10 de junho de 2026

Santa Catarina, laboratório do bolsonarismo e o assassinato de Orelha, por Gustavo Tapioca

O estado aparece como um ecossistema ideológico funcional, onde o bolsonarismo deixou de depender de Jair Bolsonaro para existir.
Gesto nazista em São Miguel do Oeste, cidade de Santa Catarina

Santa Catarina é o principal reduto do bolsonarismo, onde a extrema direita molda valores e comportamentos sociais.
O bolsonarismo local envolve classes médias, empresários e setores industriais, normalizando discursos autoritários e violência.
O assassinato do cão Orelha simboliza a brutalização social e alerta para o risco de barbárie virar método no Brasil.

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Santa Catarina, laboratório do bolsonarismo e o assassinato de Orelha 

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Enquanto parte do debate público insiste em decretar a morte do bolsonarismo, a realidade brasileira aponta para um cenário mais inquietante: a extrema direita não desapareceu — ela mudou de forma. E nenhum estado expressa melhor essa metamorfose do que Santa Catarina, hoje o território mais bolsonarista do país. 

por Gustavo Tapioca 

No Programa 20 Minutos, o analista Breno Altman recebeu a jornalista e professora Amanda Miranda para discutir uma questão central do momento político: o bolsonarismo está em colapso ou apenas em recomposição? 

Quando a análise se desloca para Santa Catarina, a resposta se torna incômoda. O estado aparece não apenas como reduto eleitoral da extrema direita, mas como um ecossistema ideológico funcional, onde o bolsonarismo deixou de depender exclusivamente de Jair Bolsonaro para existir. 

Ali, a extrema direita não opera apenas em ciclos eleitorais. Ela organiza valores, molda comportamentos e estrutura uma visão de mundo autoritária e violenta que se reproduz no cotidiano. 

Santa Catarina encarna o bolsonarismo 

Segundo Amanda Miranda, Santa Catarina representa um estágio avançado do fenômeno bolsonarista. O apoio à extrema direita não se limita ao voto: tornou-se identidade social, marcador de pertencimento e código cultural. 

O bolsonarismo catarinense: 

  • organiza relações profissionais e comunitárias; 
  • circula em escolas, igrejas, associações empresariais e redes sociais; 
  • e se apresenta como “normalidade política”. 

Não se trata de conservadorismo clássico. Trata-se de uma cultura política autoritária, sustentada por antipetismo radical, rejeição ao Estado social e naturalização da violência simbólica — e, em certos casos, física — contra adversários políticos. 

Nesse ambiente, discursos contra o STF, a imprensa, as universidades e os movimentos sociais não geram constrangimento. Circulam como senso comum. 

Uma base social confiante e legitimada 

Diferentemente de outros estados onde o bolsonarismo entrou em retração após 2022, em Santa Catarina ele segue confiante, organizado e legitimado socialmente. Sua base envolve: 

  • setores expressivos da classe média urbana; 
  • pequenos e médios empresários; 
  • segmentos industriais; 
  • grupos que associam políticas sociais a “ameaças” econômicas ou morais. 

A retórica da ordem, do mérito e da força substitui o debate democrático. A exceção vira regra. O autoritarismo deixa de ser tabu. 

Outros polos do bolsonarismo 

Santa Catarina não está isolada. É o ponto mais avançado de um fenômeno que também se manifesta, com intensidades distintas, em outras regiões. 

No Centro-Oeste, o bolsonarismo se ancora no agronegócio e no discurso antiambiental. No interior de São Paulo, mistura conservadorismo empresarial e antipetismo histórico. No Paraná, sobretudo em áreas urbanas e industriais, reproduz um padrão semelhante ao catarinense, ainda que menos homogêneo. 

A diferença de Santa Catarina está na densidade cultural: ali, o bolsonarismo não apenas disputa eleições — ele molda valores e comportamentos. 

Santa Catarina como antecipação do Brasil 

O alerta central da análise é inequívoco: Santa Catarina não é exceção regional; é antecipação histórica. 

