Marina Lima, Kleber Mendonça e a crítica que não pode criticar, por Bruno Mateus
Numa sexta-feira, 13 de março, às vésperas do Oscar, Gustavo Alonso, colunista da “Folha de S.Paulo”, publicou um texto intitulado “Kleber Mendonça Filho não tem amigos, mas bajuladores”. Contundente, concordo, mas é a opinião do escriba, que pesa a mão que limpa o veneno que lhe escorre do canto da boca quando quer chamar mais atenção. Não há mal nisso.
Nas linhas do historiador e escritor, lê-se frases como “cineasta pernambucano é um grande diretor, mas não um bom roteirista” e “‘O Agente Secreto’ é longo demais e tem histórias paralelas completamente supérfluas”. Nada de mais, certo?
Ele não gostou tanto assim do filme – afinal, ninguém é obrigado a gostar. Não há discurso de ódio, ataques preconceituosos, ofensas gratuitas… Mas bastou expor sua opinião – repito, opinião – para Gustavo Alonso ser chamado de inimigo do cinema brasileiro, entreguista, ressentido, mal-educado, grosseiro, babaca, bolsonarista, caça-like, raso e por aí vai.
Dias atrás, João Perassolo, repórter da “Ilustrada”, caderno de cultura da mesma “Folha de S.Paulo”, fez a crítica do novo disco da cantora e compositora Marina Lima, “Ópera Grunkie”. O cara não gostou do álbum. E muita gente não gostou do título “Novo disco de Marina Lima, sem ideias sólidas, é o pior de sua carreira”.
Essa foi a chamada do post da “Ilustrada” no Instagram. E aí veio o rebu. Mais ligeiros que a velocidade da luz, fãs, amigos e artistas se misturaram aos internautas, essa raça específica de ser humano-comentarista de posts, para desqualificar a crítica e seu autor e mandar afagos e mensagens de carinho para Marina, algumas tão piegas e excessivamente protetoras que me lembrou Dona Florinda e seu bordão “vamos, tesouro, não se misture com essa gentalha”.
Sobrou também para a “Folha” neste comentário que me causou risos, e aqui transcrevo palavra por palavra – não resisti: “Quem hoje em dia lê a @folha? Inclusive é um absurdo a forma que eles usam para quando a gente quer cancelar uma assinatura do jornal. Eles fazem a gente fazer uma ‘via sacra’ pra gente desistir de cancelar”.
Bom, a resenha do repórter repercutiu e tomou proporções transatlânticas – a cantora e compositora Teresa Cristina fez até uma live-homenagem cantando Marina Lima –, com dimensões e exageros característicos das redes sociais, terreno fértil para linchamentos e patrulhas.
Por essas artimanhas do algoritmo, caí em um vídeo da jornalista e poeta Edna Gomes, que chama a crítica de “cruel” em um vídeo que estampa o título “Marina Lima não cabe em uma crítica”. É claro que Marina, grande artista que é, hitmaker fodona, não cabe numa crítica e o autor – tenho absoluta certeza – também sabe disso. Mas vamos lá…
Sentindo-se desrespeitada, Marina foi para o ex-Twitter publicar seu desabafo, reproduzido ipsis litteris: “Estou chocada com a crítica da Folha de SP sobre meu disco. O cara achou tudo péssimo, não comentou de nenhuma música, disse q Olivia era uma vergonha… q o disco era o pior q eu já fiz. Realmente desanima ler coisas assim ;(. Não entendeu nada”. E ela termina entre o lamento e a ofensa: “Q pena. Q escroto.”
Mas é melhor chamá-lo de escroto do que falar que o cara “não entendeu nada”. É como quem diz: “você não gostou porque não sacou minha arte, o que eu faço está além da sua pobre compreensão”. Tão pedante…
E não é verdade que o autor “não comentou nenhuma música” e “achou tudo péssimo”. A maioria das pessoas que defenderam a compositora nessa cruzada contra o repórter não leu a crítica. Não é preciso ser nenhum Nostradamus para saber disso. Os comentaristas de internet não leem os textos sobre os quais dissertam.
O repórter realmente afirma que “uma das faixas mais constrangedoras do novo disco é ‘Olívia’” e que a letra é “vergonhosa”, mas também sublinha que “a Marina Lima que conhecemos aparece em ‘Só que Não’, uma bela faixa” e “outro ponto alto é ‘Um Dia na Vida’, em que canta com Ana Frango Elétrico, nome quente da MPB jovem”.
Ao contrário do que os fãs de Marina alardearam na internet, Perassolo reconhece a relevância da compositora. “Como todo artista com uma obra extensa que abarca décadas, Marina Lima teve discos ótimos e outros, menos”. Ainda sobre “Só que Não”, ele destaca: “É como se fosse uma atualização, para 2026, de tudo o que ela fez e faz tão bem, e uma das razões pelas quais ainda lota shows com fãs de diferentes gerações”.
