Lá do além, que editorial escreveria hoje Roberto Marinho?
por Armando Coelho Neto
Em tempos de terror o povo abraça o monstro, disse Lula, quando ainda refém da máfia judicialesca de Curitiba. A saída seria a informação, hoje sequestrada pelas redes sociais e pela Rede Globo, a verdadeira bisavó das fake news. Pobre do historiador que ousar fazer inventário das mentiras e crimes cometidos pelo mais pervertido veículo de comunicação que o país já conheceu!
Corta!
A Igreja Católica levou três séculos para pedir perdão a Galileu Galilei, e outros séculos para rogar clemência pelos seus crimes na Inquisição, aos indígenas e homossexuais, pela omissão frente ao holocausto (Palestina Livre!)… Já as Organizações Globo, entre os muitos crimes cometidos contra o Brasil, demoraram 49 anos para pedir desculpas pelo apoio ao sangrento golpe militar de 1964.
Julgar o passado com valores do presente é como criticar o ângulo de uma fotografia sem conhecer e ou ignorar o abismo existente por detrás do fotógrafo. Nesse sentido, é preciso muita isenção para trazer o jornalista Roberto Marinho para um debate atual. Fato concreto: assim como Israel nada aprendeu com o holocausto, os Marinhos nada aprenderam com seus próprios erros e crimes.
Pela lenda urbana, o jornalista Roberto Marinho alinhado a um tempo, supostos medos e ameaças de então, aderiu à ditadura militar. Ao do entornar do caldo, até passou a acompanhar depoimentos de seus jornalistas à polícia, temendo maus tratos e ou o desaparecimento deles. Provocado por um general a dar nomes de comunistas, teria respondido, “Cuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus”.
“Vai passar… Dormia a nossa pátria-mãe tão distraída” (Chico). Com apoio ou omissão das Organizações Globo, a ditadura torturou (pau-de-arara, Apolo 11), exilou, matou, criou viúvas e órfãos, escondeu ossadas, cremou pessoas em “microondas”, criou valas de sepulturas clandestinas… Hoje, sabe-se lá quantos deles estão aí (“Ainda estou aqui”), até virem à tona as “tenebrosas transações”.
Não passou! Nas ruas, “Fora Rede Globo, o povo não é bobo! Em exibições clandestinas, apesar da repressão policial e judicial, o rosto de Roberto Marinho exsurge no logotipo da Globo, coberto de baratas. Uma voz ao fundo pergunta se Roberto Marinho e Globo vão se libertar daquela herança, ou se o Brasil deveria se libertar da Globo (“Muito Além do Cidadão Kane” – Reino Unido, 1993*).
Se em 1964, a Globo temia o comunismo, hoje não teme as ameaças do nazifascismo, narcoestado, evangelistão, crime organizado. Quando quaisquer dessas facções criminosas – isoladas ou em conjunto, ocupa o poder, o Estado de Direito está sob risco. E se tais riscos são ignorados pelo ainda mais importante veículo de comunicação do país é sinal de que pode dele fazer parte. Faz?
Lula está nas cordas, Dilma sofreu golpe. O desgoverno passado, com propostas sombrias, desgovernou sob ameaça de 153 pedidos de impeachment (muitos justos). Suspeita-se que teria cedido à pressões mafiosas oriundas do Congresso Nacional. Teriam prevalecido os postulados da Faria Lima (Farinha Lima? Faria Lama?), os quais coincidiriam com os da Globo. Sou rica! Ricaaa!
Pobres X ricos. Se a edição do Jornal Nacional da Globo (3/7/2025) fosse na escravidão, seria a criminalização dos escravos ou ode à Casa Grande. Se na Inquisição, por certo seria apologia às fogueiras, sem o mínimo de dignidade inegociável do qual a personagem Branca não abriu mão, diante da morte (O Santo Inquérito, Dias Gomes). Se no tempo das cavernas, seria apologia às trevas.
A depender da Globo, as faculdades de Jornalismo poderiam fechar, e as de Direito, sob o foco do juiz bandido que idolatrou, também. Quanto a Roberto Marinho, não importa em que ala do inferno possa tentar se redimir. Também não importa, ainda que importe, com que droga, Bonner e aquelazinha possam ter conseguido dormir naquela noite. Afinal, qual abismo por detrás da fotografia?
Globo e Congresso usam o pobre como esterco para que o jardim dos ricos (1%) floresça. Reprovam qualquer tímida tentativa de justiça social. Pobre no orçamento e ricos no imposto de renda é um chute no saco dos Marinhos. Nos anos de chumbo, o banido cantor Geraldo Vandré protestava contra a miséria, dizendo que “o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza” o fez cantador.
O que isso fez da Globo? Respeitados o homem no tempo e suas circunstâncias, o que fazer, Sr, Roberto Marinho, com o pedido de desculpas das Organizações Globo quanto aos crimes da ditadura? Afinal, a miséria e as injustiças sociais que ameaçam à democracia servem, ao mesmo tempo, hoje, para o avanço do nazifascismo. Isto posto, que editorial o senhor escreveria?
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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Maura Bezerra Vilar
10 de julho de 2025 12:27 pmTexto realista como o próprio autor é…
PAULO MAURICIO GONCALVES
10 de julho de 2025 3:10 pmQue editorial Roberto Marinho escreveria hoje? Quem sabe? Talvez outro pedido de desculpas disfarçado de pífias razões “democráticas”; abrindo caminho para outros apoios inconfessáveis. Matéria ótima do Armando. Vou compartilhar.