País em transe, por Aracy Balbani

É imprevisível quando e como terminaria um suposto torpor nacional. Seria desejável que isso ocorresse de forma pacífica e fraterna, e antes que nossa gente e nossa terra sofressem novas tragédias de consequências irreversíveis.

País em transe, por Aracy Balbani

Um delegado de polícia que participou da operação na Grande São Paulo para desarticular o esquema de rinhas de pitbulls descreveu uma cena dantesca por ocasião do flagrante. Ali, poucos dos suspeitos teriam corrido para fugir dos policiais, enquanto vários teriam ficado imóveis, assistindo à bestialidade sangrenta da rinha como se estivessem em transe.
Busca-se explicação para uma fixação coletiva assim. Pânico, prazer doentio, resignação ou uma alteração do estado de consciência?

Na pátria cada vez mais armada, haja firmeza da mente e do coração. A enxurrada cotidiana de mentiras e contradições pode aloprar o barril social de neuroses, paranoias e preconceitos. Fazê-lo explodir.

O noticiário mais difundido entre as massas oscila de humor em questão de horas. Às vezes, morde o governo. Critica, inclusive nos editoriais ultraconservadores, que estamos à mercê de prepotentes, despreparados. Denuncia milicianos. Pede a cabeça do titular da pasta federal da Educação. Pouco depois, assopra. Celebra a suposta retomada do crescimento econômico. Quer nos convencer de que rifar nosso patrimônio estatal aos estrangeiros garante ingresso no mundo desenvolvido. Publica que executar reformas cruéis contra os mais pobres é missão redentora. Toda a ignorância e truculência de políticos estariam perdoadas.

Fora das redações e gabinetes, o preço de quase tudo tem aumentado, e o conteúdo das embalagens dos produtos, encolhido. Na despedida de 2019, mais indústrias, comércios e serviços também estão encerrando as atividades. Quem é autônomo e depende de veículo próprio está quase pagando para trabalhar, à espera de um milagre – desde que ele não demore. Vai que, na virada do ano, o Véio do Posto propõe decretar o litro novo de combustíveis, com apenas 850 ml. Se a ideia agradar o mercado, estaremos perdidos.
Desalento dos desempregados. Angústia dos miseráveis. Ódio dos que se sentem motivados por mandatários belicosos. Só podiam convergir na selvageria de muitos contra todos.

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Dos arrastões em praças de pedágio, feminicídios, espancamentos, clonagem de contatos do WhatsApp e tantas outras fraudes, brota a sensação de impotência no cidadão íntegro. Frequentar aulas noturnas? Ir à balada? Fechar negócio com quem se diz gente como a gente? Nem só, nem muito bem acompanhado (a). Com tamanha brutalidade à solta, ainda que o restaurante e as lojas do shopping center mais próximo não tenham falido, soa menos perigoso para a classe média se fingir de morta em casa. Sob aparato privado de segurança, claro.

Em momentos históricos como o atual, líderes naturalmente serenos e sóbrios se fazem mais necessários. Porém, aparições de figuras públicas que parecem exalar medo ou vaidade por todos os poros têm arrancado aplausos e gritinhos de êxtase da plateia.
Um punhado de sujeitos “neoempoderados” aparenta sofrer de recalques, enraizados até as profundezas do ser humano. O desconforto paralisante de um deles, mais evidente quando está contrariado, é indisfarçável nas suas falas. O medo e a ira se traduzem na voz, na tensão dos músculos do rosto, na respiração sem coordenação e na pronúncia meio sufocada das sílabas em frente aos microfones e câmeras. Psicanalistas dizem que dificuldade para respirar pode vir no pacote da repressão psicológica. Se o caso não for esse, melhor o figurão trocar de marqueteiro e começar um curso intensivo de oratória.
Há o enigma das panelas cívicas. Outrora ruidosas em sacadas de condomínios, hoje permanecem dóceis e silentes. Na moita. Talvez ninguém mais desconfie que possa haver algum político tentando lhe passar a perna. Ou nós é que demoramos a constatar que muitos compatriotas se satisfazem com o naufrágio do país. De preferência, por obra da politicagem burra de baixíssimo clero e do seu inseparável compadrio jeca: parentes, parceiros comerciais e laranjas sem noção, mas com muita ostentação. Enfim, no Brasil ninguém pode ser multado por excesso de burrice. Nem condenado por mau gosto qualificado.

Diferentemente, o que está na Constituição Federal tem de ser respeitado. É inaceitável que ocorram assassinatos, torturas, ameaças, atentados, agressões a mulheres e crianças, fraudes e crimes ambientais. Mas, diante desses fatos gravíssimos, não se vê nem se ouve reação indignada de numerosos cidadãos que se apresentam como democratas do bem. Vários, também como religiosos tementes. Cabe formular a pergunta: o motivo da omissão seria pânico, prazer doentio, resignação ou uma alteração coletiva do estado de consciência?

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É imprevisível quando e como terminaria um suposto torpor nacional. Seria desejável que isso ocorresse de forma pacífica e fraterna, e antes que nossa gente e nossa terra sofressem novas tragédias de consequências irreversíveis.

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1 comentário

  1. Seu texto é belo, muito bem escrito e transborda humanismo e lucidez….. Uma lástima que saibamos que essa esperança:

    “É imprevisível quando e como terminaria um suposto torpor nacional. Seria desejável que isso ocorresse de forma pacífica e fraterna, e antes que nossa gente e nossa terra sofressem novas tragédias de consequências irreversíveis.”

    é pequena, diante da selvageria da direita radical que domina o país…..

    Um 2020 em que se justifique a esperança!!!!

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