21 de maio de 2026

Quando a guerra sabota o clima, por Maria Luiza Falcão

Quando o fluxo energético global fica ameaçado, o sistema internacional não reage com serenidade climática. Reage com pânico fóssil.
Estreito de Ormuz - Reprodução

A guerra iniciada por Trump e Netanyahu em 2026 no Oriente Médio intensifica a dependência global de combustíveis fósseis.
Conflitos militares ameaçam infraestrutura vital, como o Estreito de Ormuz, prejudicando o acesso à energia e água na região.
A escalada militar eleva emissões de CO2 e dificulta a cooperação internacional necessária para a transição ecológica global.

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Quando a guerra sabota o clima

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por Maria Luiza Falcão Silva

Há algo de profundamente perverso no tempo histórico em que vivemos. Enquanto a ciência insiste, com crescente urgência, que a humanidade dispõe de uma janela cada vez mais estreita para conter o aquecimento global, as grandes potências seguem agindo como se a guerra pudesse ser separada da crise climática. Não pode. A devastação militar, a corrida armamentista, a destruição de infraestrutura, a revalorização geopolítica do petróleo e o colapso da cooperação internacional fazem da guerra um dos maiores sabotadores contemporâneos das metas climáticas.

É nesse sentido que a situação criada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu ultrapassa o terreno da geopolítica regional e entra diretamente no coração do problema climático mundial. A guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro e já no seu 17º dia em 16 de março de 2026, não apenas multiplica mortos, deslocados e destruição material. Ela também empurra o mundo de volta à lógica do combustível fóssil, da segurança energética militarizada e da emergência permanente — exatamente o oposto do que seria necessário para uma transição ecológica planejada.

O caso do Estreito de Ormuz é emblemático. Não se trata mais de uma hipótese longínqua evocada por analistas para assustar mercados. O estreito, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo, já é uma rota sob grave interrupção, com Washington pressionando outros países a enviar forças navais para tentar mantê-lo aberto. Quando o fluxo energético global fica ameaçado nesse nível, o sistema internacional não reage com serenidade climática. Reage com pânico fóssil. Reage reforçando escoltas navais, ampliando a militarização da infraestrutura energética e recolocando o petróleo no centro da estratégia de sobrevivência econômica.

A escalada militar começa a produzir efeitos ainda mais perturbadores quando atinge os sistemas básicos de sobrevivência das populações. Notícias divulgadas neste sábado indicam que a guerra já ameaça inclusive o fornecimento de água em partes da região. Infraestruturas essenciais — usinas elétricas, sistemas de bombeamento, redes de distribuição e instalações de dessalinização — dependem de energia e estabilidade logística para funcionar. Quando essas estruturas entram em colapso ou operam sob risco constante, milhões de pessoas passam a enfrentar não apenas o medo das bombas, mas também a ameaça da sede. A guerra, nesse sentido, transforma-se em um multiplicador de crises: destrói cidades, interrompe cadeias energéticas e compromete até o acesso à água potável. Em uma região já marcada por estresse hídrico e temperaturas extremas agravadas pelas mudanças climáticas, o resultado pode ser devastador.

Eis a contradição central: há anos se repete, nas conferências do clima, que a transição energética exige previsibilidade, coordenação, financiamento, planejamento industrial e redução acelerada da dependência de carvão, petróleo e gás. Mas a guerra faz exatamente o contrário. Ela introduz ruptura de oferta, especulação, choques de preços, medo de desabastecimento e pressões para expandir produção e transporte de combustíveis fósseis. Em vez de acelerar o abandono do velho paradigma energético, o conflito o ressuscita sob a forma de urgência estratégica.

Isso não se limita ao petróleo que circula pelo Golfo. A própria máquina da guerra é intensiva em carbono. Operações militares, bombardeios, deslocamentos de tropas, reconstrução de cidades destruídas, produção de armamentos, logística de bases e sistemas de defesa elevam emissões direta e indiretamente.

