Private Sector ou Pravyy Sektor, eis a questão, por Fábio de Oliveira Ribeiro

As crenças e certezas que nós adquirimos ao longo da vida funcionam como barreiras cognitivas, impedindo o acesso à totalidade do tempo num mesmo instante.

Private Sector ou Pravyy Sektor, eis a questão

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A Rússia anunciou que começará destruir as redes de comunicação em Kiev. Imediatamente, alguns jornalistas reagiram dizendo que isso é inadmissível. O que eles não disseram: que em 24 de março de 1999 a OTAN bombardeou e destruiu estações de rádio e de TV na antiga Iugoslávia. Os russos apenas estão utilizando uma venerável tática militar dos europeus e norte-americanos.

A BBC diz que os ucranianos estão decepcionados porque não recebem ajuda militar ocidental. Talvez eles estejam com raiva, pois foram levados a começar uma guerra com a Rússia apenas porque os europeus e norte-americanos velhacos queriam aumentar os lucros das fábricas de armamentos na Inglaterra, Alemanha, França e EUA. Agora que o mercado conseguiu aquilo que desejava, a Ucrânia pode ficar com o subproduto dos lucros dos gringos e europeus: os prédios destruídos e alguns cadáveres (não muitos, pois os russos estão sendo menos sanguinários do que os norte-americanos e ingleses foram no Iraque).

Não posso deixar de mencionar aqui uma ironia. Dentre as milícias políticas e paramilitares de extrema direita da Ucrânia existe uma que se chama Pravyy Sektor, cujo significado em português é “setor da direita”. Todavia, Pravyy Sektor tem quase a mesma sonoridade que Private Sector, expressão inglesa cuja tradução é “setor privado”.

O mercado (setor privado) lucrou com o setor da direita ucraniano e o abandonou a própria sorte. As afinidades entre ambos são grandes, mas nenhum capitalista que produz armas ou acionista que lucra com a produção delas é ou será ideologicamente fiel a milicianos fanáticos dispostos a morrer por ideologia e em troca de nada ou quase nada.

O ocidente deve apoiar a Ucrânia, dizem alguns jornalistas ocidentais. Os ucranianos não podem ser abandonados para morrer nas mãos dos russos malvados, dizem outros. Boris Johnson, Emmanuel Macron, Justin Trudeau, Olaf Scholz, Joe Biden, etc podem até fazer encenações e demonstrar em público que estão dispostos a mergulhar na guerra ucraniana. Mas a verdade é que eles são homens do Private Sector e não do Pravyy Sektor.  Os líderes políticos ocidentais querem representar os lucros oriundos da guerra, não os cadáveres que ela irá produzir.

Em 9 de abril de 2003, nós vimos a estátua de Saddam Hussein ser derrubada por soldados do norte-americanos em Bagdá. Ao que tudo indica, antes de 9 de abril de 2022, veremos a estátua do nazista Stepan Bandera ser derrubada em Kiev por soldados russos. Os agentes da CIA que choraram de alegria em 2003; agora eles chorarão de amargura, pois fomentaram e financiaram o golpe de estado de 2014 na Ucrânia.

Stepan Bandera colaborou com o III Reich e cometeu diversos crimes, mesmo assim foi elevado à condição de herói nacional ucraniano. Portanto, é impossível adivinhar como a imprensa irá chamá-lo quando sua estátua for derrubada: herói ou nazista? A segunda opção seria historicamente correta. O problema é que a imprensa escolheu tratar a Rússia como inimiga e não poderá chamar Stepan Bandera de nazista. Seria difícil explicar como e porque os russos teriam cometido um crime ao destruir o símbolo nazista do regime ‘democrático’ de Kiev.

Bolsonaro disse que conversou por duas horas com Vladimir Putin pela internet. Um dia depois ele desconversou. Talvez ele tenha conversado com uma deepfake. Essa possibilidade não pode ser descartada. Distinguir imagens reais de imagens manipuladas está ficando cada vez mais difícil. Um especialista em deepfake pode facilmente criar um Putin fake capaz de enganar e conversar com Bolsonaro. O mais difícil seria o inverso. Uma deepfake de Bolsonaro capaz de conversar com o verdadeiro Putin seria rapidamente desmascarada. Ninguém consegue ser tão grosseiro e limitado como o presidente brasileiro. Conversação inteligente ou diplomática não é a praia do mito.

Os russos têm superioridade aérea e capacidade militar para fazerem Kiev o que os norte-americanos fizeram em Bagdá. A coluna de veículos militares da Rússia avança lentamente dando a Zelensky e ao Batalhão Azov tempo para fugir em direção à Alemanha. O governo alemão protesta veementemente, mas não é capaz de dizer se dará status de refugiado aos nazistas ucranianos que podem resolver exibir suas bandeiras nas praças de Berlim.

Durante a crise dos mísseis, em 1962, JFK teria dito que tinha condições de destruir a URSS várias vezes. Khrushchov respondeu dizendo que podia destruir os EUA uma vez só é isso era o suficiente para ele. Um foi assassinado o outro morreu idoso gravando memorias em sua dacha. A sede de poder e de sangue dos gringos vagabundos vai afoga-los agora ou depois. E o mundo de alguma forma seguirá em frente, pois o tempo geológico devora tanto os impérios quanto os continentes em que eles surgem e desaparecem.

Alguns físicos acreditam que presente, passado e futuro coexistem de maneira superposta e interligada no mesmo espaço. Nós não percebemos esse fenômeno, pois nossos sentidos são grosseiros. Nossas consciências são treinadas para recortar e ordenar o tempo do passado para o futuro, do nascimento para a morte. As crenças e certezas que nós adquirimos ao longo da vida funcionam como barreiras cognitivas, impedindo o acesso à totalidade do tempo num mesmo instante.

Talvez o mundo já tenha sido destruído por uma guerra nuclear. Mas os norte-americanos – tão acostumados a praticar a diplomacia dos bombardeiros estratégicos e dos submarinos nucleares classe Ohio – ainda  não tenham percebido isso. Eles ficam aterrorizado a espécie humana como se devessem ser pagos para salva-la muito embora eles mesmos coexistam com seus próprios fantasmas contaminados por radiação.

Uma última observação importante: a violência policial e a letalidade das PMs segue a todo vapor no Brasil porque os juízes fazem vistas grossas. Na Europa uma guerra mecanizada que pode ou não evoluir para uma guerra mundial e nuclear. Cá uma guerrinha policial suja de atrito permanente contra os pobres, mas milhares de juízes estão mais preocupados com a outra guerra. Se a Guerra da Ucrânia não terminar logo eles serão obrigados a tirar férias no Brasil.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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