do Observatório de Geopolítica
Temporada de lamentações 2023
por Felipe Bueno
Enquanto acompanhamos pela imprensa o desfile dos vencedores do Prêmio Nobel deste ano, cabe aqui uma reflexão sobre uma das muitas tragédias brasileiras, aparentemente interminável como tantas outras: nossos defeitos de formação.
Não ouso aqui especular sobre o caráter, posto que tais eventuais falhas e limitações são inerentes ao ser humano, esteja ele no norte ou no sul. Meu ponto é mais simples, terrivelmente fácil de combater se isso interessasse à boa parte de nossa população e de nossa classe política: a educação.
Sim, o indescritível privilégio de ser uma pessoa alfabetizada, ter a capacidade de fazer operações matemáticas, poder raciocinar, conhecer minimamente os fenômenos históricos, geográficos, biológicos, físicos e químicos, ter a capacidade de conversar com homens e mulheres de outras nações em seus próprios idiomas.
Tais qualidades, mais que isso, ferramentas, permitem ao cidadão que faça as compras do dia-a-dia, entenda o noticiário, compreenda as mudanças climáticas, leia uma bula de remédio, enfim, tenha dignidade.
Para isso, além da etérea vontade política, são necessários itens básicos, nada de caríssimo ou extravagante: canetas, lápis, borrachas, cadernos, computadores, materiais de laboratório, salas de aula.
Livros também, ainda que alguns governadores aparentem não concordar.
Somos o povo que ri dos vizinhos argentinos, que têm Prêmio Nobel e Oscar de Filme Estrangeiro, além de uma capital repleta de livrarias de rua.
Aqui, no enorme universo real que se espreme, silencioso, entre os radicais dos todes e do homeschooling, nosso sistema de ensino vai mal do jardim de infância à pós-graduação.
Com fatos como esses em mãos, de que adianta, uma vez por ano, repetir a mesma conversa mole de que cabe ao Brasil abrir a assembleia geral da ONU?
Nosso soft power às vezes é como o garoto gente boa e ruim de bola da turma: está sempre por perto, convive com todos, mas só joga futebol se for no gol, para atrapalhar menos. E quando tenta abrir a boca para orientar o time, é ignorado pelos amigos porque não entende nada de futebol.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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