Um estudo publicado na Nature Communications mostrou que guerras e aumentos persistentes de gastos militares elevam a intensidade de emissões de CO2; e análises recentes do Conflict and Environment Observatory alertam que a escalada global do gasto militar compromete diretamente os objetivos da ação climática.

Em outras palavras: a guerra não é apenas um drama humanitário ou diplomático. Ela é também uma política climática regressiva, ainda que jamais se apresente assim. Cada míssil lançado, cada refinaria ameaçada, cada rota marítima militarizada, cada orçamento público deslocado da adaptação ecológica para a compra de armamentos contribui para aprofundar a distância entre o que os governos prometem nas cúpulas do clima e o que de fato fazem no mundo real.

É precisamente por isso que a ofensiva articulada por Trump e Netanyahu tem implicações muito mais amplas do que as justificativas apresentadas em nome de “segurança” ou “dissuasão”. Ao incendiar uma região central para o mercado global de energia, ambos ajudam a reorganizar prioridades do sistema internacional em torno da guerra, não da descarbonização. E isso acontece quando a agenda climática já vinha sofrendo enormes dificuldades.

Na COP30, uma nova análise da Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que, mesmo com avanços recentes, os planos nacionais levariam a uma queda de apenas 12% nas emissões globais até 2035 em relação a 2019 — progresso insuficiente diante da escala do desafio. O espaço para atrasos já era mínimo; sob guerra prolongada, ele se torna ainda menor.

Existe ainda uma dimensão política menos visível, mas igualmente grave. A crise climática depende de cooperação internacional em larga escala. Exige confiança mínima entre Estados, instituições multilaterais capazes de coordenar metas, regras de financiamento e compartilhamento tecnológico. A guerra destrói exatamente esse ambiente. Ela substitui a linguagem da cooperação pela da coerção; a diplomacia climática pela diplomacia da intimidação; os fundos para transição por orçamentos de defesa; os pactos multilaterais por alianças militares ad hoc. Quando a política internacional entra em estado de beligerância permanente, a governança do clima se torna refém da lógica do inimigo.

Nesse cenário sombrio, a China aparece como uma contradição importante. Segue sendo grande consumidora de carvão, e isso não deve ser minimizado, mas, ao mesmo tempo, foi justamente a expansão acelerada das energias renováveis que permitiu ao país registrar em 2025 a primeira queda anual da geração termelétrica em uma década. A Reuters também destacou, no começo de 2026, que a China continua ampliando, fortemente, sua capacidade em solar, eólica e armazenamento, consolidando-se como o principal polo mundial da infraestrutura de energia limpa. Ou seja, enquanto parte do Ocidente reacende a geopolítica do petróleo sob escolta militar, a China oferece um vetor oposto: o de uma transformação produtiva em que a segurança energética tende a se apoiar mais em capacidade industrial limpa do que em guerras por controle de rotas e regiões estratégicas.

Isso não significa idealizar Pequim, mas reconhecer a natureza da bifurcação histórica em curso. De um lado, a segurança definida em termos militares, dependente de frotas, bases, petróleo e imposição de força. De outro, a segurança definida em termos de investimento produtivo, tecnologia energética e reestruturação de longo prazo. A primeira amplia o risco climático. A segunda, ainda que incompleta e contraditória, aponta para uma saída mais racional.

Trump e Netanyahu operam no sentido inverso, reforçando a ideia de que a ordem internacional pode continuar baseada em supremacia militar e em controle coercitivo de regiões-chave. Essa visão não apenas é moralmente devastadora; ela é climaticamente suicida. Não se pode pretender defender o planeta mantendo intacta a centralidade estratégica do petróleo. Não se pode falar em transição ecológica enquanto se normaliza a explosão de guerras em áreas decisivas para a energia global. Não se pode pedir sacrifícios à população civil em nome do clima enquanto trilhões são canalizados para destruição, rearmamento e confrontação geopolítica.

