19 de junho de 2026

Saídas do desejo autoritário: a assunção da singularidade, por Eliseu Venturi

No desejo autoritário, o sujeito renuncia ao movimento do desejo para se fundir ao saber do Outro — seja Estado, Pai, Lei ou algoritmo.
Victor Brauner. O surrealista. 1947.

Saídas do desejo autoritário: a assunção da singularidade

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por Eliseu Raphael Venturi

A autoridade seduz. Não apenas pelo que impõe, mas pelo que promete evitar: a angústia de desejar.

A cena contemporânea está atravessada por uma pulsão de acomodação ao autoritário, muitas vezes disfarçada de moral, técnica ou vontade de ordem. O desejo autoritário, mais do que um fenômeno político, é uma economia psíquica: busca-se no Outro forte a sustentação de um eu frágil.

Quando o sujeito recusa sua divisão, quando nega a falta que o constitui, ele demanda ao Outro que decida, que normatize, que diga o que é e o que deve ser. Trata-se de uma terceirização da responsabilidade pelo desejo.

Lacan advertia que o sujeito é um efeito do significante, mas também que não há significante que o diga todo. A tentativa de fechamento, de completude, de Nome-do-Pai absoluto, é sempre uma ficção que mascara a castração simbólica.

No desejo autoritário, o sujeito renuncia ao movimento de seu desejo para se fundir ao suposto saber do Outro — seja o Estado, o Pai, a Lei ou o algoritmo. A fantasia de um saber que tudo organiza, que tudo governa, que tudo protege, reconforta. Mas é exatamente esse conforto que sustenta a servidão voluntária, aquilo que La Boétie já intuía antes mesmo da psicanálise existir.

A singularidade, nesse contexto, não é uma oposição simétrica ao autoritarismo — não é identidade, não é personalidade, não é originalidade. Ela é o nome possível para o que resta quando o sujeito deixa cair as amarras da identificação imaginária e da submissão simbólica.

A singularidade se constitui naquilo que o sujeito faz com sua falta, com seu sintoma, com o que nele é incurável. Assumi-la é enfrentar o desamparo sem recorrer ao gozo do mandamento. É criar-se a partir do que falta, não do que sobra.

Mas a assunção da singularidade não é pacífica. Ela não resulta de uma escolha consciente, mas de uma travessia subjetiva, muitas vezes marcada pela angústia, pelo vazio e pela suspensão dos referenciais imaginários.

O sujeito, desamparado, tenta retornar à cena da certeza, tenta restabelecer o pacto com a autoridade perdida. É aí que florescem as figuras autoritárias contemporâneas: líderes carismáticos, algoritmos totalizantes, ideologias identitárias rígidas, discursos de verdade total. Todas essas formas operam como suplência à falta constitutiva do sujeito e da linguagem.

A saída do desejo autoritário, portanto, não está na confrontação direta com o autoritarismo — pois o confronto ainda o alimenta como Outro — mas na desativação de sua fonte: a recusa do sujeito a se responsabilizar por seu próprio desejo.

A análise, nesse sentido, é uma via política no plano ético: ela não transforma o mundo, mas transforma a posição do sujeito frente ao mundo. O que muda não é o Outro, mas a forma como o sujeito se autoriza a existir sem ele.

Nomear o sinthoma, sustentar o desejo sem ideal, deixar cair o sujeito suposto saber, fazer um ato sem garantias — são saídas lacanianas que implicam uma dessubjetivação do gozo autoritário.

Ao fim, não resta um eu fortalecido, mas um sujeito descompletado, mais leve, mais disponível à alteridade. E é aí que começa o político: não na reafirmação de uma identidade, mas na possibilidade de vínculo sem dominação, na escuta do que não se reconhece como igual, na abertura ao que resiste à captura.

No campo jurídico, o desejo autoritário se disfarça de legalidade. Busca-se uma norma para tudo, uma punição para cada gesto, um controle para cada risco. A singularidade do caso é apagada em nome da eficácia. A escuta cede lugar à performance da autoridade. E o jurista se torna técnico da aplicação normativa, alienado da dimensão ética de sua prática.

Reverter isso não é possível com reformas legais, mas com uma política da escuta: a escuta do sujeito, do sintoma, do que escapa ao conceito. O Direito, quando escuta, torna-se linguagem que hesita. Quando não escuta, torna-se máquina que repete.

No plano social, o desejo autoritário opera como resposta ao excesso de liberdade mal elaborada. Quanto mais o sujeito é chamado a ser livre, mais ele recorre a um Outro que decida por ele. O excesso de possibilidades produz angústia, e a angústia, quando não simbolizada, pede contenção.

Por isso o autoritarismo cresce em tempos de aceleração, incerteza e colapso simbólico. Ele promete um mundo sem ambivalência. Mas essa promessa é uma armadilha: ao livrar-se da ambivalência, o sujeito também renuncia à sua capacidade de criação, de deslocamento, de reinvenção.

