Neoliberalismo e linguagem: os eufemismos que naturalizam a exploração
por Francisco Fernandes Ladeira
O neoliberalismo, um dos principais pilares da atual fase do capitalismo, não seria tão bem-sucedido se não fosse acompanhado por um discurso que o legitimasse. Dessa forma, a luta de classes é ocultada por meio de eufemismos. Os interesses entre trabalhadores e patrões – irreconciliáveis, como dizia Marx – são vendidos como se fossem comuns. A exploração é apagada. Não que tenha deixado de existir; agora assume novas feições. Ou, como alerta Byung-Chul Han, o trabalhador passa a ser seu próprio algoz. É a autoexploração.
No léxico neoliberal, trabalhador virou “colaborador”. O que antes era visto como exploração, extração de mais-valia, passou a significar “parceria”. A empresa vira uma “família”. Se o funcionário é colaborador, pode ser contactado pelo patrão a qualquer horário, receber uma mensagem de trabalho altas horas da noite, por exemplo. Afinal de contas, ele e o patrão estão no mesmo barco. Parceiros têm liberdade para conversar sobre trabalho após o final do expediente.
Além do “colaborador”, há aquele trabalhador que não se vê enquanto tal. Ele não tem patrão. Não quer saber de CLT. Trata-se do “empreendedor”. É o motorista de aplicativo que trabalha 18 horas por dia. Ele mesmo faz seu horário. Tem liberdade para isso. É a autoexploração alertada por Han.
Mas o léxico neoliberal não busca apenas neutralizar a luta de classes. Também visa atrair a esquerda, campo ideológico que, historicamente, pauta a crítica ao capitalismo. Para isso, há o politicamente correto. Favela passou a ser “comunidade”. Morador de rua é “pessoa em situação de rua”. Apesar de aparentemente bem-intencionada, essa suavização da linguagem oculta as contradições do capitalismo.
A forte carga semântica de termos como favela serve, justamente, para denunciar uma situação adversa. Dizer “comunidade” não vai alterar essa realidade. Pelo contrário, limita o debate. Tudo isso sem falar nos discursos meritocráticos, como “a favela venceu” ou “empreendedorismo na favela”. Nessa mesma lógica, o vendedor de balas no sinal, muitas vezes “em situação de rua”, vira “empreendedor”.
E, dessa forma, o capitalismo, com sua capacidade de adaptação, segue seu fluxo de exploração cada vez mais sofisticado. O que é pior – como abordado neste artigo – com o apoio daqueles que são os mais prejudicados, os trabalhadores, e de seus principais críticos: a esquerda.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas (IFMG) – campus Ouro Preto
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Gaspar Alencar
7 de janeiro de 2026 12:53 pmLadeira, o pior é que vamos repetindo os novos modelos de exploracao com os já calejados modelos de exploração e ninguém quer se dar conta disto.
Rui Ribeiro
9 de janeiro de 2026 8:18 amChamar o sequestro de Maduro de captura é um eufemismo que naturaliza a espoliação das Nações militarmente fracas pelas Nações militarmente fortes.