O ponto mais grave é que a guerra não adia apenas metas abstratas para 2030 ou 2050. Ela reorganiza o presente. Ela muda preços relativos, prioridades fiscais, discursos políticos e hierarquias estratégicas. Ao fazer isso, cria inércia institucional e econômica contrária à transição. O resultado é simples: cada mês de guerra torna mais difícil, mais cara e mais politicamente improvável a transformação ecológica de que o mundo necessita.

A tragédia, portanto, é dupla. Morrem pessoas sob bombas e morre, um pouco mais, a já frágil possibilidade de coordenação global contra o aquecimento do planeta. O mesmo sistema internacional que se mostra incapaz de proteger civis também se mostra incapaz de proteger as condições mínimas de habitabilidade da Terra. E isso não é coincidência. É expressão de uma ordem que continua tratando poder militar como solução, quando ele é parte decisiva do problema.

Se o mundo quiser realmente enfrentar a emergência climática, terá de romper não apenas com os combustíveis fósseis, mas também com a lógica política que os sustenta. Terá de reconhecer que militarização, guerra e transição ecológica são situações cada vez mais incompatíveis. E terá de dizer com clareza o que muitos preferem calar: as guerras de Trump e Netanyahu não apenas incendeiam o Oriente Médio. Elas ajudam a incendiar o próprio futuro climático da humanidade.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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  1. WRamos

    16 de março de 2026 3:46 pm

    O argumento do artigo é logico e irrufutável. Mas cabe ir um pouco além, para depois da guerra. Como nas crises dos anos 1970 e 80, após os embargos do petróleo teve reação. O Brasil criou o programa do álcool e passou a explorar seu prórprio petróleo, sendo hoje ganhador líquido da guerra, mas podendo colocar o desenvolvimento de energias sustentáveis num patamar acima, já que o custo de oportunidade aumenta com a crise de suprimento de petróleo e viabiliza soluções ainda caras.

  2. AMBAR

    16 de março de 2026 5:30 pm

    Temos Dubai, em breve teremos “The Line”, outra jóia do deserto, construida com o farto dinheiro do petróleo. Por outro lado temos as 10 maiores e mais modernas cidades do mundo na China, que não tem fortunas em petróleo e nem reinados hereditários (atualmente). Essas comparações nos fazem pensar na distribuição do dinheiro, seu uso, e a natureza de cada política de estado. É como se dessem a mesma quantidade de recursos para duas pessoas e se observasse quem se sairia melhor. De um lado, o perdulário, que acreditando que seus recursos serão inesgotáveis vai investir no luxo, na ostentação, na vaidade e no próprio bem estar; de outro lado, o econômico, planejador, com sensibilidade social, que não obstante contar com mais desafios do que recursos, sabe que recursos são finitos, a redistribuição é necessária, o planejamento é a receita para o bem estar futuro. Temos assim o retrato de parte do Ocidente, do Oriente Médio e da China. A gente olha para as ricas cidades do deserto árabe e sabe até o dia em que elas vão murchar, idem o deserto americano, enquanto isso, no deserto que a China tem ela planta o verde que pode para sustentar estradas e integrar o país.
    Essa guerra, como as muitas outras em que USA se mete, não cuida de recursos energéticos, preocupação ou retrocesso no combate à crise climática : trata-se de FILOSOFIA DE VIDA, creio.
    Farinha pouca, meu pirão primeiro. Emires, presidentes, primeiros ministros, e outras autorides, enquanto representantes do poder dos detentores de imensas fortunas estão pouco se lixando se os recursos naturais vão se acabar, se populações inteiras vão sucumbir de sede ou de fome, se elas vão vagar pelo mundo a procura de abrigo. Contanto que não batam nas suas portas, não cheguem às suas cidades apartadas, poderão morrer todos. Fica mais do que evidente que tanto as práticas deletérias de exploração quanto o desenvolvimento científico dessas economias estão completamente voltadas para a sobrevivêcia das elites.
    Se puderem deixar a terra tão seca quanto marte, eles o farão, desde que descubram onde para possam transferir seus luxos e parasitismos.

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