Fernando Castilho
Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.
[email protected]

Mamãe, não devia ter falado, mas falei!, por Fernando Castilho

Como deputado, Mamãe Falei segue o exemplo do presidente quando ainda era parlamentar, trabalhando pouco, criando polêmicas, ofendendo colegas e ferindo o decoro.

Charge de Renato Aroeira

Mamãe, não devia ter falado, mas falei!, por Fernando Castilho

O deputado estadual paulista e pré-candidato ao governo do estado de São Paulo, Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, foi pego com a boca na botija.

Muita gente já escreveu sobre o fato, mas gostaria de dar meus pitacos, pois, quem sabe, haja ainda mais algumas coisas a serem comentadas.

Antes de mais nada, vamos rememorar algumas coisas.

Em 2015, Arthur criou um canal no YouTube chamado Mamãe Falei. Com uma câmera de vídeo nas mãos, o rapaz caminhava pelas ruas para ouvir a população sobre temas políticos e econômicos. O canal hoje tem mais de 2,7 milhões de inscritos.

Não demorou para o pessoal do MBL perceber seu potencial e cooptá-lo.

Mamãe Falei foi um dos grandes responsáveis pelo golpe contra Dilma Rousseff, na medida em que o enorme alcance de seu canal instigava jovens a saírem às ruas junto com os rapazes do MBL para protestar contra a ex-presidenta e exigir sua saída.

Durante as manifestações da esquerda, Arthur costumava inquirir petistas sobre assuntos polêmicos, justamente para tentar expor suas contradições. E é claro que as edições dos vídeos deixavam à mostra somente as respostas incoerentes, discrepantes ou fora da realidade.

Em 2018, aproveitando o grande engajamento que Jair Bolsonaro obtinha em sua campanha à presidência do Brasil, Arthur se candidatou a deputado estadual, obtendo mais de 470 mil votos, ficando atrás somente de Janaína Paschoal, mais uma que se aproveitou da maré bolsonarista. Foi um período em que qualquer um que causasse polêmica, desde que estivesse junto com o capitão, se elegia a algum cargo.

Como deputado, Mamãe Falei segue o exemplo do presidente quando ainda era parlamentar, trabalhando pouco, criando polêmicas, ofendendo colegas e ferindo o decoro.

Em 2019, Arthur, assim como Janaína, rompe com Bolsonaro, mas não com o bolsonarismo, corrente de extrema-direita que já se materializou e sobrevive sem seu principal mentor. Aliás, muitos parlamentares, sejam estaduais ou federais, que romperam com Bolsonaro, como Alexandre Frota e Joice Hasselmann, ainda compartilham de ideias semelhantes a seu ex-mito.

Em 2020, Arthur foi condenado pela Justiça Eleitoral por ataques ao padre Júlio Lancellotti.  Em campanha eleitoral antecipada, o parlamentar não hesitou em  caluniar, difamar e injuriar o abnegado Padre que desenvolve um trabalho muito importante junto aos moradores de rua.

Bem, esta é a ficha do Mamãe.

Vamos ao acontecimentos recentes.

Sentindo-se à vontade ao gravar um áudio, Arthur afirmou, entre outras coisas,  que as ucranianas “são fáceis porque são pobres”, e que a fila de refugiados teria mais mulheres bonitas do que a “melhor balada do Brasil”. Entre várias outras coisas, alega, ainda, que Renan Santos, do MBL, viajava pelos países europeus “só pra pegar loira”.

Reprodução Instagram

O áudio foi vazado e compartilhado para o mundo todo ouvir o que pensa um parlamentar que representa 470 mil paulistas.

Nunca assisti a nenhum vídeo de Mamãe Falei, mas duvido que em nenhum deles ele já tenha manifestado sua maneira de pensar em relação às mulheres ou demonstrado seus preconceitos. Mesmo assim, ele tem 2,7 milhões de inscritos.

A namorada de Arthur apressou-se em dizer que rompera com ele.

Pergunto: será que nunca, nem uma vezinha sequer, o Mamãe demonstrou ser o que é com ela? Será que nunca foi machista?

Hipocrisia.

Mamãe tentou se explicar em um vídeo, mas como não tinha explicação nenhuma para dar, ficou mais do mesmo.

O inferno astral do bolsonarista apenas começou.

Sergio Moro, candidato da terceira via, que vem avançando para trás nas pesquisas, dizendo-se surpreendido, foi obrigado a romper com Arthur. Pode ser que os dois nunca tenham conversado sobre mulheres, mas todos sabemos que, em conversas informais, as personalidades de alguma forma se revelam e, em apenas alguns minutos já sabemos com que tipo de pessoa estamos conversando.

Mamãe já renunciou à candidatura ao governo de São Paulo.

O atual partido dele, o Podemos, presidido por uma mulher, pode expulsá-lo nos próximos dias e só não o fará se for muito hipócrita. É possível que ele seja obrigado a se adiantar e pedir sua desfiliação. Mas não pensem que ele ficará sem partido, pois sempre haverá algum disposto a acolhê-lo. Afinal, o Podemos não acolheu o ex-ministro que vinha destruindo o meio ambiente, Ricardo Salles, candidato a deputado federal?

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo tem o dever moral de iniciar processo por quebra de decoro parlamentar. Vamos acompanhar pra ver se isso realmente acontece.

Por fim, aqueles eleitores que fizeram vaquinha para que ele viajasse para socorrer ucranianos, têm que cobrá-lo sobre como os valores foram empregados.

Ah, mas há ainda a curiosa manifestação do presidente da República no cercadinho.

Bolsonaro condenou a fala de Mamãe Falei com a cara mais lavada do mundo. “É tão asquerosa que nem merece comentário”, disse.

O comentário é tão falso como uma nota de 3 reais, pois em várias ocasiões o presidente se referiu às mulheres de forma desrespeitosa, como quando, ainda deputado, afirmou que só não estupraria a deputada Maria do Rosário por ela ser feia.

Arthur do Val é um avatar do capitão. Uma espécie de genérico mais jovem, ou um filho não consanguíneo. Não há muita diferença entre ele e os 01, 02 ou 03, podem reparar.

Mas, no que diz respeito ao que pensa sobre as mulheres (ou como Bolsonaro diz, no tocante a isso daí), compartilha com o capitão o mesmo DNA.

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Fernando Castilho

Fernando Castilho é arquiteto, professor e escritor. Autor de Depois que Descemos das Árvores, Um Humano Num Pálido Ponto Azul e Dilma, a Sangria Estancada.

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador