O triunfo do indivíduo neoliberal e para onde queremos caminhar
por Adilson Filho
Diante de tudo o que testemunhamos no Brasil e no mundo na última década, acho que urge uma análise política da relação ‘capital x trabalho’ e seus desdobramentos no mundo social que vá além das tradicionais teorias político-ideológicas. Proponho, aqui, como ponto de partida, a relação indivíduo-sociedade adaptada aos dias de hoje.
Predomina, atualmente, nas sociedades modernas, o indivíduo neoliberal que, pra facilitar o entendimento, vou dividir em duas categorias principais:
O “neoliberal conservador” e o “neoliberal progressista”.
O neoliberal conservador tem dois polos muito bem definidos:
1- O “conservador essencial”, cujo tipo ideal é homem, mais de 50 anos, defensor da família e da propriedade, da moral e dos bons costumes, religioso, comedido, discreto e refratário a mudanças. São cada vez mais raros no Brasil. Uma figura como Geraldo Alckmin talvez hoje seja a que melhor ainda os represente, mas pode ser também um pequeno agricultor anônimo pai de família de uma determinada área rural do país.
2- O “conservador reacionário”, cujo tipo ideal é homem, mais de 50 anos, defensor das armas acima de tudo, da eliminação do diferente custe o custo que custar, sai de casa todo dia disposto a matar ou morrer, sendo todas as suas relações sociais permeadas pela violência na base do tiro, porrada e bomba. Um saco de gatos de loucos, alucinados, milicianos e nazifascistas. Não precisa nem dizer qual figura melhor os representa.
Entre um polo e outro pode colocar aí personagens como o tiozão da quadra de vôlei de praia. Nem conservador raiz como Alckmin, nem homem das cavernas como o segurança da esquina, metido a descolado, piadista, engraçadinho, gente boa, no fundo é um lobo em pele de cordeiro, ou melhor, um grande fdp.. em pele bronzeada de sol. Assim como a esmagadora maioria da fração mais endinheirada dos ‘essenciais’ e como TODOS os ‘reacionários’, apertou 17 e 22 com gosto.
O “neoliberal progressista” também tem dois polos muito bem definidos:
1- O “liberal faria limer”, homem, casa dos 30 anos pra cima, descolado, antenado, defensor das liberdades, apoiador do direito das pessoas serem o que quiserem ser com suas mais variadas bandeiras coloridas (desde que não venham questionar a base do sistema que sustenta ele e sua família a custa da exploração dos milhares que agora podem se expressar). Com a vida instagramável, é o rei da cena e da Área Vip do Rock in Rio, praticante de esportes radicais nos locais mais alucinantes do planeta, consumidor contumaz de todas as séries dos streamings até a farinha mais pura que circula na Vila Madalena; um verdadeiro explorador de todas as experiências que a vida pode oferecer, esgarçando todos os seus limites em direção ao próprio umbigo. Tipo ideal: pode ser um famoso apresentador da Globo ou um playboy no melhor estilo JP Lemann. Assim como os de cima, apertaram 17 com gosto mas alguns já titubearam um pouquinho na hora de cravar no 22.
2- O “liberal prafrentex” . Trata-se de uma turma mais jovem, homem, mulher, trans, agênero, etc_na casa dos 20 anos pra cima , descoladíssimos, antenadérrimos, reis e rainhas da cena mas desprezam a área vip pois recusam, por princípio, qualquer coisa que possa limitar o trânsito dos seus corpos feitos para se lançar ao mundo em liberdade máxima. A calçada suja com o dia amanhecendo tem muito mais glamour. Filhos? Nem pensar, pois se a vida é um supermercado aberto 24 horas para satisfazer o meu prazer, há muito pouco tempo para viver todas as experiências que as prateleiras oferecem exclusivamente para pessoas exclusivas como eu. Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu e se sobrar tempo em quarto lugar, você, ou qualquer outro que confirme pra mim o quão maravilho e imprescindível para o mundo EU sou. Tipo ideal: o próximo ganhador do BBB está bom demais.
