Haaretz: Incursão israelense em Rafah, Gaza, será uma catástrofe humanitária sem precedentes
Por Gideon Levy1 \ Tradução por Ruben Rosenthal
Os norte-americanos precisam bloquear a invasão de Rafah com ações, e não com palavras. Só eles podem deter Israel.
Tudo o que podemos fazer agora é pedir, implorar, gritar: Não entrem em Rafah! Uma incursão israelense em Rafah será um ataque ao maior campo de pessoas desalojadas do mundo. Arrastará os militares israelitas a cometerem crimes de guerra de uma gravidade que nem eles ainda cometeram. É impossível invadir Rafah agora sem cometer crimes de guerra. Se as Forças de Defesa de Israel entrarem em Rafah, a cidade se tornará um cemitério.
Cerca de 1,4 milhões de pessoas deslocadas estão agora em Rafah, abrigadas em alguns casos sob sacos plásticos que foram transformados em tendas. A administração americana, suposta guardiã da lei e da consciência israelita, condicionou a invasão de Rafah a um plano para evacuar a cidade. Não existe e não tem como existir tal plano, mesmo que Israel consiga apresentar um.
É impossível transportar um milhão de pessoas totalmente desamparadas, algumas das quais já foram desalojadas duas ou três vezes, de um lugar “seguro” para outro, e que sempre se transformam em locais de matança. É impossível transladar milhões de pessoas como se fossem bezerros. Mesmo os bezerros não podem ser transportados com tanta crueldade.
Também não há lugar para levar estas milhões de pessoas. Na devastada Faixa de Gaza não há mais para onde ir. Se os refugiados de Rafah forem transferidos para Al-Mawasi, como as FDI irão propor em seu plano humanitário, Al-Mawasi vai se tornar o local de um desastre humanitário como nunca visto na Faixa.
Yarden Michaeli1 e Avi Scharf1 relatam que toda a população da Faixa de Gaza, 2,3 milhões de pessoas, seria evacuada para uma área de 16 quilômetros quadrados, aproximadamente o tamanho do Aeroporto Internacional Ben-Gurion. Imagine só, a população inteira de Gaza [contida] na área do aeroporto.
Amira Hass1 calculou que se apenas um milhão de pessoas forem para Al-Mawasi, a densidade populacional será de 62.500 pessoas por quilômetro quadrado. Não há nada em Al-Mawasi: nem infra-estrutura, nem água, nem eletricidade, nem casas. Só areia e mais areia para absorver o sangue, o esgoto e as epidemias. Pensar nisso não é apenas assustador, mas também mostra o nível de desumanização que Israel atingiu em seu planejamento.
Sangue será derramado em Al-Mawasi, como ocorreu recentemente em Rafah, o penúltimo porto seguro oferecido por Israel. O serviço de segurança Shin Bet irá encontrar um oficial ligado ao Hamas que deve ser eliminado, lançando-se uma bomba de uma tonelada no novo acampamento de tendas. Vinte transeuntes, a maioria crianças, serão mortos.
Os correspondentes militares irão relatar, com os olhos brilhando, sobre o maravilhoso trabalho que as FDI estão realizando para liquidar o alto comando do Hamas. A vitória total está próxima, e os israelitas ficarão saciados mais uma vez. Mas, mesmo com toda esta imposição [de propaganda de guerra], o público israelense deve acordar, e, com ele, a administração Biden. Trata-se de uma emergência mais terrível do que qualquer outra durante esta guerra. Os norte-americanos precisam bloquear a invasão de Rafah com ações, e não com palavras. Só eles podem deter Israel.
O setor consciente do público israelense busca outras fontes de informação, além das estações pró-militares, que aqui se autodenominam canais de notícias. Veja as fotos de Rafah em qualquer rede estrangeira – você não encontrará nada em Israel – e entenderá por que a região não pode ser evacuada. Imagine Al-Mawasi com os dois milhões de pessoas deslocadas, e compreenderá que crimes de guerra não poderão ser freados.
No sábado, foi encontrado o corpo de Hind Hamada (também chamada de Hind Rajab), de seis anos. A menina ficou conhecida no mundo todo, após os momentos de terror pelo qual ela e sua família passaram, no dia 29 de janeiro, diante de um tanque israelense. Estes momentos ficaram registrados em uma ligação telefônica2 com o Crescente Vermelho Palestino, até que os gritos de terror cessaram. Sete membros da família estavam mortos; apenas a pequena Hind se encontrava ainda com vida, mas seu destino permanecera um mistério desde então.
Hind foi encontrada morta no carro queimado de sua tia, em um posto de gasolina, em Khan Yunis. Ela havia sido ferida, e ficara coberta pelos sete corpos de seus parentes, sangrando até a morte sem que conseguisse sair do veículo.
Hind e sua família haviam respondido ao apelo “humanitário” de Israel para evacuar. Quem quiser mais milhares de Hinds, deveria invadir Rafah, cuja população será evacuada para Al-Mawasi.
Notas do tradutor:
1jornalistas do periódico israelense Haaretz
2vídeo da CNN, contendo a gravação com o pedido de ajuda
Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, responsável pelo blogue Chacoalhando e pelo programa deentrevistas Agenda Mundo, veiculado no canal da TV GGN e da TV Chacoalhando.
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Frederico Firmo
14 de fevereiro de 2024 11:36 amUm governo fascista como o de Netanhyahu deu guarita a todo tipo de extremista e agora sob a desculpa de eliminar o Hamas quer eliminar Gaza. E desta vez é eliminar através de um morticínio catastrófico. Netanhyahu está condenando toda uma geração de jovens israelenses a participar obrigatoriamente desta catástrofe. Quando estes milhares de jovens retornarem não serão recebidos como heróis, esta não é a guerra dos 7 dias ou Yon Kippur. Alem de traumatizados, embrutecidos todos vão ficar sob os olhares dos pais, mães, amigos e os questionamentos silenciosos sobre o que será que fez durante a ‘campanha’. Netanhyahu conseguiu mais uma vez causar a fragmentação da sociedade Israelense, e desta vez as feridas serão muito grandes, e talvez insanáveis. Os bombardeios matando tantas vidas palestinas vão ricochetear na sociedade israelense que se afasta cada vez mais de si mesmo.