Sinistro(s) à Direita, por Jean Pierre Chauvin

Sinistro(s) à Direita, por Jean Pierre Chauvin

Desde que a República dos Bananas passou a (infra)viver sob o regime exclusivo e excludente do golpe, tornou-se difícil fugir ao resfriado, à enxaqueca, à gripe que derruba. Os entendidos dirão que se trata de doenças de natureza psicossomática. O corpo sofre, a mente padece, o cidadão peleja, dia após dia, contra a falta de seguridade social (que já era rala), os arbítrios em nome da “lei para todos”, sem contar aqueles canais, jornais e revistas tendenciosos etc.

Outro sintoma quase doentio está no discurso dos colegas com que convivemos. Uns a dizer que o mundo atravessa uma onda neoconservadora; outros, que internalizam o lugar-comum de que estudar ciências humanas seria coisa sem serventia (nem falta o nome de Arena a certos espaços ditos universitários); os terceiros a apascentar a pasmaceira geral, sob a alegação de que “política é coisa de gente ociosa”, intelectuais da USP. O supra-sumo reside nas “conclusões” tomadas de empréstimo, a subentender que “o mundo pragmático” não reservaria espaço, tempo e clima para reflexões detidas e doses de humanitarismo.

Salvo engano, metade da população que (sobre)vive em cima deste território (espécie de Panamá em maior escala) responde a esse estado de coisas com ansiedade, melancolia e depressão. Não será gratuito o fato de os alunos (e professores e funcionários) adoecerem no Campus verdejante, a serviço dos bancos. A universidade, será oportuno relembrar, deveria ser o lugar reservado à discussão, ao debate. Deveria ser reduto da cultura, da ciência, da tecnologia, do cálculo, da história, da política, do consenso que agrega; do dissenso que permite rever convicções.

Ao professor, está vetado “misturar” política com ensino, supondo-se que haja alguém que ainda acredite no discurso neutro e desinteressado de todas as outras categorias profissionais. Ora, quando um juiz acusa, prende, queima e monta um calendário muy particular, ninguém tem o desplante de lhe recriminar pelo que não deveria ter feito ou dito. Dentre as torpezas da necolônia, parece vingar com maior força a ideia perversa de que “dinheiro é poder” (o resto, convenhamos, pouco importa).

Isso talvez explicasse porque um professor, cuja carreira é sistematicamente precarizada desde a década de 1970, não tem o direito de expressar o que pensa e sente; enquanto aos togados, tudo (e mais um pouco) é permitido. Eles são os novos inquisidores. Uma delação, hoje, equivale à murmuração que levava súditos do rei à fogueira, enquanto vigoraram as Leis do Tribunal do Santo Ofício.

Os movimentos, além de orquestrados, chegam às enxurradas. Se questionarmos, estaremos a fazer “mimimi”; se silenciarmos, suporão que nos derrotaram. Não está fácil defender democracia no Brasil de Temer. Curiosamente, jornais que fomentaram a polarização político-partidária agora se dizem isentos. Nunca terão agido contra os interesses de seus leitores (melhor dizendo, de seus anunciantes).

A intenção desta “elite” financeira e legalista será desnortear o internauta e rifar o país de vez aos Estados Unidos da América? Parece que sim. Que eles procedam desta forma, talvez se possa dizer que isso acontece porque nunca foram capazes de perceber o que faz deste país o que ele é e as pessoas que o constituem. Duro mesmo é essa “convicção” (palavra do momento), que não nasceu no espírito ou na mente do “cidadão de bem”; mas foi construída pela tevê, em nome do “mercado”, da “ordem” e da extirpação de um único partido (que nunca fez governo efetivamente “de esquerda”, malgrado a cor vermelha e o significado literal de sua legenda).

Desconfie das estatísticas. Elas são ingredientes que visam a demotivar o eleitor  e angariar votos do batalhão de “indecisos”. Dividir para conquistar continua sendo o lema preferido da elite conservadora, dos mineradores, de (nem todos) fardados e (quase todos) homens de toga – espécies canhestras de Batman do avesso.

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