Guardadas as inevitáveis generalizações, apesar das diferenças que existem entres os quatro tipos principais que elenquei, acredito que o mais importante a observar é que todos eles – indivíduos neoliberais e suas possíveis variações – possuem uma base comum, com características bem marcantes e potencialmente explosivas:
-o hiper individualismo;
– o desprezo às formas coletivistas de transformação social ;
-o foco excessivo no desempenho/performance;
– autoritarismo;
– baixa tolerância/negação da dor.
Percorrida essa primeira parte da estrada da despolitização, em algum momento eles se separam:
enquanto os liberais pegam a via do hedonismo para extravasar a energia que deixam de empregar na política e suprimir qualquer possibilidade mínima de sofrimento ; os conservadores, que aprenderam a disciplinar seus corpos e recalcar seus desejos, pegam a sua ‘via crucis’ particular e se agarram aos pés da cruz como se o sangue derramado pelo cordeiro desse compensação ao suor do trabalho exaustivo (em boa parte explorado), ou, no seu limite mais extremo, ‘justificasse’ o sangue derramado das barbaridades que autorizam.
Resumindo, o que eu defendo é que o indivíduo neoliberal predomina hoje no mundo, independente de classe social, cor, gênero, credo e até de intenções, o que coloca a coisa para além do plano moral. Se a minha hipótese estiver certa, não tenho dúvidas em afirmar que estamos diante de uma sociedade com profundo adoecimento físico e mental, como previu Erich Fromm, há quase meio século, em “Psicanálise da Sociedade Contemporânea”.
Fato é que, independente do diagnóstico, o que todos já podemos perceber no cotidiano são comportamentos se manifestando tanto individual quanto coletivamente, que apontam que o grande problema da sociedade hoje é de ordem psicossocial e o limite de velhas fórmulas para explicar esta derivação dramática da relação capital x trabalho tem nos impedido de avançar em direção a sua necessária transformação.
Em última análise, trata-se de uma reconfiguração estrutural da Sociedade Capitalista que, possivelmente, estamos vendo nascer diante de nossos olhos, que não será a primeira mas não tenho tanta certeza se a última da história. E como o futuro a cada um pertence imaginar, entre a crença teimosa de que o planeta suportaria, sabe-se lá daqui a quantos anos, mais uma mudança de fase desse caprichoso sistema e o pessimismo respeitável dos que já andam determinando o seu prazo de validade, prefiro seguir acreditando, ainda que utopicamente, na sua superação.
Mesmo tendo plena consciência do desafio que é, hoje, sonhar o mesmo sonho de homens e mulheres que passaram por esse mundo sem jamais se conformar, quando o sistema que antes operava de fora pra dentro e bandeirava pelos quatros cantos as suas crueldades, agora se alojou no coração e na mente das pessoas, aproximando cada indivíduo neoliberal a despeito de suas preferências ideológicas, arregimentando silenciosamente o seu exército de manutenção sem sequer ser percebido.
Por fim, aproveitando a deixa da dialética marxista, talvez seja justamente aí que esteja a chave da mudança que pode nos dar alguma esperança de futuro. É preciso unir as pessoas, ampliar os espaços de convívio – desde novas formas de pensar e projetar a vida nas cidades, passando pela profunda revisão sistema educacional até a conscientização das famílias. Para isso, é preciso antes separar o que sistema ardilosamente juntou . Aquilo que um dia o velho barbudo clamou à humanidade – “trabalhadores do mundo, uni-vos!” – hoje, quase duzentos anos depois, devemos adaptar para Umbigos do mundo, separai-vos!
Separar para unir de novo. Para além do “chão da fábrica”, será preciso acreditar na transformação que vem da relação do homem com a natureza a cada dia mais desprezada e com o outro cada vez mais invisibilizado. Retirar as pessoas do transe individualista em que se meteram, interromper a viagem egóica alimentada pelas redes sociais, como Lula sabiamente tem exortado, é tarefa das mais revolucionárias que está ao alcance de todos nós. O presidente do Brasil é a prova viva e vitoriosa de que investir no ser humano, apostar no diálogo, nas relações com o meio ambiente em toda a sua abrangência é o melhor caminho que temos a seguir para começar agora a mudança que queremos ver no mundo.
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