Ele detestou as outras 10 faixas do disco e, por isso, foi até chamado de “típico bolsonarista idiota e raivoso”. Coitado, adjetivo pior que esse não há. A reação de Marina, dos amigos e dos fãs da cantora foi desproporcional e nos faz refletir como eles lidam com a opinião que vai na contramão da bajulação. E o espaço para o que é conflitante, contraditório, ambíguo? Eles só querem confete.
Em novembro do ano passado, André Barcinski, jornalista, escritor, roteirista e crítico musical que publica com certa regularidade na “Folha”, deixou algumas linhas sobre o disco “Fragmentos”, da Ludmilla. Comparado ao que ele diz no texto – coisas como “as letras são, na maioria, uma lástima” e “a faixa mais lamentável do álbum é ‘Calling Me’” –, o título “Novo álbum de Ludmilla é coleção de baladas R&B sem a menor graça” é um cafuné.
A crítica de Barcinski não fez nem um décimo do barulho do texto sobre o álbum de Marina Lima. Marina é da turma da MPB, parceira e irmã de poeta celebrado. Para Ludmilla, ninguém gravou vídeo ou fez live – ninguém ligou ou se alvoroçou, a não ser, claro, os fãs da cantora pop. E aqui, obviamente, não cabe comparações entre as carreiras de ambas.
As reações às críticas feitas a Kleber Mendonça Filho e seu “O Agente Secreto” e ao disco de Marina Lima me fazem lembrar do jornalista, pesquisador e crítico musical José Ramos Tinhorão (1928-2021), autor de importantes livros sobre música popular brasileira.
Tinhorão se autodenominava “inimigo número um da bossa nova”, colecionou desafetos como Chico Buarque e Tom Jobim, e mirou também a Jovem Guarda, que, em suas palavras, era “uma simplificação do rock, um rock trocando em miúdos para otário”. Pegue o título “Jovem Guarda é rock para otário” e coloque numa manchete para você ver o sentimentalismo barato dos fãs. Quais adjetivos usariam para (des)qualificar Tinhorão?
E o que dizer da temida crítica de teatro Barbara Heliodora (1923-2015), que fazia atores e diretores terem calafrios ao vê-la se sentar elegantemente em uma das poltronas da plateia? “A crítica condescendente é uma má crítica”, era uma de suas frases. E os escandalosos embates entre Paulo Francis e Caetano Veloso? Faz parte do show(bizz), meu amor.
Imagine o que se dirá das divertidíssimas tirinhas dos Skrotinhos, de Angeli, que pegam no pé de João Gilberto e da bossa nova. Em um delas, a dupla chega para um cantor com seu banquinho e um violão e pede “Canta uma bossa nova pra gente?!”, e o sujeito começa: “O pato vinha cantando alegremente, qüem, qüem/ Quando um marreco sorridente pediu pra entrar também no samba/ O ganso gostou…”. “Legal”, comenta um Skrotinho, e o outro completa em seguida: “Agora canta uma pra gente grande!”.
É proibido achar a bossa nova um saco? Não há crítica que não seja feita a partir de um ponto de vista pessoal. É impossível fazer uma análise – das coisas boas e ruins – com referências e perspectivas alheias. E foi isso que o repórter da “Folha” fez. A crítica incomoda, desafina – e desafia – o coro dos contentes, interrompe o aplauso muitas vezes complacente e conformado e confronta a unanimidade. A crítica é indispensável; a unanimidade é um perigo.
De Tom Jobim a Paul McCartney, não há artista que nunca tenha sofrido com o veneno, o deboche, a acidez, a malícia, o excesso (acontece), a hipérbole e um pouco da sacanagem dos críticos. Nenhum artista está imune às críticas. Todo artista está sujeito a lançar um péssimo álbum e o próximo pode ser sempre o pior de sua carreira.
Kleber Mendonça Filho e Marina Lima, criticados respectivamente por Gustavo Alonso e João Perassolo, se encontraram nos comentários do post da cantora no X (ex-Twitter). O diretor de “O Agente Secreto” (filmaço) prestou solidariedade à compositora. Foi de KMF esta sensata mensagem: “Na melhor das hipóteses, é só uma opinião”. É isso: só uma opinião. Não é a verdade absoluta, tampouco a corte de Pilatos.
O melhor comentário sobre essa zorra toda veio de Sheila Shirley (assim está no X). Ela diz: “Marina, a gente tá esperando por ele aqui na saída, isso não vai ficar assim”. Na foto, com localização marcada em “Folha de S.Paulo”, aparecem dois adolescentes magricelas, de boné para trás, um deles segurando um pedaço de pau bem no estilo “te pego lá fora”. Sem humor, camaradas, ninguém segura esse rojão. Porque, no fim das contas, a crítica – e a vida – também é feita de pirraça.
Bruno Mateus é jornalista de Belo Horizonte, pai da Amora e interessado pelo extraordinário das coisas comuns.
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Artur H F Barcelos
7 de maio de 2026 12:46 amNão. Não pode criticar um disco de Marina Lima. Nenhum. A menos que o faça deliberadamente para chamar a atenção. Acho que foi esse o caso. Fim.