13 de junho de 2026

Superstição, por Fernando Dias de Avila-Pires

Foi bem vindo o livro Que bobagem!, de Natália Pasternak e Carlos Orsi, em um momento em que a superstição e as fake news se espalham rapidamente
“O senhor tem todo o avião para si. O grande grupo que iria à convenção de clarividência cancelou no último momento.” (Fonte: Humour noir.)

Superstição

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por Fernando Dias de Avila-Pires [*].

INTRODUÇÃO

Superstições existem desde a antiguidade mais remota. E nós as identificamos hoje em indivíduos de todas as classes sociais. É importante reconhecer que elas (i) não são apenas fruto de ignorância ou desinformação; e (ii) não são facilmente desacreditadas e substituídas, uma a uma, pela informação correta.

 Superstições grassam entre pessoas de distintos níveis de escolarização e abrangem crenças não demonstráveis por métodos habituais de verificação científica. Admitem a existência de forças e energias não detectáveis nem mensuráveis, incluindo coisas como a exobiologia, a numerologia, o poder de amuletos e de pulseiras de cobre para regulador a pressão sanguínea. Coisas que desafiam a lógica e que se baseiam na fé cega, no que se ouviu dizer dessa ou daquela fonte.

Incidentes trágicos, envolvendo suicídios ou assassinatos em massa, mostram que a questão é extremamente grave. Veja o que houve em Jonestown, uma comuna fundada pelo pastor Jim Jones na Guiana, onde 918 pessoas foram levadas a cometer suicídio, em 18/11/1978. De resto, os inúmeros casos de intoxicação por falsos medicamentos e de vítimas de tratamentos alternativos são preocupantes e exigem mais atenção.

SUPERSTIÇÕES: ALGUNS EXEMPLOS.

No que segue, vou me restringir a analisar certas crenças relativas à saúde.

Foi bem vindo o livro Que bobagem!, de Natália Pasternak e Carlos Orsi, em um momento em que a superstição e as fake news se espalham rapidamente graças às redes sociais. Além disso, são sancionadas pela atitude dúbia do Conselho Federal de Medicina, que não limita à liberdade dos médicos em prescrever certos tratamentos comprovadamente inócuos ou prejudiciais. Igualmente dúbio é o comportamento do Ministério da Saúde, que admite quase trinta práticas supersticiosas, algumas delas conflitantes com os programas de vacinação do próprio MS (Brasil: Ministério da Saúde, 2006).

Os autores foram cuidadosos em documentar a obra com citações bibliográficas atuais, permitindo assim ao leitor ter acesso a informações adicionais em fontes confiáveis.

Mas faltou ao menos um capítulo – digo: um capítulo onde se discutisse como abordar a questão de arguir as superstições, o que poderia servir como uma espécie de guia para o leitor que queira embasar melhor as suas escolhas.

* * *

Clarinha se comporte! Papai do Céu está vendo tudo o que você faz!

Na escola, a professora de religião ensina a criação do mundo cristão em sete dias, e se aprende que a história do mundo real só começa com os egípcios.

Na aula de ciências, a professora descreve experiências históricas e martela a verdade, ao menos segundo os cientistas.

Na faculdade, ninguém lhe ensina novamente a perguntar por quê? – como era comum  na primeira infância.

Nas propagandas da TV, os fatos são selecionados para comprovar a versão dos anunciantes. E o noticiário não se preocupa em detalhar, contextualizar ou conectar as informações.

Nas redes sociais, não há o menor cuidado ou a menor preocupação com a veracidade do que se difunde.

Não é de admirar que Clara, depois de adulta, acredite em tudo o que a TV, as redes sociais, os amigos e os vizinhos lhe dizem. Quando lhe perguntam de onde tirou alguma informação, suas respostas favoritas são “Dizem que…”, “Vi na TV…” ou“Li no portal UFO”.

Se a educação fosse a simples transmissão de conhecimentos e informações nós ainda estaríamos comendo carne crua de animais encontrados mortos e vivendo em uma gruta paleolítica sem aquecimento ou refrigeração.

