Enviado por Felipe A. P. L. Costa.
Superstição 2.
por Fernando Dias de Avila-Pires.
Em artigo anterior comentei que
“Superstições existem desde a antiguidade mais remota. E nós as identificamos hoje em indivíduos de todas as classes sociais. É importante reconhecer que elas (i) não são apenas fruto de ignorância ou desinformação; e (ii) não são facilmente desacreditadas e substituídas, uma a uma, pela informação correta.”
E que, no livro Que bobagem, de Natália Pasternak e Carlos Orsi,
“[…] faltou ao menos um capítulo – digo: um capítulo onde se discutisse como abordar a questão de arguir as superstições, o que poderia servir como uma espécie de guia para o leitor que queira embasar melhor as suas escolhas.”
No livro citado, o problema de como enfrentar o pensamento supersticioso, as crendices e as fake News – expressão recentemente adotada do inglês –, não é tratado em profundidade. Em geral, os autores que discutem a questão admitem tácita e erradamente que a informação correta é suficiente para esclarecer os que acreditam neles. Confundem, assim, informação com conhecimento.
Piaget, ao discutir o que denominou associação cognoscitiva, admite que todo conhecimento novo passa por um processo de assimilação a estruturas anteriores. Esclarece que usa o termo assimilação no sentido de integração a estruturas prévias, mas acomodando as novidades de modo a não desestruturá-las. À medida que ganhamos idade, tais sistemas se tornam cada vez mais rígidos e resistentes a mudanças. Em meados do século 19, por exemplo, a teoria evolutiva de Darwin, ao abandonar o finalismo (a ideia e que a história da vida persegue objetivos previamente definidos), substituindo-o pelo pragmatismo da seleção natural, contrariou certos postulados do cristianismo. Em certa medida, isso dificultou a assimilação da nova teoria por cientistas da época, muitos dos quais se recusaram a aceitá-la.
Entretanto, ao longo da vida nós incorporamos e preservamos certas informações isoladas a sistemas mais amplos que cada um de nós vê como um sistema coerente. Isso muitas vezes resulta em sincretismos de ideias conflitantes, como as ideias de livre arbítrio e destino.
Esta é a principal razão pela qual informações pontuais e isoladas dificilmente desconstroem sistemas de pensamento que admitem ideias supersticiosas e bobagens.
Outro fator importante deve ser levado em conta nesta discussão.
Em um livro que aborda a questão da curiosidade como estimuladora da pesquisa científica, Philip Ball descreveu o desenvolvimento da microscopia no século 18 e a descoberta do mundo microscópico, onde detalhes de texturas e, principalmente de seres desconhecidos cuja existência era impensada até então.
Além da polêmica em torno dos desígnios divinos para a criação de um mundo secreto, invisível aos nossos sentidos, da possível distorção dos instrumentos e da realidade do que os aparatos revelavam, outro elemento preocupava os filósofos cultivadores da ciência naquela época. Vejamos.
John Locke, por exemplo, descreveu os perigos da microscopia. Segundo ele, se alguém possuísse uma visão tão aguda quanto aquela permitida pelo microscópio, teria adquirido um conceito do mundo que não seria coerente com os das pessoas comuns: viveria em um mundo à parte dos demais seres humanos.
Na verdade é o que sucede na formação dos cientistas. A obrigação de buscar fontes confiáveis e a comprovação das informações recebidas; a replicabilidade dos experimentos descritos; a substituição de teorias velhas por outras mais recentes; o conhecimento profundo de fenômenos naturais e o ceticismo diante de fenômenos não naturais; a admissão de dúvidas mais do que de certezas; a descrença diante de argumentos de autoridade, sejam elas autores consagrados ou laureados com o Nobel, tudo isso gera um caldo de cultura que resulta na construção e no povoamento de um mundo à parte.
Não é de admirar que a ideia de combater superstições e bobagens com informações pontuais, ainda que corretas, não dê o resultado esperado.
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AUTORES CITADOS
++ Avila-Pires, F.D., Superstição. GGN Grupo Gente Nova, 30 de agosto de 2023.
++ Ball, P., Curiosity: How science became interested in everything. Random House, London. 2013.
++ Locke, J., Essay concerning human understanding, ed. P. Phemister. Oxford University Press, Oxford. 2008.
++ Pasternak, Natália & Carlos Orsi, Que bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério. Contexto, São Paulo. 2023.
++ Piaget, J., Biologia e conhecimento. Vozes, Petrópolis. 1973.
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