colunista, Bolsonaro também deveria explicar melhor sua crítica ao “politicamente correto”: 
 
“Porque o politicamente correto é uma evolução e significa evitar o uso de linguagens ou ações que sejam excludentes. E Bolsonaro disse no Congresso que governaria sem discriminação”. 
 
Scânio acompanhou a maioria das análises de que o discurso de Bolsonaro foi de um candidato para seus eleitores e não de um presidente para a população inteira, como pontuou melhor outro colega seu no Globo, Bernardo Mello Franco:
 
“Num momento que pedia distensionamento, Bolsonaro insistiu na tática da divisão. Confundiu o parlatório, onde presidentes falam à nação, com o palanque, onde candidatos atiçam seus seguidores”, disse, completando:
 
“Adotou um tom eficiente para manter a tropa mobilizada, mas impróprio para quem terá que governar para todos os brasileiros”. 
 
Enquanto no Congresso, Bolsonaro se dirigiu para seus pares, falando em “unir o povo”, “preservar a democracia”, governar “sem discriminação ou divisão”, defendendo um pacto entre os três poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário, no parlatório, Bolsonaro declarou: 
 
“Essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela”, radicalizou. 
 
“Faltou pouco para repetir as ameaças de ‘fuzilar a petralhada’ e mandar os adversários para a “ponta da praia”, pontuou Mello Franco.
 
Para Igor Gielow, da Folha de S.Paulo, os discursos de Bolsonaro foram um resumo “de todos os tuítes” que o militar da reserva já postou. 
 
“[No Parlamento] falando para seu público fiel, usou e abusou do linguajar pelo qual notabilizou-se ao longo de sua carreira. Prometeu libertar o Brasil do ‘socialismo, da inversão de valores, do politicamente correto e do gigantismo estatal’”.
 
Na Época, Luiz Fernando Vianna lançou preocupação com a condição constitucional do Brasil de Estado Laico, pontuando que, no seu discurso de dez minutos no Congresso Nacional, Bolsonaro falou dez vezes no nome de Deus e no parlatório, onde discurso em menos de novo minutos, citou Ele sete vezes. 
 
Fernando Henrique Cardoso, autodeclarado agnóstico, não fez nenhuma menção a Deus no discurso de 1995, e o católico Lula, só falou em Deus, duas vezes, no final do discurso de mais de 40 minutos, em 2003.
 
O colunista da Época avaliou, ainda, que nos dois discursos o novo presidente adotou palavras vazias, o que não significa não haver estratégia nesta construção:
 
“Todo discurso de posse tem um bocado de palavras vazias. Mas elas podem, exatamente por ser vazias, simular alguma mensagem de paz, de conciliação. Afinal, a pessoa que está ao microfone terá que governar o país pelos quatro anos seguintes – se não sofrer um golpe ou um impeachment”. 
 
Outra preocupação levantada por Viana sobre a questão religiosa foi que no discurso presidencial, pronunciado aos 209 milhões de brasileiros, Bolsonaro pontuou a “nossa tradição judaico-cristã”, e não fez referências às tradições afro-brasileiras, indígenas ou até nipo-brasileiras. 
 
Ainda na linha de se manter vago, Bolsonaro falou de defender “nossos valores” e atacou a “ideologização das nossas crianças”: 
 
“Duas passagens dos discursos são significativas e complementares. No parlatório, Bolsonaro falou em ‘me-ri-to-cra-cia’, desse jeito mesmo, para que todos absorvessem o peso da palavra. Sob as sílabas escondidas está a condenação das políticas afirmativas que vêm gerando vagas em universidades e empregos. E no Congresso ele defendeu escolas ‘capazes de preparar seus filhos para o mercado de trabalho e não para a militância política’. A ideia de uma educação voltada para formar (des)empregados, e não cidadãos, é a mais ideológica das mensagens anti-ideologia de Bolsonaro”, concluiu Vianna. 
 
A principal conclusão tirada é que Bolsonaro deixou claro que não se preocupa com a filosofia do fair play e o “pacto nacional” que mencionou no Congresso aponta para o mero pacto entre Legislativo, Executivo e Judiciário, prevendo a governabilidade da sua administração. 
 
“Nos dois discursos, Bolsonaro deu sequência ao que fez em toda a campanha eleitoral: apostou na divisão”, completou o colunista.
 
No Valor, Cristina Klein também considerou os discursos do novo presidente “vagos”, fazendo uma comparação entre as falas de Bolsonaro com a discurso de posse de Lula, em 2003:
 
“Na nova guinada da política brasileira, 16 anos depois da chegada do PT ao poder, da social-democracia para o primeiro presidente declaradamente de direita desde a redemocratização, saíram do discurso de posse no Congresso Nacional palavras como ‘social’ – citada 16 vezes por Lula em 2003 – ‘fome’ e ‘desenvolvimento’ (14 vezes cada) e ‘desigualdade’, mencionada três vezes pelo petista, e entraram no governo de Jair Bolsonaro a importância de ‘Deus’ (…); variações da ideia de viés, doutrinação ou amarrar ‘ideológicas’, como crítica à esquerda, e a defesa dos valores da ‘família e tradição judaico-cristã'”.
 

