“Lula eu te amo” soou como resposta aos psicopatas mirins
por Armando Rodrigues Coelho Neto
“Lula, eu te amo”, disse um garoto que não sei o nome, durante a cerimônia de posse do diretor-geral brasileiro de Itaipu Binacional, na qual se encontrava o atual presidente da República, em Foz do Iguaçu/PR. A inocência do garoto foi correspondida de pronto por Lula, que em tom não menos inocente devolveu: “Eu também te amo”. Na sequência, risos e aplausos para cena de quebra protocolar.
Foi um eu te amo em boa hora, quando o clima de incentivo ao ódio de há muito vem atingindo crianças. Mês passado, uma mulher polemizou nas redes sociais, denunciando suposta propaganda política petista numa apostila de matemática adotado por um colégio particular. Na primeira página, diz ela, “temos dois meninos fazendo L na sala de aula. E um está com a camiseta vermelha”.
Na mesma gravação, o filho afirma que quer sair da escola. E, embora o vídeo seja de 2015, foi requentado para provar o apocalipse anunciado caso Lula saísse vencedor no pleito do ano passado. À época a escola enviou mensagem aos pais dos alunos, esclarecendo que a ilustração é uma referência ao número 50 em algarismo romano e que “se mantém apartidário nos processos eleitorais”.
Em outro vídeo mais recente, uma criança é filmada se recusando a escrever o nome do atual presidente da República num exercício escolar de casa. Sob o título “E… Cristina nos representando”, a mãe pergunta a razão da menina estar chorando e ela responde, “aquele bosta do Lula”. Na sequência a criança solta um palavrão, insistindo na sua insólita recusa a escrever o nome do Lula no caderno.
No vídeo, que recebi de uma evangélica, há falsa repreensão da mãe, que adverte a criança quanto às consequências. “Você vai zerar nessa tarefa”, diz a mãe. “Eu não estou nem aí com essa tarefa”, responde a menina, que se ausenta do local chorando. A admoestação da mãe, porém, soa como recurso para reafirmar a convicção da criança. Aliás, uma convicção que ela fez questão de gravar e difundir.
Em outubro do ano passado, reportagem do Estado de Minas dá conta de que numa das escolas mais tradicionais e caras de Belo Horizonte, alunos pré-adolescentes gritaram o lema integralista de 1930, inspirado no fascismo italiano, que foi adaptado pelo ex-capitão para “Deus, Pátria e Família”, ao mesmo tempo em que “faziam arminha”. Seria mais um capítulo de tantos outros episódios não levados a sério.
A matéria acima é de Ricardo Kertzman, que em 2018 apertou 17, mas hoje lamenta profundamente sua escolha. Não cabe questionar no momento os motivos para o voto do blogueiro, mas sim destacar que com muita propriedade ele resume o aterrorizante fenômeno com uma frase: “assustador: crianças bolsonaristas se comportam como psicopatas mirins”. Eis pois a dimensão do problema.
Quando do falecimento do neto de Lula, Tarso Genro (ex-ministro da Justiça) escreveu para o Sul21: “Sob o fascismo III – as crianças e os banqueiros: em nome de Arthur”. O artigo destaca o papel de parte da direita fascista, na triste perda. Sobre o tema cabe lembrar sórdidos registros tais como “Lula está só começando a pagar pelo que roubou” e “Vai fazer showmício no velório”, uma “Boa notícia”.
Tarso Genro diz que Arthur sofreu “bulling” na escola por conta dos massacres ao avô, e lembra “o filme “O fotógrafo de Mathausen”, inspirado em fato real: numa festa, um oficial nazista, para ensinar o filho a “caçar” inimigos, pede que ele, ali mesmo e a sangue-frio, atire em outro menino judeu, que estava servindo no local, dizendo: “Por mais parecido que seja com um ser humano, ele não é ser humano”.
A extrema direita no Brasil já não se envergonha de usar crianças como atores e vítimas das manobras fascistas. Ela de há muito perdeu os escrúpulos, ainda que a truculência não seja exclusividade da extrema direita. Mas o radicalismo infantil presente nos dois casos aqui apontados é enigmático. Urge lembrar que por trás delas há insanos adultos estimulando ódio, guiando e inspirando falas e atitudes.
“As crianças têm direito à paz, à ternura, a cuidados dignos e a uma infância sem medo”, afirma a psicanalista Claudia Mascarenhas, do Instituto Viva Infância na Rede Nacional Primeira Infância (RNPI). Entretanto, o que se vê nos vídeos citados e outros da rede do ódio, são crianças com medo, as quais movidas pelas influências recebidas tornam-se hostis ao que aprendem e acreditam ser uma ameaça.
O papel da mídia e das próprias instituições na pavimentação da onda fascista ainda não foi objeto de grandes reflexões, devendo, portanto, contribuir para reversão da onda de ódio, que já chegou às crianças. Se de um lado a educação para o nazifascismo é algo perigoso, é também ela o único caminho para tentar neutralizar o rastro de ódio deixado pelo ex-capitão, antes, durante e depois de seu advento.
Ao do encerramento das eleições de 2022, eclodiu a frase lapidar de que “O amor venceu o ódio”. Se havia alguma dúvida sobre isso, o “Lula eu te amo” do garoto, de pronto retribuído pelo presidente, foi um grito de amor que deixou uma aura de inocência no ar. Soou como nota de esperança, que por enquanto não passa mesmo de uma esperança, mas representa um ideal a ser perseguido.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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José Delson Cabral da Silva
20 de março de 2023 3:59 pmO ódio e o mau que o bozzonarismo proto-nazifascista incutiu e/ou despertou em metade dos brasileiros. Adultos e (até???) crianças. É um terror/horror que deveria ser estudado e alvo de teses psicanalíticas, por muitos e muitos anos.