Se for bom é capitalista. Se for ruim é socialista. Será?, por Vitor Souza

Pois, como disse o grande historiador inglês Erick Hobsbawn, “o medo do comunismo humanizou o capitalismo”. Então, perguntamos: o que será do mundo onde o capitalismo não teme mais o comunismo?

Se for bom é capitalista. Se for ruim é socialista. Será?, por Vitor Souza

Há tempos penso sobre o raciocínio extremamente simplista de avaliar as experiências socialistas pelo mundo do século XX e seus países remanescentes.

Primeiramente, é preciso lembrar que na guerra fria, estivemos sob a tutela do EUA, passamos por uma ditadura de 21 anos, orquestrada, em parte, por eles, e que as informações que tivemos acesso via mídia sobre a URSS passa pelo crivo ideológico dos nossos meios de comunicação, sabidamente burgueses e subalternos aos interesses dos EUA. É sempre importante lembrar que a mídia não é neutra e que, aliás, a neutralidade não existe.

Nesse sentido, formos formados ao longo e décadas por essa visão do mundo sobre o socialismo, associado à pobreza, escassez, ditadura, etc. ou à sensos comuns mais rasos ainda, como a associação do socialismo ao franciscanismo, quando dizem “ah, é socialista, mas tem i phone”.

Capitalismo está associado à riqueza, prosperidade. É comum que, ao falar de capitalismo, se remetam aos EUA e sua riqueza. Os EUA seriam uma prova que o capitalismo funciona, que proporciona riqueza e bem estar à maioria das pessoas. Mas quando pergunto por que o continente Africano não prosperou, visto que é capitalista também, ficam sem resposta. O mesmo para o sul da Ásia ou a América Latina. Afinal, hoje quase todo o planeta vive sob o capitalismo.

Quando se quer fazer críticas ao socialismo, (que eu também faço várias, como o autoritarismo, etc.) se dá exemplos ditatoriais ou de fracassos econômicos na URSS ou na China, verdadeiros ou falsos, como as dezenas de milhões de mortes “provocadas pelo socialismo”.

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No contexto brasileiro, as críticas se direcionam a Cuba, a única experiência socialista nas Américas. Os argumentos, geralmente fracos ou desonestos intelectualmente, mais comuns são “Ah, mas se Cuba é bom, por que as pessoas querem ir para os EUA”. Ou seja, é feita uma comparação de Cuba, um país pobre de 11 milhões de habitantes, que sofre um feroz bloqueio econômico dos EUA com o próprio EUA, o país mais rico do mundo. Nem preciso explicar o quanto isso é desonesto intelectualmente.

Outro: em toda a América Latina, em especial a central, milhões de pessoas vão tentar a vida nos EUA, não só Cuba. Mas o argumento é utilizado para tenta desqualificar o socialismo. Por que não falam: “Tá vendo, como o capitalismo é bom (ou ruim), as pessoas deixam o Haiti, a Honduras, El Salvador (todos capitalistas), etc. para ir para os EUA capitalista”?

A China é um caso igualmente desonesto. A China oficialmente comunista, embora tenha uma economia mista, parte de mercado e parte socialista, é um sucesso inegável. É o segundo país mais rico do mundo em dólares e já é o país mais rico do mundo se medido em dólar PPC (paridade de poder de compra), centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza nas últimas três décadas. Como não dá para negar o sucesso da China, só resta uma alternativa, dizer que ela é capitalista e ignorar uma fatia gigantesca da economia chinesa sob comando Estatal, além da parte capitalista de sua economia que é muito influenciada pelas ações Estatais (embora isso não caracterize socialismo).

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Outro: o crescimento da economia chinesa já era alto antes da abertura de parte da economia ao capitalismo, lá pelo fim dos anos 1970, no entanto com a abertura, as taxas de crescimento tenham aumentado bastante.

A asneira mais recente é dizer que o nazismo é de esquerda, particularmente entre os adolescentes, cuja formação foi feita por youtubers. Não por intelectuais.
Como o nazismo é super “queimado” na História, eles não podem admitir que seja uma doutrina de extrema-direita, então dizem que é de extrema-esquerda, e usam o argumento bobo, infantil, de “nazismo significa nacional-socialismo…”, mesmo que os maiores inimigos dos nazistas fossem os comunistas.

Outros exemplos igualmente desonestos que vemos a grande mídia fazer é quando ocorre alguma atrocidade em algum país que foi socialista, se fala “no regime soviético ocorreu tal coisa” ou “na ditadura chinesa ocorreu aquilo” ou o “regime comunista checo foi responsável por tais assassinatos”, ou seja, a culpa é do socialismo! Mas quando alguma atrocidade ocorreu/ocorre em algum país capitalista, a culpa não é do capitalismo, mas do governante do momento. Vocês nunca viram o capitalismo ser culpabilizado por atrocidades como o fascinazismo, as ditaduras na América Latina, as ferozes ditaduras africanas (todas capitalistas), os governos absolutistas da península Arábica, como o da Arábia Saudita, etc. Ou quando milhões morrem de fome na África sob o capitalismo. Nunca o capitalismo é culpabilizado. Entendemos que é responsabilidade do governante. Então por que as violações aos direitos humanos, que ocorreram, de fato, nos países socialistas é culpa do sistema socialista e não de seus governantes? Ou seja, se é ruim num país socialista é culpa do socialismo, se for ruim num país capitalista a culpa não é do capitalismo, mas do seu governo momentâneo. Assim é fácil argumentar, né?

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A China é um país muito machista desde sempre. Isso é culpa do Socialismo? Obviamente não.

A Rússia é um país com larga tradição de autoritarismo, desde muito antes da URSS e após também. É só ver o que Putin representa para a Rússia hoje, com super poderes. Isso mostra que não foi o socialismo o inventor do autoritarismo, mas continuador dessa tradição forte por lá.

Então, vamos ser honestos intelectualmente e estudar um pouco mais a História. O Socialismo teve muitos erros e acertos no século XX. Façamos as críticas pertinentes, contextualizadas.

E quem disse que o socialismo não deu certo? Se você tem hoje uma escola pública para estudar, agradeça aos malditos comunistas. Se você tem um hospital publico que te atende, agradeça aos malditos comunistas. Se você tem direito a se aposentar hoje, agradeça aos malditos comunistas. Sem os malditos comunistas nenhum desses direitos existiriam! Pois, como disse o grande historiador inglês Erick Hobsbawn, “o medo do comunismo humanizou o capitalismo”. Então, perguntamos: o que será do mundo onde o capitalismo não teme mais o comunismo?

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