
Jesus no Talmude e o apoio evangélico a Israel: uma contradição religiosa
por Francisco Fernandes Ladeira
Nos últimos anos, assistimos a uma crescente devoção de setores evangélicos brasileiros ao Estado de Israel. Bandeiras israelenses tremulam em cultos e em manifestações bolsonaristas, caravanas lotam voos para Jerusalém e pastores fazem declarações entusiasmadas sobre o “povo escolhido” e o cumprimento de profecias bíblicas. No entanto, há uma incoerência teológica e histórica gritante nesse alinhamento, que permanece, de certo modo, ignorada: o Judaísmo – religião oficial de Israel – rejeita frontalmente Jesus como Messias e, em alguns de seus textos sagrados, o representa de maneira profundamente negativa.
Para os cristãos, especialmente os evangélicos, Jesus é o Salvador, o filho de Deus e o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Em contrapartida, em trechos do Talmude – compilação de leis e tradições judaicas – Jesus (conhecido como Yeshu) é acusado de feitiçaria, falso profeta, pervertido e até mesmo de ser fruto de uma relação adúltera entre uma mulher “de conduta duvidosa”, Maria, e o soldado romano Tibério Pandera. Portanto, Jesus não seria o filho de Deus, mas um filho bastardo.
Em certas passagens (muitas dos quais foram censurados na Idade Média), Jesus é descrito como alguém que foi justamente condenado à morte por heresia (não por crucificação, mas apedrejamento). Juntamente com Tito, o destruidor do Segundo Templo, e com Balaão, o profeta das nações, Jesus é mencionado como “um dos três maiores vilões da história judaica”. Ou seja, nada mais distante da figura de Messias Salvador que os evangélicos proclamam.
Enquanto nos evangelhos os milagres de Jesus são de origem divina, a tradição judaica regista duas versões sobre a origem de seus poderes mágicos. A primeira diz que Jesus, a fim de obter poder, roubou o conhecimento do Nome Inefável de Deus no templo de Jerusalém. A segunda versão aponta que ele aprendeu sua magia no Egito, quando trabalhou naquela região como servo.
Como dito, o judaísmo, sobretudo em sua versão ortodoxa, não apenas rejeita Jesus; também considera o cristianismo uma forma de idolatria, uma fé equivocada e seita insignificante.
Além disso, o argumento de que o retorno dos judeus a Israel é um sinal do fim dos tempos e um cumprimento das profecias bíblicas não leva em consideração que o Estado de Israel moderno teve como base um projeto político (o sionismo), não religioso.
Se o critério para o apoio fosse estritamente religioso, os evangélicos brasileiros deveriam, em tese, priorizar nações cristãs ou mesmo criticar a rejeição judaica a Jesus. Em vez disso, há uma romantização de Israel, que ignora as profundas divergências doutrinárias entre judaísmo e cristianismo.
Nesse sentido, a partir das palavras apresentadas acima, podemos nos questionar sobre quais seriam os motivos dessa paixão evangélica pelo Estado de Israel. Afinal, se Jesus (supostamente) é a verdade absoluta para muitos evangélicos, como justificar uma aliança incondicional com quem historicamente o rejeita?
A resposta passa por fatores geopolíticos, teológicos e econômicos. Parte significativa do apoio evangélico a Israel é fruto de uma interpretação escatológica importada dos Estados Unidos (mais um soft power imperialista), conhecida como dispensacionalismo, que vê na criação do Estado de Israel um sinal dos “últimos dias” previstos nas Escrituras. Essa crença, somada ao poder do lobby religioso pró-Israel, cria um fervor que pouco (ou nada) tem a ver com o evangelho original.
Não importa se o Estado sionista frequentemente desrespeita os direitos humanos, ou se sua religião oficial nega frontalmente o coração da fé cristã. O fundamental, para esses fiéis, é a fantasia profética de um “relógio de Deus”, que gira em torno de Tel Aviv e Jerusalém.
Portanto, sejamos honestos: esse apoio cego é uma traição teológica. É colocar uma ideologia política acima do evangelho. É fechar os olhos para o fato de que, na prática, certas igrejas evangélicas estão apoiando um sistema que considera Jesus um falso messias. Ou, em uma interpretação mais amena, um equívoco histórico. E, o que é pior, ao abraçar Israel de forma acrítica, muitos evangélicos ainda ajudam a alimentar uma máquina de guerra responsável pelo maior genocídio contemporâneo. Algo que Jesus, definitivamente, não apoiaria.
Será que determinados setores evangélicos brasileiros fariam o mesmo se fosse o Islã a negar Jesus? Ou se fosse o budismo? Por que essa seletividade conveniente?
Está na hora desses religiosos se decidirem: vão seguir Jesus – rejeitado no Talmude, crucificado por motivos religiosos, proclamado como Messias – ou vão seguir uma interpretação política que, no fim das contas, o nega?
Não dá para fazer os dois ao mesmo tempo.
Francisco Fernandes Ladeira é professor da UFSJ. Autor de treze livros, entre eles, “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Emó Editora)
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GalileoGalilei
31 de julho de 2025 1:09 pmÉ interessante assistir a “Apocalipse nos Trópicos” para compreender como correntes evangélicas fundamentalistas, lideradas por Silas Malafaia, rejeitam a laicidade do estado e anseiam pelo “final dos tempos” e o domínio do “Reino dos Céus” sobre a Terra.
Vejam o que a Wikipédia fala sobre a “Teologia do Domìnio”:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_do_domínio