10 de junho de 2026

Ferrovias, concessões e o déficit de diálogo na infraestrutura brasileira, por José Manoel

A infraestrutura ferroviária não é apenas um ativo econômico. É um instrumento de reorganização territorial, logística, ambiental e social.
Reprodução

Brasil anuncia novos projetos e concessões ferroviárias com apoio do BNDES para desenvolvimento estratégico.
Déficit de diálogo e comunicação pública fragilizam legitimidade e aumentam riscos de renegociações futuras.
Debate aberto e transparente é essencial para garantir sustentabilidade e evitar repetição de falhas internacionais.

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Ferrovias, concessões e o déficit de diálogo na infraestrutura brasileira

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por José Manoel Ferreira Gonçalves

O Brasil volta a discutir ferrovias como eixo estratégico de desenvolvimento. O Ministério dos Transportes anunciou novos projetos, modelagens com apoio do BNDES e uma carteira relevante de concessões previstas para os próximos anos.

A agenda é ambiciosa. O discurso é otimista. O investimento projetado é elevado.

Mas há um ponto estrutural que permanece pouco debatido: a comunicação pública e a construção de legitimidade nas decisões de infraestrutura.

A infraestrutura ferroviária não é apenas um ativo econômico. É um instrumento de reorganização territorial, logística, ambiental e social. Contratos de concessão ferroviária atravessam décadas, moldam cadeias produtivas e influenciam políticas urbanas e regionais por gerações.

Ainda assim, o debate público sobre o modelo adotado costuma ocorrer de forma fragmentada, técnica demais para a sociedade e política demais para o ambiente técnico.

O resultado é conhecido: contratos assinados sob forte narrativa de viabilidade financeira acabam anos depois submetidos a reequilíbrios, aditivos, judicialização ou reformulações regulatórias.

O problema não está apenas na engenharia financeira. Está no déficit de diálogo estruturado.

O Brasil adotou, nos anos 1990, um modelo ferroviário verticalizado: o concessionário controla infraestrutura e operação. Esse desenho reduziu a presença estatal direta, mas também concentrou poder econômico e limitou a entrada efetiva de operadores independentes.

Hoje, ao se anunciar uma nova rodada de concessões, fala-se em sustentabilidade financeira. Mas a sustentabilidade depende de competição regulada, previsibilidade contratual e ambiente de confiança institucional.

Sem um debate aberto e estruturado sobre o modelo de acesso à infraestrutura, as garantias efetivas de direito de passagem, o papel do operador independente, os mecanismos de integração entre diferentes malhas e a governança de longo prazo do sistema, corre-se o risco de repetir um padrão já conhecido no setor: grandes anúncios iniciais, contratos excessivamente complexos e, no futuro, sucessivas renegociações que transferem ineficiências e custos adicionais para o poder público e para a sociedade.

A experiência internacional oferece alertas. O Reino Unido, frequentemente citado como referência em privatização ferroviária, vive atualmente um processo de reconfiguração estrutural do sistema, após reconhecer falhas na governança fragmentada e na sustentabilidade operacional.

O debate brasileiro precisa amadurecer antes da assinatura dos novos contratos — não depois.

Isso exige mais do que audiências formais ou consultas regulatórias protocolares. Exige comunicação estratégica, transparência ativa e abertura para contribuições técnicas externas ao núcleo governamental.

Infraestrutura é política de Estado. Mas política de Estado não se constrói em circuito fechado.

Sem comunicação qualificada, o planejamento perde legitimidade.
Sem legitimidade, a judicialização cresce. E sem estabilidade institucional, o custo de capital aumenta — comprometendo justamente a financiabilidade que se pretende assegurar.

O Brasil tem uma oportunidade histórica de inaugurar um novo ciclo ferroviário. Mas um novo ciclo não se define apenas pelo volume de investimentos anunciados.

Define-se pelo modelo adotado e pela forma como ele é debatido com a sociedade.

Se a comunicação continuar sendo tratada como etapa acessória, o país pode investir bilhões e ainda assim perpetuar fragilidades estruturais.

Planejamento de longo prazo exige engenharia. Mas exige, sobretudo, diálogo.

José Manoel Ferreira Gonçalves é Engenheiro Civil, Advogado, Jornalista, Cientista Político e Escritor. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes (Universidade de Lisboa). É fundador e presidente da FerroFrente e da Associação Água Viva, coordenador do Movimento Engenheiros pela Democracia (EPD) é um dos fundadores do Portal de Notícias Os Inconfidentes, comprometido com pluralidade e engajamento comunitário.

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