Perigos da alienação
por Antonio Machado*
Inovações voam alto no mundo e estamos alheios a isso, entretidos com o bate-boca dos políticos
Pobre Brasil… Em meio à guerra de egos da caciquia política, o pânico de parlamentares investigados pelo STF, a geleia ideológica de partidos indiferentes ao subdesenvolvimento do país, o furdunço na economia global criado pelo tarifaço e os movimentos erráticos de Donald Trump, o mais preocupante é o alheamento quase absoluto com o avanço das grandes transformações tecnológicas no mundo.
Os exemplos de inovações disruptivas pipocam em todos os campos da indústria, dos transportes, da energia, das comunicações, da medicina etc. Inovações previstas para anos ou décadas à frente já estão disponíveis, algumas nem foram bem noticiadas, enquanto aqui discutimos firulas partidárias como riscos existenciais. Vai ser trágico ignorar tais engenhos, e não há nada capaz de barra-los.
Gastamos mais tempo falando da dívida pública, dos déficits, da tributação sempre crescente e dos juros proibitivos, criando toda uma cultura para driblá-los formal ou informalmente com amparo dos governantes que os criticam, que com a expansão das atividades inovadoras e do emprego altamente qualificado que lhe é inerente.

Confundimos plano de contas fiscais com política econômica, que é muito mais amplo que ajuste fiscal. Temos meta para os déficits do orçamento federal, e não há meta para o crescimento econômico.
Chamamos de política industrial o crédito camarada para manter ou retrofitar negócios terminais, como motores a combustão, inclusive biocombustíveis, quando o padrão elétrico já foi dado pela China.
Trump despreza as energias eólica e solar e adora o petróleo, que distingue com o slogan “drill, baby, drill”, mas a geração limpa segue recebendo investimentos privados maciços nos EUA.
Não se investe no que tende a um ciclo de vida da ordem de cinco a dez anos. É o que explica os trilhões de dólares que a Arábia Saudita e os emirados estão aplicando no desenvolvimento de data centers, softwares e aplicativos de inteligência artificial.
Qual a mensagem? Que o petróleo, a sua maior riqueza, tem data para cair em desuso, e antes que acabe investem os seus lucros em softwares e em serviços e cidades high tech. Não estão planejando o futuro, estão construindo-o já.
E quem se preocupa em construir o nosso futuro se até o nosso presente ficou no passado?
Oportunidade bate à porta…
Como em outras ocasiões em que o horizonte parecia azul para nós, tiramos pouco proveito das oportunidades quando fizemos as grandes hidrelétricas e polos industriais de ponta (tivemos até um “Mac da periferia”, mas a Apple chamou a polícia e o Made in Brazil foi em cana). E houve também o boom das commodities graças à China.
“Infelizmente”, citando o economista, diplomata e grande frasista Roberto Campos, “o Brasil nunca perde a oportunidade de perder oportunidades”. Elas batem outra vez à porta. Alguém está ouvindo?
Graças à China e à sua industrialização disruptiva, outra vez, e agora também aos EUA, que tentam reaver com IA sua antiga bonança industrial, temos chances de embarcar nessa nova onda não bem como passageiro, mas como parte estratégica. Comum a essas estratégias, da China e dos EUA, é o uso hiperintensivo de eletricidade a baixo custo, insumo que temos em abundância e acessível (sem os pesados encargos que encarecem a tarifa despropositadamente).
Nossa matriz energética já é renovável em mais de 90% da geração, com as hidrelétricas atendendo 65% do total. Há também água, vento e sol em abundância, fatores críticos para a geração praticamente infinita. Falta-nos investir ainda mais em linhas de transmissão de ultra-alta tensão para a eletricidade ser levada com eficiência por longas distâncias e em seu armazenamento por baterias.
Neste desenho, que já está realizado, o Nordeste tem potencial de vir a ser a nova fronteira de expansão econômica, aproveitando sua disponibilidade de energia e os cabos das redes de dados que nos conectam ao mundo, tal como 40 anos atrás o Centro-oeste despontou como celeiro agrícola. Não será assim não por falta de capital, e, sim, se faltar governança visionária e confiança empresarial.
Eletricidade orienta o futuro
O país precisa sair da lógica de uma economia que mantém há anos uma taxa rala de crescimento mais por aditivos ao consumo por meio de transferências de renda e crédito, ambos no limite orçamentário do Tesouro e das famílias endividadas. A prioridade tem de ser o aumento da oferta, direcionada pelas inovações, não por negócios que o resto do mundo está tornando ou já tornou obsoleto.
Tome-se outra vez a geração de eletricidade. Ela responde por 21% do consumo de energia no mundo e por 22% nos EUA. Na China, vai a quase 30%, mais que em qualquer outro grande país, exceto Japão. E essa participação está crescendo rapidamente: cerca de 6% ao ano na China, vis-à-vis 2,6% no mundo como um todo e 0,6% nos EUA.
“A eletrificação rápida atende a um propósito estratégico claro como motor de inovação industrial que impulsiona o futuro”, segundo Dan Wang, ex-Gavekal e hoje pesquisador na Universidade de Stanford.
A peça mais sutil da infraestrutura profunda da China é sua força de trabalho com conhecimento do processo das cadeias de suprimento da manufatura, diz Wang. Isso vem do ensino direcionado, o que dispomos com a rede Senai e os Institutos Federais de ensino profissional e tecnológico. Ambos deveriam atuar em comum, quiçá com direção integrada e mais próximos às necessidades na fronteira do avanço tecnológico, sem o diversionismo do sistema federativo.
Ciclo imparável de rupturas
Os fundamentos para a transformação necessária para superar o que os economistas chamam de “armadilha da renda média” já estão dados – desde que haja direção firme e visão empreendedora dos políticos e do empresariado, sobretudo dos interessados em construir e virar a própria mesa, título de best-seller que merece ser revisitado, que em fazer carreira no mercado financeiro. Não são poucos.
Precisamos nos apressar. E estar atentos. Quando o lítio, mineral crítico para baterias de carro elétrico e armazenamento de energia em alta escala, está na mesa da geopolítica e dos investidores, um concorrente esperado só para 2035 chegou sem avisar: a bateria de sódio extraído do sal, um insumo abundante e barato.
A chinesa CATL, maior fabricante mundial de baterias, anunciou já estar produzindo em grande escala baterias de íons de sódio, desde junho, para caminhões pesados, e a partir de dezembro para carros. Elas têm o mesmo peso e capacidade das baterias de ferro-lítio da BYD, mas com um décimo do custo, são mais seguras e duram 25 anos.
Cada avanço desse tipo será mais frequente em energias, medicina, eletroeletrônicos, drones, armas, aviões, meios de pagamentos, e o que mais vier à cabeça. O ciclo de rupturas é imparável. E é o que a política tem de entronizar se quiser merecer atenção logo mais.
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