7 de junho de 2026

Lula e a guerra, por Manuel Domingos Neto

Guerras resultam de circunstâncias políticas construídas e aceleram grandes mudanças. No jargão consagrado, são parteiras da história.
Ricardo Stuckert

Lula e a guerra

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por Manuel Domingos Neto

Acompanhando tendência mundial, 58% dos brasileiros, segundo o Pew Research Center, têm visão negativa de Israel. Dentre os apoiadores de Lula, a parcela reformista pede a ruptura das relações do Brasil com o Estado sionista.

Lula pode adotar posicionamento menos retórico diante das atrocidades cometidas contra os palestinos?

Por exemplo, interromperia o suprimento de petróleo para Israel e encerraria de vez negociações visando a compra de material de guerra israelita? Isso afetaria, mesmo que simbolicamente, o poderio militar do Estado sionista. Engrossaria o isolamento dos genocidas.

Lula seria mundialmente enaltecido pelos que desafiam o poderio estadunidense e enfrentaria a fúria da grande imprensa ocidental. Seria diabolizado, como todos os que se insurgem contra as barbaridades em curso.

Mas perderia chances de ser convidado para eventos como a reunião do G7, no Canadá que, aliás, resultou em comunicado insano. Não experimentaria maratonas gloriosas, como a que viveu em Paris, cidade feita para deslumbrar.

Lula Interromperia a “boa convivência” com oficiais brasileiros integrados no esquema de força dirigido pelo Pentágono. Seria levado a reformular a Defesa e a revisar o aparelho militar brasileiro, inepto para os novos procedimentos guerreiros. Assumiria, finalmente, obrigação constitucional que nunca quis: a de comandante supremo das Forças Armadas.

Ainda no âmbito doméstico, compraria briga com parceiros de governança. Romperia com simpatizantes do imperialismo. Tomaria necessariamente iniciativas visando assegurar condições básicas de autonomia brasileira em política externa.

Enfim, daria um cavalo de pau na orientação de seu governo.

Não há sinais que alimentem expectativas nesse sentido. Mas, como ficará o Brasil diante da grande conflagração anunciada? É possível jogar quieto quando cada míssil disparado deixa a humanidade mais perto do Armagedon?

Guerras resultam de circunstâncias políticas construídas e aceleram grandes mudanças. No jargão consagrado, são parteiras da história. Afetam os destinos dos derrotados e dos vitoriosos. Afastam amigos de infância. Introduzem novidades não imaginadas. Deitam por terra conceitos e princípios consagrados. Anulam esteios morais. Abrem chances inusitadas de novos experimentos sociais.

Os confrontos sangrentos em marcha não resultam de problemas localizados: exprimem as tensões da mudança na ordem mundial. Os múltiplos fronts estão indefectivelmente interligados. São pobres e enganosos o noticiário e as avaliações que sugiram o contrário.

Não há cabimento na ideia de neutralidade. Da guerra, ninguém escapa: nem o rei, nem o bispo, nem o Papa.

O argumento de que o Brasil não tem tradição de ruptura nas relações diplomáticas precisa ser relativizado. Tradições servem para orientar comportamentos e são continuamente revisadas. Cabe lembrar: apesar de economicamente pouco expressivo, o Brasil participou das duas guerras mundiais. Agora, quando está entre as maiorias economias do planeta, a noção de neutralidade é ainda mais descabida.

Emérito negociador, campeão da busca de entendimentos em disputantes, Lula será levado a tomar posições que contrariam sua natureza. Tocar o barco no rumo em que está é impensável.

Lula é herói mundialmente consagrado. Queira-se ou não, é símbolo da luta contra desigualdades e injustiças.

Herói é paradigma socialmente construído. Ninguém nasce para ser herói. Herói é construção coletiva desenvolvida no calor do embate das forças em confronto. Ao contrário do que Brecht pensava, nenhuma sociedade prescinde de heróis.

Os confrontos de vida e morte são os que mais fabricam e destroem heróis porque levam à emocionalidade máxima. A teorização acerca disso é antiga, com destaque para Platão, que descreveu o guardião perfeito, aquele que encarna idealmente a vontade dos seus.

Possível candidato em 2026, Lula tenta equilibrar-se na disputa que mudará o ordenamento internacional. Mas chegará depressa o dia em que a condenação retórica do genocídio não bastará para manter sua condição de paradigma da justiça social.

Os cálculos eleitorais serão menos equivocados caso levem em consideração o fenômeno que tem capacidade de transtornar as noções de certo e errado, bom e mau, belo e feio, justo e injusto.

O temor toma conta das sociedades nacionais e extrema direita belicosa sabe aproveitar as circunstâncias. Os brasileiros precisamos de um líder que aponte caminhos no tempo extraordinário que nos é dado viver.

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, em 1976. Obteve o título de Mestre em Sociedade e Economia na América Latina, pela Universidade de Paris III, em 1976, e o título de Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Foi pesquisador da Casa de Rui Barbosa, superintendente da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais do Piauí, estado pelo qual também foi deputado federal. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense, foi também vice-presidente do CNPq e presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED).

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Manuel Domingos Neto

Manuel Domingos Neto nasceu em Fortaleza em 1949. Graduou-se em História pela Universidade de Paris VI, mestre pela Universidade de Paris III e Doutor em História pela mesma universidade, em 1979. Professor da Universidade Federal do Ceará e professor associado da Universidade Federal Fluminense

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  1. Carlos

    20 de junho de 2025 8:31 am

    Um tal Damião, prefeito de bh, retorna da “missão” em Israel com críticas ao Itamaraty, que, segundo o sujeito, não faz seu trabalho em Israel.
    O cidadão prefeito de bh, ao ser confrontado sobre ignorar, junto aos demais, o alerta sobre os riscos, sai com uma pérola digna dos maiores cínicos bolsonaristas. Disse o cara de pau: “Se soubessem de guerra não teriam ido”
    Canalhice!
    1) Do massacre em Gaza sabiam. Mas como crianças e velhos/velhas massacrados e famintos não reagem foram com a coragem bolsonarista, a dos covardes.
    2) O atualmente fascista estado de Israel existe por conveniência dos eua para manutenção do eterno estado de guerra na região. E claramente o massacre em Gaza escalaria para o Irã que, mesmo encurralado por eua e Europa e sem bomba atomica, possuí algum recurso nao de defesa, pois israel manda é bomba, mas recurso de contra ataque. Vai perder? Óbvio! Mas vai estragar mais um pouco Israel.
    3) A falácia da construção de uma bomba A aliada a conversa fiada que Israel pode matar a vontade pois tem o “direito de se defender”, podem, então, ser usada por outros países.

    Quem está lá foi por motivo político, a custa do dinheiro público de sua cidade. Quem está lá ignorou de forma consciente os avisos.
    Por fim, quem está lá foi levado por uma “associação “, não pelo Itamaraty. Então, a tal associação é a responsável por tira-los de lá, ou então senta no bunker ou se engajem no exército de israel para aprender sobre segurança ao vivo, ou ao morto.

    Sr prefeito, não de uma de Holmer Simpson com a famosa frase “A culpa é minha e eu boto em quem eu quiser”.
    Enfim, assuma a merda e resolva o resto.

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