O estado funciona como laboratório onde a extrema direita: 

  • aprende a sobreviver sem líder carismático; 
  • radicaliza o discurso sem perder base social; 
  • e testa os limites da democracia sem isolamento político relevante. 

Em cenários de crise econômica, instabilidade institucional ou intensificação da guerra cultural, esse modelo pode irradiar para outras regiões. 

2026: menos Bolsonaro, mais bolsonarismo 

O principal risco para 2026 não é apenas Jair Bolsonaro — hoje juridicamente fragilizado cumprindo pena de 27 anos na Papudinha —, mas a consolidação de um bolsonarismo pós-Bolsonaro: menos personalista, mais ideológico, mais enraizado socialmente. 

Esse movimento tende a: 

  • pressionar permanentemente o governo Lula; 
  • tensionar o STF; 
  • corroer a confiança na imprensa e atacar ciência; 
  • e manter viva a lógica de deslegitimação eleitoral. 

Quando a barbárie vira método  

Ao comentar, no Programa 20 Minutos, o assassinato do cão Orelha — um animal idoso e dócil espancado até a morte por adolescentes em Santa Catarina — Breno Altman resumiu o sentimento de quem ainda se recusa a naturalizar o horror: “quanto mais conheço a humanidade, mais gosto dos cachorros”

Não era ironia. Era diagnóstico. 

Em seguida, Breno formulou a pergunta que atravessa este artigo: a tortura e o assassinato brutal de um ser indefeso não fazem parte do mesmo processo de brutalização social alimentado pelo discurso extremista? 

O crime comoveu o país e levou pessoas às ruas. Mas tratá-lo como episódio isolado é recusar-se a enxergar a realidade. Violência extrema não surge do nada. Ela é ensinada, legitimada e normalizada. 

O bolsonarismo não se limita a atacar instituições. Ele rebaixa o valor da vida, transforma empatia em fraqueza e converte a crueldade em identidade política. Quando esse discurso se enraíza, ele transborda para o cotidiano e dissolve freios morais básicos. 

Espelho incômodo  

A morte de Orelha expõe um limite rompido. Há ambientes onde a barbárie já não choca. Onde a violência circula. Onde espancar um ser indefeso deixa de ser impensável e vira apenas mais uma notícia. 

Santa Catarina reaparece, assim, como espelho incômodo. Não por essência regional, mas porque ali o discurso extremista encontrou ambiente permissivo, socialmente legitimado. O assassinato do cão não é desvio. É sintoma. 

O risco que o bolsonarismo representa para o Brasil não se resume a eleições. É a corrosão do tecido moral da sociedade, a normalização da brutalidade e a aceitação da violência como linguagem política. 

Quando uma sociedade chega a esse ponto, a democracia já está em perigo — não apenas por golpes, mas porque parte da sociedade deixou de reconhecer limites éticos elementares. 

Santa Catarina não é um caso distante. É um aviso. Ignorá-lo é aceitar que a barbárie deixe de ser escândalo — e passe a ser método. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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5 Comentários
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  1. Carlos

    5 de fevereiro de 2026 3:27 pm

    Ou seja; um estado fascista.

  2. CEdeOliveira

    19 de fevereiro de 2026 6:01 am

    O pior do aqui tão bem descrito é que, tanto a população de maneira geral, quanto as autoridades, não percebem a evolução do que pode comprometer nossa democracia. Essa história de saudar usando método nazista é muito triste e preocupante.

  3. Evair

    23 de março de 2026 5:54 pm

    Sr. Conhece Santa Catarina?
    Nao…né. mais um mane falando besteira.
    Santa Catarina esta entre os melhores estados para se viver no Brasil, como esta o seu estado?

    1. Anônimo

      24 de abril de 2026 4:08 am

      Santa Catarina, o melhor estado para morrer…com certeza é!
      É o lixo com nome de santa…aliás cadê o jorjinho Melo? O anão bolsonarista em busca da branca de neve.

      1. Carlos

        16 de maio de 2026 3:31 am

        Estado menos corrupto, com menor desemprego, menos atuação de facções, mais rico. Devo ser horrível morar num lugar desses

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