O lulopetismo, há tempos, abdicou da disputa por hegemonia
Por Roberto Bitencourt da Silva
Na semana passada assisti o presidente Lula ser indagado em dois podcasts, por que não exercitava a atividade da politização e mobilização popular? Uma ótima pergunta. A resposta, vinda de Lula, foi previsível: não é o seu papel, coisa para a sociedade civil organizada.
Lula sempre abdicou das prerrogativas presidenciais, reforçando a posição das oligarquias no legislativo, acomodando-se àquilo que Sergio Abranches chama de “presidencialismo de coalizão”. Com isso, ajudou a desmoralizar o sistema presidencialista, reforçando o poder de parlamentares conservadores.
Em todo caso, para desempenhar funções mobilizatórias, seria imprescindível dispor de um programa de ação transformadora na sociedade, em benefício das massas. Nunca teve esse programa. Até hoje, 18 anos de lulopetismo no governo federal, somente um direito trabalhista foi criado, em benefício das trabalhadoras domésticas. Dezoito anos!
Ademais, useiro e vezeiro no estelionato eleitoral. Para ficar com caso mais recente, na eleição de 2022, foram feitas promessas como a recuperação dos direitos trabalhistas (subtraídos pelo golpista Michel Temer), a reestatização da Eletrobras, a defesa do fim do teto de gastos (que constitucionalizou o ajuste fiscal) etc. Tudo abandonado friamente após assumir, de novo, o governo.
O estado do Rio de Janeiro, uma moeda de troca perene para a fruição de todas as faces das direitas, sob o manto da governabilidade lulopetista ou de sua vitória eleitoral (de Pirro) em âmbito federal. As esquerdas cariocas e fluminenses, nessa, acabaram. Não lhes é reservado mais qualquer papel de polo catalizador da crítica, do ressentimento e da indignação popular. Não contam para (quase) nada.
Não é que Lula e o PT, as suas táticas e pretensões oficialistas vazias sejam piores do que a extrema direita ultraentreguista. Obviamente são um mal menor, em comparação com o descaramento corrupto, criminoso e acentuadamente acadelado aos EUA, da família Bolsonaro e dos seus satélites.
Para não me estender, o problema é que o lulopetismo não possui material para energizar qualquer mobilização, externa à sua bolha. Ajudou decisivamente a matar expectativas e visões alternativas de país. Quem abdica da politização e da crítica, da capacidade de ação e enfrentamento, só resta a capitulação. O PT e Lula fizeram isso há muito tempo.
Dois ingredientes fundamentais da polarização que alicerça o capitalismo, segundo o economista Samir Amin, são a exploração do capital sobre o trabalho e o colonial-imperialismo – relações assimétricas entre países centrais e periféricos na divisão internacional do trabalho (DIT).
Em relação à primeira polarização, cumpre observar que Lula sempre preservou os salários (incluindo o salário mínimo) em patamares baixos. Na América do Sul, o S.M. oficial brasileiro é um dos menores: 324 dólares. No Uruguai supera os 600 dólares. De acordo com o Dieese, o salário mínimo necessário no Brasil deveria ser R$ 7.565,86 (ou 1.513 dólares).
Em relação à inserção da economia brasileira na DIT, 18 anos de lulopetismo não propiciaram ações para reverter a reprimarização do parque produtivo e a proeminência maior do rentismo. O que levou ao rebaixamento da inserção econômica no exterior, ressignificando para baixo a dependência tecnológica e financeira. Estamos ainda mais vulneráveis ao imperialismo.
Qualquer iniciativa mobilizatória e politizadora, de resto, teria e tem que lidar com essas matérias decisivas que conformam o perfil da sociedade capitalista (periférica) brasileira: suas relações de espoliação, dominação e poder. Essas matérias foram deixadas de lado, com efeito, a politização teria que ser, como foi, obscurecida.
Por sua vez, na faixa mais radicalizada das direitas, o emprego do proselitismo reacionário vem de anos a fio, conquistando consciências, independentemente de vencer ou não uma eleição majoritária. Isso só tem ficado mais robusto, alcançando nitidamente hegemonia cultural e política. Ah, mas eles têm muito dinheiro, as igrejas etc.! Sim, mas sempre tiveram recursos organizacionais e financeiros superiores às esquerdas.
Isso não é novidade. O mais ou menos novo na história política brasileira é o patente desprezo – daquilo que, por convenção, ainda chamamos de esquerda –, desprezo pela disputa por consciências, além da evidente inexistência de qualquer projeto alternativo de sociedade. Abdicação do combate por hegemonia.
O lema neoliberal-thatcherista de que “não há alternativa”, foi docilmente assimilado pelo lulopetismo. As visões economicamente ultraentreguistas, além de mais espoliativas e atomizantes sobre os trabalhadores, que fazem parte do imaginário da extrema direita, não possuem, de fato, qualquer contraponto.
Como registro de memória, tenho saudade dos anos 1990. Então, os valores políticos e culturais que eram prezados por significativas faixas da população, ao menos nas regiões metropolitanas do país, eram valores que pagavam grande tributo às esquerdas, sobretudo ao ex-PT (e ao ex-PDT).
Esses partidos tinham objetivos razoavelmente nobres e socialmente muito mais sólidos do que ganhar uma eleição ou se acomodarem nos salões do macropoder das burguesias domésticas e internacionais. Havia uma forte disposição para lutar pela hegemonia, impulsionar o senso crítico da sociedade. Que as esquerdas retomem um dia essa disposição.
Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF) e mestre em Ciência Política (UFRJ), presidente da Adesfaetec, seção sindical do Andes-SN.
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