O mais grave não é a veracidade ou não do que se diz ou do que se ensina. O mais grave é habituar as pessoas, desde a infância, a aceitar afirmativas como válidas apenas porque proveem de uma autoridade, sejam elas os pais, professores, vizinhos, anunciantes na TV vestindo batas brancas e posando como médicos e dentistas ou grandes cientistas citados pela imprensa sem maiores informações que nos permitem identificá-los. Ou mesmo pelo simples fato das crenças serem milenares. Aprende-se que a autoridade que afirma alguma coisa é sempre uma fonte de conhecimento válido. Sem data de validade. Basta alguém relatar que tomou um chá de qualquer coisa e ficou curado da gripe para que a declaração sirva como um atestado e o procedimento seja seguido por outros.

Uma advertência de Umberto Eco resume bem a questão: “Os livros não são feitos para que alguém acredite neles, mas para serem submetidos à investigação. Quando consideramos um livro, não devemos perguntar o que diz, mas o que significa.

A CIÊNCIA É IMPERFEITA, POR ISSO MUDA.

Cientistas aprendem a admitir que os conhecimentos e as teorias são efêmeros e provisórios, sujeitos a serem substituídos por outros que deem conta de inconsistências nas teorias vigentes. O público em geral, no entanto, é ensinado a acreditar na permanência daquilo que se aprende na escola.

Explicações alternativas que surgem devem ser cuidadosamente avaliadas e não aceitas imediatamente. Por exemplo, durante a epidemia de cólera que atingiu Londres, em 1832, William Farr concluiu que a mortalidade era inversamente proporcional à elevação topográfica das localidades situadas ao longo do rio Tâmisa. John Snow, por sua vez, concluiu que a doença afetava o sistema digestório e era adquirida pela ingestão de alimentos ou água contaminada com alguma coisa eliminada por outras vítimas da mesma doença. Isso tudo se deu antes de Pasteur descobrir a participação de bactérias como agentes infecciosos.

Assim, os despejos dos moradores rio acima contaminavam os habitantes mais abaixo.

Ao contrário da ideia popular predominante, a ciência não se baseia em certezas, mas na incerteza e na dúvida. São as crendices que estão assentadas na certeza. É a incerteza e a temporalidade que leva um cientista a questionar as ideias e as explicações correntes.

Esta é a principal razão pela qual o conhecimento científico, baseado em métodos de revisão, verificação e testes, é mais confiável do que as crendices. Crendices transmitidas de geração a geração e que sobrevivem graças à memória seletiva que reforça e preserva as ocasiões em que os fatos condizem com a expectativa, sem registrar e sem levar em conta as ocorrências negativas.

A situação se complica quando o Ministério da Saúde Brasil admite e passa a atestar inúmeras práticas não cientificamente válidas. (Brasil: Ministério da Saúde, 2006).

ACHISMOS ESTÃO SEMPRE ‘CERTOS’ E NUNCA MUDAM.

À medida que nos desenvolvemos, nossos conhecimentos se integram em sistemas complexos e rígidos. Com o passar do tempo, esse sistemas se cristalizam e se tornam assim menos passíveis de mudanças e, em especial, mudanças que ponham em dúvida conhecimentos que abalem a congruência de todo o sistema.

Crendices são persistentes, podem ser transportadas e adaptadas de uma região a outra, e são também milenares – mas nada disso por si só as qualifica como verdadeiras. Crendices, portanto, não são crenças isoladas. Elas fazem parte de um sistema de pensamento sincrético que pode abrigar ideias contraditórias e simultâneas, como a crença concomitante em destino e livre arbítrio. Quanto mais velhos, mais resistente se tornam os sistemas integrados de conhecimentos e crenças.

Por sua vez, por mais bem-intencionadas que sejam, as narrativas destinadas a promover mudanças de atitudes, intenções ou comportamentos exercem pouco impacto persuasivo nas pessoas. Para entender os motivos desse fracasso, é importante esclarecer as bases em que crendices se assentam.  Não adianta, por exemplo, trocar uma crença pontual (homeopatia, digamos) por outra, sem alterar todo um esquema de pensamento que reconheça a viabilidade de seus fundamentos. Neste caso, a possibilidade de que a dinamização e as agitações do líquido liberem uma energia que não pode ser detectada contra o uso de um medicamento cujos efeitos podem ser avaliados.

