Será que isso tudo é um delírio?
por Jean D. Soares
Eu não quero convencer ninguém de que isso tudo é um delírio.
Se alguém me dissesse que o Enéias Carneiro tinha sido preso por tentar dar um golpe de Estado após perder mais uma eleição e que quatro anos depois o seu filho Júlio Carneiro liderava uma corrida presidencial, depois de várias revelações escandalosas com ligações com banqueiros corruptos e famílias de mafiosos assassinos, eu diria que essa pessoa estava a delirar, que isso era absurdo, imoral até.
Vendo-me incrédulo, esse meu interlocutor imaginário responder-me-ia que os filhos de outros casamentos de Enéias também tinham sido eleitos, ex-mulheres também, todos para cargos importantes, de senador, deputado, governador e que havia uma especulação qualquer sobre o papel do seu cão Augusto na política. E eu não teria outra opção senão dizer que ele era um grande humorista a gozar com a minha cara, dar-lhe-ia as costas, decerto que estaria a mentir.
Pois o que vimos na última eleição foi real e foi muito mais do que essa curta ficção pode abarcar. O nepotismo, o crime original agora naturalizado como prática seletivamente legítima, transformou-se em algo aceitável, feito um negócio de família. Um patriarca elege filhos, mulheres e quem mais quiser, sem que ninguém se revolte. Um exército de fiéis a acreditar num messias que supostamente almeja salvar a pátria. A consequente desfaçatez, a ausência completa de pudor constitui o primeiro sinal de perigo.
A família está marcada pelas rupturas, com parentes a lutar pelo poder, com vários relacionamentos fraturados. A religião só lhe interessa como signo político. Desconheço um cristo que se queira armar. A pátria aqui é representada pela CBF, ícone que ostentam com o orgulho de uma instituição que tem cinco presidentes presos ou afastados nos últimos sete mandatos. Nada mais representativo dos paradoxos dessa posição política.
O segundo sinal de perigo repousa sobre o caráter pseudorevolucionário em que o candidato alcança esse lugar. Alguém que pretende precarizar relações de trabalho, privatizar empresas soberanas do Estado brasileiro, que almeja tornar o país o protetorado estadunidense, tem um discurso de mudança e estabilidade que não oferece qualquer rigor lógico. É na verdade neocolonialismo disfarçado de amor à pátria. Gosta tanto que aceita vendê-la. Não há nada de grandes mudanças aqui, uma vez que a história do Brasil é a história da espoliação por interesses de capitais e governos internacionais, que entram, tomam a preço de banana o que precisam e deixam que as barragens se rompam e que os rejeitos caiam sobre as nossas cabeças. Qualquer governo que fale de soberania, de defesa dos próprios interesses estatais, de agregar valor à matéria-prima nacional, de reindustrializar o país será mal visto pelos pelegos neocolonizadores que querem tomar o país de assalto. São piratas de terno.
Um terceiro sinal, ainda mais perigoso: a balança sem contrapesos. As bancadas do retrocesso têm claras maiorias espalhadas pelo Congresso. O próximo presidente indicará quatro juízes para o Supremo. Alguém que não tem qualquer vergonha receberá carta branca para fazer o que quiser no Executivo? Teremos uma balança a lançar pelos ares de forma silenciosa e fraturante tudo o que foi duramente conquistado nos últimos anos.
A história prova que as coisas podem sempre piorar. O Brasil saiu do mapa da fome com os governos do PT, retornou graças ao trabalho de Temer e Bolsonaro, e voltou a sair desse mapa graças ao governo atual do PT. E esse é um quarto sinal: a fome pode sempre voltar, sem ninguém se lembrar de que combatê-la é uma necessidade para dar dignidade ao país.
O que muitos querem é transformar o Brasil num território onde quem encontrar o ouro primeiro é o seu dono, um cassino sem fim em que a ilusão de uma vida abastada leva milhões aos cassinos, aos garimpos, às milícias e aos confins da violência armada. Foi graças a governantes que não tinham vergonha de sua própria ignorância que milhares morreram de Covid. Esse mesmo tipo de gente defende a liberdade de apostar, ainda que isso esteja a arruinar famílias inteiras.
Esse delírio pode nos colocar numa espécie de absolutismo silencioso e fascista.
Eu quero acordar do delírio. Vou votar para isso. Para que haja decência, inteligência, estabilidade, cuidado com as pessoas. Para que invertamos os sinais.
Contra o nepotismo patriarcal, a pluralidade de ministras e ministros de várias origens e cores.
Contra a neocolonização liberal, a soberania nacional.
Contra a defesa da violência arbitrária, a inteligência em busca da segurança.
Contra o desequilíbrio autoritário, a democracia.
Contra a indiferença, o cuidado.
Se você não foi votar, se está indeciso ou se considera mudar o seu voto, ainda temos chance de encontrar algum caminho que não nos faça retornar à terra em transe dos tempos da tortura.
Jean D. Soares é filósofo e produtor cultural
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