A assunção da singularidade exige, portanto, uma nova ética. Uma ética sem garantias, mas com escuta. Uma ética do sinthoma, que não quer corrigir, mas sustentar. Uma ética do ato, que não se funda no bem, mas na responsabilidade. Uma ética da linguagem, que sabe que há falha, e que é precisamente da falha que emerge o sujeito.

Se a assunção da singularidade exige uma nova ética — uma ética do sinthoma, sem garantias, sem amparo, mas com escuta — a questão inevitável que se impõe é: de onde virá essa ética? E, logo em seguida: como sustentá-la num tempo de fragmentação discursiva, enfraquecimento da educação e multiplicação de bolhas de sentido?

Essa ética não virá de fora, nem de cima, nem do passado. Ela não se deduz, não se ensina, não se impõe. Não se trata de um novo código, de um manual para tempos líquidos, de uma moral de última geração.

Trata-se de uma ética que se instala no instante mesmo em que o sujeito consente em perder o Outro como garantia e se responsabiliza por seu lugar no desejo — sem querer purificá-lo, sem demandar absolvição, sem recuar à proteção da heteronomia.

Diante da pulverização da linguagem e da crise dos sentidos partilhados, essa ética não busca restaurar o consenso, mas operar na fratura. O enfraquecimento da educação formal e a dissolução da autoridade epistêmica não autorizam o cinismo ou a nostalgia; antes, exigem outra posição: a de quem sustenta o dissenso como real, e não como patologia.

As bolhas, nesse cenário, não são deformações do laço social — são a forma atual de sua existência. A tarefa, então, não é romper as bolhas, mas produzir dentro delas experiências de escuta, fendas éticas, encontros possíveis.

A pergunta inevitável diante disso — quem vai entrar? quem vai sair? — toca o ponto mais delicado: não se trata apenas de bolhas como territórios de sentido, mas de fronteiras psíquicas, políticas e afetivas onde se decide quem é admitido, quem é expulso, quem permanece.

Se as bolhas são hoje o modo pelo qual o laço social se sustenta — frágeis, autocentradas, paranoicas — entrar nelas exige um tipo de ato ético, não invasivo, não colonizador. Quem entra não o faz para convencer, corrigir ou redimir. Entra para escutar, para sustentar a presença, para testemunhar o ponto em que a linguagem falha. Não se entra como missionário, mas como estrangeiro que consente em não ser bem-vindo.

E quem sai? Sai quem já não suporta o gozo do pertencimento cego. Sai quem percebe que a identidade fixa cobra um preço alto demais: o silenciamento do desejo. Sair, porém, não é libertar-se completamente — é aceitar a solidão de não ter mais abrigo simbólico. É habitar o entre-lugar, nem plenamente dentro, nem fora. Um exílio ético.

Na prática, poucos entram, e poucos saem. Porque o custo é alto: escutar sem se defender, desejar sem garantia, estar com o outro sem absorvê-lo ou ser absorvido. Mas é nesses gestos raros que a ética começa. Não como revolução, mas como rachadura. Um sujeito que entra com escuta. Um sujeito que sai com responsabilidade. E entre os dois, talvez um encontro possível.

Contra a performatividade da rede — onde tudo se diz para ser visto, curtido, replicado — a escuta emerge como resistência silenciosa. Escutar é recusar o automatismo da reação. É sustentar o intervalo. É habitar o não-saber sem ceder ao gozo da resposta pronta. A escuta, nesse contexto, é já um ato político.

Sem ilusão de massa, o trabalho passa pela microtransmissão: redes mínimas, vínculos singulares, experiências localizadas onde a linguagem ainda pulsa como acontecimento. Educar não como instruir, mas como provocar deslocamentos, produzir atravessamentos, sustentar perguntas.

Essa ética — da linguagem falha, do sinthoma sem cura, da responsabilidade sem garantia — não salvará o mundo. Mas pode impedir que o desejo autoritário se torne a única saída. Porque, onde tudo falha, ainda resta a possibilidade de falar. E talvez seja justamente nesse ponto que o sujeito, enfim, comece.

Não se trata de negar o autoritarismo apenas como forma política, mas de desarticular seu núcleo subjetivo: o gozo da submissão, o conforto da heteronomia, o medo de desejar.

O sujeito que assume sua singularidade não é herói, nem exemplo. Ele é, antes, alguém que desiste de se encaixar no ideal e passa a sustentar o que o atravessa. Ele sabe que sua posição não é universalizável, e por isso mesmo é política: porque deixa de exigir que o outro seja como ele.

A convivência, nessa chave, não se dá por identidade, mas por coabitação na diferença. A democracia real — que não se reduz ao voto, ao contrato ou à lei — é talvez isso: o espaço em que cada um sustenta sua singularidade sem exigir que ela seja critério de verdade para os demais.

Enquanto o desejo autoritário busca eliminar a diferença, a singularidade reconhece nela a condição do laço.

O autoritário quer ordem, previsibilidade, pureza.

O singular aceita o imprevisível, o ambíguo, o contraditório.

O autoritário quer nomear tudo.

O singular sustenta o que não tem nome.

O autoritário quer uma saída.

O singular sabe que não há saída; e, por isso, caminha.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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