Milagres políticos não acontecem, eles são negociados

O governo Michel Temer está terminando. Um período da história brasileira, aquele em que o PMDB se amalgamou às estruturas do Estado para governar ao lado do PSDB e do PT, foi definitivamente superado. Todavia, a crise política e econômica não chegará ao fim. De fato ela está apenas começando, pois incertezas políticas raramente provocam estabilidade e desenvolvimento econômico.

Resta a esperança. Como disse Hannah Arendt:

“A historia em contraposição com a natureza, é repleta de eventos: aqui, o  milagre do acidente e da infinita improbabilidade ocorre com tanta freqüência que parece estranho até mesmo falar em milagres. Mas o motivo dessa freqüência está simplesmente no fato de que os processos históricos são criados e constantemente interrompidos pela iniciativa humana, pelo initium que é o homem enquanto ser que age. Não é, pois, nem um pouco supersticioso, e até mesmo um aviso de realismo, procurar  pelo imprevisível e pelo impredizível, estar preparado para quando vierem e esperar ‘milagres’ na dimensão da política. E, com quando mais força penderem os pratos da balança em favor do desastre, mais miraculoso parecerá o ato que resulta na liberdade, pois é o desastre e não a salvação que acontece automaticamene e que parece sempre portanto irresistível.” (Entre o Passado e o Futuro, Hannah Arendt, Perspectiva, São Paulo, 2009, p. 219)

Tão imprevisível quanto a chegada de Michel Temer ao poder através do Impedimento mediante fraude de Dilma Rousseff, foi o efeito devastador causado ao PSDB enquanto era comandado por Aécio Neves. Não por acaso a queda dele ocorre no exato momento em que intelectuais tucanos começam a repensar o Brasil sem Michel Temer e, principalmente, sem o neoliberalismo defendido pelos tucanos nas últimas eleições. Digo isto pensando especificamente nas iniciativas e textos de Bresser Pereira e Renato Janine Ribeiro.

Durante quase duas décadas o PT e o PSDB se digladiaram pelo poder, proporcionando ao PMDB a possibilidade de exercer o papel de fiador de qualquer presidente eleito sem maioria no Congresso Nacional. A crise em que afundou o PMDB nos últimos meses, impredizível no momento em que o golpe levou Michel Temer à presidência, pode provocar uma virtuosa aproximação entre tucanos e petistas. FHC parece ter intuído isto, tanto que ele preferiu ficar ao lado de Temer à escolher uma das saídas debatidas na mídia.

O envelhecido líder tucano sabe que o PSDB não pode ter esperanças de eleger diretamente um presidente neste momento. Também sabe que a solução indireta apenas transferirá a herança maldita de Michel Temer ao seu sucessor eleito pelo Congresso Nacional num quadro em que a instabilidade político continuará a ser alimentada pelos defensores das Diretas Já.  

As eleições diretas indesejadas por FHC, que tenta salvar o que restou do PSDB até 2018, podem se tornar irresistíveis. Mas o que parece ser um desastre será o “milagre” de que fala Hannah Arendt, especialmente se Lula conseguir um vice entre os tucanos que se dispuseram a repensar o Brasil para além do neoliberalismo em que o país afundou duas vezes (sob o próprio FHC e sob Michel Temer).

Lula foi versátil o suficiente para escolher um vice-presidente respeitável no meio empresarial. Será ele suficientemente arguto para eleger um vice-presidente tucano comprometido com um projeto de país semelhante àquele que é defendido pelo PT? A conferir. 

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