Uberistas, taxistas e populismo, por Rui Daher

Hoje em dia mesmo, vemos isso ocorrendo no Brasil, nas figuras do Regente Insano Primeiro, seus rebentos, e alguns de seus cortesãos

Uberistas, taxistas e populismo

por Rui Daher

Discute-se a autoria da frase-pérola “sempre que ouço falar em cultura, pego o meu revólver”.

Seria de Joseph Goebbels (1897-1945) ou Hermann Göring (1893-1946), respectivamente, o ministro da Propaganda e o líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, no governo nazista.

Creio que tanto faz. Muitos ditadores, no pós-Segunda Guerra, se não a falaram, fizeram assassinatos culturais em suas várias formas. Censura uma delas.

Hoje em dia mesmo, vemos isso ocorrendo no Brasil, nas figuras do Regente Insano Primeiro, seus rebentos, e alguns de seus cortesãos.

Ainda que em sentido contrário, eu mesmo fraseio de forma similar: “sempre que ouço falar em populismo, pego o livro ‘A Razão Populista’ (2005), do argentino Ernesto Laclau (1935-2014)”. O autor mostra virtudes e malefícios do populismo.

Em 52 anos de trabalho, uma só vez fui demitido de uma empresa, onde trabalhava celetista, graças à Getúlio Vargas, o que tínhamos para ontem.

Foi em 1975, e não aconteceu por crise ou por fatores inovativos de automação. Desesperei-me. Minha primeira filha estava para nascer. Corri para o mercado e logo minha carteira foi assinada. Alívio.

E por que conto isso? Há quase dois anos, resolvi não ter mais carro. Para locomover-me uso táxis, aplicativos, e quando a preguiça me libera, dois trôpegos pés.

É quando noto, mais de perto, longe das estatísticas, o relaxo das folhas e telas cotidianas e o desespero que passei por algum tempo, em 1975.

“São pais de santos, paus de arara, são passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados
Dançando, dormindo de olhos abertos
À sombra da alegoria
Dos faraós embalsamados”.
 (João Bosco/Aldir Blanc)

Na linda composição, os autores pensaram num bloco de Carnaval. Não mais. Hoje em dia:

“São engenheiros, pequenos empresários, nordestinos/ São desempregados, dependentes, frentistas/São descolados, veganos, animais, cravos e rosas malcuidados/Guiando, sorrindo gentis e libertos/À decisão dos neoliberais disfarçados”.

Sempre que utilizo um veículo assim em meus movimentos na cidade, lembro de meu desespero, em 1975, com o desemprego.

Como estará a cabeça dessa pessoa, conduzindo a minha vida pelos poucos quilômetros de meus dias?

São jovens, rapazes e moças, senhores e senhoras, pensando em como sobreviver, pagar moradia, escola e saúde dos filhos, já que ambas estão cada vez mais falhas e escassas.

Muitas crianças ajudam as famílias em semáforos vendendo balas ou panos de prato. Outros, fazem malabarismos adicionais aos que já são próprios de suas vidas.

Envergonho-me de ter tido pânico, em 1975. Até então, podem ter sido governos populistas. Para o bem e o mal. Mas havia Estado.

Se governante, sem qualquer vergonha, seria populista, não caudilho, nas acepções de Laclau.

Seria Getúlio, Jango, Brizola, Lula, no Brasil, Perón e Kirchner, na Argentina, Allende, no Chile, Evo, na Bolívia.

Alguém de direita? Sim. Regina Duarte.

Volto um dia!

 

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