8 comentários

  1. Matéria enfadonha

    Quem acredita nos articulistas mencionados? Eles e seus veículos dão sustentação a qualquer coisa que não chegue perto de trabalhadores, movimentos sociais, organizações populares. A matéria é enfadonha.  

     

  2. Converta-se, ou queimarás na fogueira.

    Nessa tradição judaico-cristã, não haverá espaço para os adeptos de dezenas de outras religiões?  Somos ou não um estado laico?

  3. Ah, como gostaria que crer

    Ah, como gostaria que crer que a imprensa está realmente revoltada com o capitão, mas é todo jogo de cena. É tudo feito pra parecer verdade. Pra parecer que a imprensa é isenta, mas no fundo só estão negociando o passe e as luvas pra entrar de cabeça na grana da publicidade estatal. Mas gostaria que houvesse um pouco de verdade nisso. Pelo menos a imprensa estaria pagando um pouco pelas incontáveis injustiças com o Pt ao dizer que o partido havia aparelhado a propaganda do governo. Agora cá entre nós, onde chegamos que o povo não consegue ver que, agora sim nós temos a ideologizaçaõ do governo. Querer tirar imagens sacras no palácio, mandar servidores com simpatia ao Pt pra rua, bater continência pra americanos, fechar com tudo junto aos sectários evangélicos,  a ponto de querer mudar embaixadas e prejudicar a economia em bilh~es , no meu tempo era fanatismo incontrolável. E ninguém no governo e nem na imprensa consegue ver ideologia nisto. É como diz o afranio Jardim, este não é e não pode ser meu país.

  4. Em tudo Bolsonaro tenta
    Em tudo Bolsonaro tenta mimetizar Donald Trump. O problema é que ele se elegeu presidente de outro pais totalmente diferente dos EUA. E mesmo lá o “método Trump” de governar está se revelando um fracasso retumbante. Mesmo um pais com instituições e economia muito mais sólidas do que as nossas está em frangalhos. Esse é o resultado da genialidade do grande “dealmaker” Donald Trump. E a nossa caricatura de Trump não começa sua aventura presidencial nem com a falsa fama de gênio da “Art of the Deal”. Já é um fracassado antes de tentar.

  5. Pavorosos, eis o termo

    Pavorosos, eis o termo adequado para definir os dois pronunciamentos do parvo que ora toma assento no Planalto. 

    Poderia ser diferente? Nunca, jamais! São a resultante do somatório da indigência intelectual do empossado com a reafirmação de proposituras bem ao gosto de um público-eleitor que vai do reacionarismo à simploriedade. 

  6.  
    E o tal capitãozinho, Bolsa

     

    E o tal capitãozinho, Bolsa de Colostomia, sabe lá o quê venha a ser socialismo?

    Sabe-se que a colostomia é feita quando o paciente apresenta qualquer problema que o impede de evacuar normalmente pelo ânus. No caso desse senhor, ao que parece,  o desvio do trânsito fecal ao invés de ser direcionado a uma bolsa plástica como se supõe, na realidade, foi conectada diretamente na caixa craniana do paciente.

    Orlando

     

     

  7. a imprensa e Bolsonaro

    Acho que tem um equívoco grave nesta matéria. Em que pese alguns articulistas de opinião de fato terem esboçado algumas críticas aos discursos do capitão, a cobertura geral foi muito mais positiva do que negativa. No varejo tem alguma crítica mas no atacado o que parece que fica é uma adesão subserviente. Na televisão, que de longe é o veículo mais popular da imprensa, o esforço parece ter sido o de tentar tirar algum sentido daquele besteirol sectário proferido pelo presidente eleito. Da mesma forma nos jornais, as matérias de cobertura todas, sem exceção foram simpáticas ao novo incumbente. A ninguém ocorreu questionar as inconsistências e o autoritarismo do discurso do cara, pelo contrário, todos fizeram de conta que está tudo normal. Mais do que isto, nenhum veículo ousou explicitar a contradição entre as previsões (“são esperadas de 250 a 500 mil pessoas”) e o comparecimento real (115 mil, de acordo com os organizadores). Aí teríamos um fato relevante: se estava previsto mais gente e veio menos é porque foi um fracasso. Da mesma forma em relação ao prestígio do Brasil no mundo, a presença limitada de autoridades relevantes na posse do capitão tampouco foi objeto de muita atenção. Até houve matérias sobre isto, mas apareceram de forma isolada, nunca no corpo das matérias principais. Mas o fato é que foi a posse menos concorrida, tanto em qualidade quanto em quantidade das autoridades estrangeiras. Este também é um fato objetivo, mas que ficou isolado e varrido para baixo do tapete. Ao fim e ao cabo o que estamos vendo é a tradicional subserviência da mídia corporativa em relação ao novo governo.

  8. E a lei de Libras foi regulamentada por … Maria do Rosário!

    Pelo que me lembro, os surdos foram beneficiados pela tradução em Libras já na(s) posse(s) de Dilma Roussef e talvez já lá  atrás na(s) de Lula.

    A diferença é que isto não foi utilizada para promover minguém seja a “dama discreta” da camiseta política em Angra, seja a posse de um presepeiro da extrema direita populista (far right populist), conforme repetidas avaliações internacionais.

    A utilização nos casos anteriores foram discretas (uma janelinha na tela) e apenas para beneficiar surdos.

    E não ludibriar burros.

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