Assim é que, sem interferir nos sistemas de pensamento, trocar simplesmente  a homeopatia pela alopatria não irá resolver o problema.

Um fato que apoia esta ideia foi a reação imediata à publicação de Que bobagem! O livro não critica o pensamento mágico como um sistema de pensamento, mas algumas crenças pontuais, entre as quais a Psicanálise.

Como querer que uma pessoa que acredita que basta ver para crer raciocine segundo os padrões da ciência?

HÁ COISAS BOAS E MARAVILHOSAS FORA DA CIÊNCIA.

Finalmente por que o interesse dos adeptos das práticas discutidas no livro em verem aquelas práticas classificadas como científicas?

Manet, Renoir, Matisse, Fantin-Latour nunca se apresentaram como botânicos por suas pinturas de flores. Van Gogh não pintou campos de trigo porque era agrônomo. Romancistas famosos nunca pretenderam fazer ciência – Casanova, Sade, Bocaccio  e Wallis Simpson nunca proclamaram a ciência do amor. Por sua vez, nenhum botânico ou agrônomo que eu conheci ou me lembre jamais conseguiu vender a sua coleção de obras (artigos, livros etc.) por um preço comparável ao de um único quadro famoso.

Já escrevi antes que um cientista é treinado na disciplina nas ações e na indisciplina no pensamento, mantendo acesa a chama da dúvida diante das proposições vigentes, por mais antigas e sólidas que elas sejam. Assim, como querer que alguém que acredita em energias desconhecidas, em manifestações divinas, em curas milagrosas ou na palavra de um guru qualquer terá argumentos e disposição suficientes para reconhecer e questionar tantas bobagens?

*

NOTA.

[*] Artigo anterior do autor sobre educação científica (publicado neste GGN) pode ser lido aqui.

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LEITURAS ADICIONAIS

+ Avila-Pires, F. 1995. Teoria e prática das práticas alternativas. Revista de Saúde Pública 20(2): 147-151.

+ Brasil, Ministério da Saúde 2006. Portaria n. 971, de 3 de maio de 2006 – Aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde. Ministério da Saúde, Brasília.

+ Brown, C. 1998. Afterwards, you’re a genius: Faith, medicine, and the metaphysics of healing. Riverhead Books, New York

+ Collinge, W. 1996. Alternative medicine. Warner Books, New York.

+ Eco, U. 2019. O nome da rosa. Record, Rio de Janeiro.

+ Gardner, M. 1960. Manias e crendices em nome da ciência. Ibrasa, São Paulo.

+ Jahoda, G. 1970. A psicologia da superstição. Paz e Terra, Rio de Janeiro.

+ Kelly, M. P. & Baker, M. 2016. Why is changing health-related behaviour so difficult? Public Health 136:109-116.

+ Loyola, M. 1984. Médicos e curandeiros. Conflito social e saúde. Difel, São Paulo.

+ Monteiro, P. 1985. Da doença à desordem: A magia na umbanda. Graal, Rio de Janeiro.

+ Neves, D. P. 1984. As curas milagrosas e a idealização da ordem social. Universidade Federal Fluminense, Niterói.

+ Park, R. L. 2000. Voodoo Science: The road from foolishness to fraud. Oxford UP, New York.

+ —. 2008. Superstition. Belief in the age of science. Princeton UP, Princeton.

+ Pasternak N. & Orsi, C. 2023. Que bobagem! – Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério. Contexto, São Paulo.

+ Seligmann, K. 1948. História da magia: Magia-sobrenatural-religião. Edições 70, São Paulo.

+ Shen, F. & mais 2. 2005. Impact of narratives on persuasion inn health communication: A meta-analysis. Journal of Advertising 44: 105-113.

+ Shermer, M. 2002. Why people believe weird things. WH Freeman, New York.

+ Silva V. T. & mais 4. 2021. Intoxicação por medicamentos: uma revisão de literatura com abordagem no tratamento. Revista Eletrônica Acervo Científico 23: e6781.

+ Wyse, S. 1997.Believing in magic: The psychology of superstition. Oxford UP, New York.

+ Zucker, C. 1952. Psychologie de la superstition. Payot, Paris

* * *

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