Apex era jardim de infância com diretora despreparada e protegida por Ernesto Araújo, afirma ex-diretor

'Desrespeitosa e ineficiente', afirma o segundo presidente exonerado da Apex sobre Letícia Catelani, a protegida do governo que está paralisando a promoção de produtos importados brasileiros

Ministro Ernesto Araújo e ex-presidente da Apex Mário Vilalva. Imagens: reprodução

Atualizado com nota de esclarecimento da Agência Terruá

Jornal GGN – No fim da tarde desta terça-feira (09) o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, publicou uma nota informando a exoneração do presidente da Apex, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, embaixador Mário Vilalva.

É a segunda mudança, em um curto espaço de tempo, na direção da Apex. Em janeiro, Alecxandro Carreiro ficou apenas sete dias na presidência da Apex. Na época, a queda aconteceu porque a sua escolha para o cargo, por indicação de Eduardo Bolsonaro, desrespeitava o estatuto da agência. Além de não falar inglês, Alex não tinha qualquer familiaridade com o comércio exterior. Mas outra questão é apontada para sua saída: ter se tornado desafeto de Letícia Catelani, a diretora de Negócios da agência, também por indicação de Bolsonaro filho.

Catel, como é conhecida nas redes sociais bolsonaristas, também causou dor de cabeça ao embaixador Mário Vilalva. Diferente do antecessor, a nomeação de Vilalva foi bem recebida pela área técnica da agência – ele foi embaixador no Chile, Alemanha e em Portugal, além de diretor-geral do Departamento de Promoção Comercial do Ministério das Relações Exteriores.

Vilalva se manifestou nos últimos dias acusando Letícia Catelani de paralisar os trabalhos na Apex. Ele acredita ainda que foi para protegê-la que o ministro Ernesto Araújo alterou o estatuto da agência. A mudança, feita sem aviso prévio ao então presidente da Apex, que só tomou conhecimento por meio da imprensa 25 dias após ter sido protocolada no cartório, deu mais poderes para Letícia Catelani e Márcio Coimbra, que deixaram de ter suas diretorias subordinadas ao presidente da instituição.

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Procurado pela imprensa para se manifestar sobre a alteração no estatuto da Apex, Vilalva não ficou calado e não poupou críticas ao ministro e sua protegida. Em entrevista para Consuelo Dieguez, da Piauí, pouco tempo antes de ser demitido por telefone, o embaixador disse que estava “administrando um jardim de infância” e apontava Catelani como uma pessoa “infantil e despreparada para o cargo”.

Em uma ocasião, ficou acertado que Catelani e Coimbra iriam assinar, no dia seguinte, um contrato de renovação com a empresa Terruá para a contratação dos irmãos Campana (dois dos mais importantes designers brasileiros). Eles seriam a atração principal do estande brasileiro na feira de móveis e design de Milão.

Vilalva conta que esperou por Catel durante toda a manhã e quando, finalmente, conseguiu contatá-la foi informado que ela estava tratando de assuntos pessoais e que ficaria fora da agência. Letícia também pediu para que ele mandasse o contrato para ela assinar.

“O contrato tinha que ser assinado na agência, diante de testemunhas, que é a forma profissional de se fazer isso”, explicou o embaixador após afirmar que jamais faria o que Catelani pediu.

O embaixador conta que no dia seguinte foram publicadas na imprensa algunas notas afirmando que a Terruá havia sido citada na operação Lava Jato. Ele acredita que a informação foi plantada por Catel, que é amiga do assessor internacional de Bolsonaro, Felipe Martins.

“Todas as vezes que falamos desse contrato, jamais foi levantada qualquer suspeita sobre a empresa. Por que então, no dia seguinte, começam a pipocar essas notas?”, questionou.

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Em outra ocasião, Leticia Catel se recusou a dar andamento no processo de parceria com o Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo, o Siaesp, responsável pela divulgação do cinema brasileiro no exterior, sem dar nenhuma explicação. “Ela é desrespeitosa e ineficiente”, queixou-se o embaixador.

Na nota para anunciar a exoneração de Vilalva da presidência da Apex, Ernesto Araújo disse que a mudança acontecia para “dinamização e modernização do sistema de promoção comercial brasileiro”. O ministro ainda não anunciou a escolha do substituto.

A jornalista Consuelo Dieguez conta ainda que um antigo funcionário da Apex confirmou que Letícia é protegida do chanceler. “Faz o que quer aqui. É uma relação pessoal que não conseguimos entender”, completou.

O fato é que a demissão de um diplomata de carreira e com o currículo de Vilalva aumenta o desgaste de Ernesto Araújo e do governo frente à opinião pública, especialmente mercado e exportadores. A alteração reforça ainda o impasse entre os olavistas e os militares no governo Bolsonaro.

A renovação do contrato com a Terruá, que Letícia Catel não quis assinar, foi também uma recomendação do secretário de Governo, general Santos Cruz. Estranhamente, logo após a história do contrato, Cruz passou a ser um dos alvos de ataques do guru de Bolsonaro e Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho.

Já Vilalva é filho de militar e próximo da área mais técnica do governo e anti-olavista. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele negou que procurou se blindar do cargo com o apoio dos militares, entretanto destacou que mantém boas relações com os generais do governo, citando o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno.

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“Eu sou filho de militar, portanto eu tenho total conhecimento do que é a ala ou o ambiente militar. Eu cresci nesse ambiente e prezo muito os militares, tenho muito respeito pelo trabalho que eles fazem no Brasil. Evidentemente que eu cheguei a conversar com alguns representantes da ala militar no Planalto sobre essa questão, e eles compreenderam perfeitamente bem a minha situação de aflição dentro da agência”, acrescentou.

Nota de esclarecimento da Agência Terruá

A Agência Terruá esclarece que nunca teve qualquer envolvimento com as investigações da operação Lava-Jato.

A decisão tomada pela Apex, em fevereiro, de não renovar o contrato de marketing promocional com a Terruá causou estranheza à agência, que vinha trabalhando desde novembro do ano passado na criação e desenvolvimento de ações marcadas para acontecer em março e em abril nos Estados Unidos e Itália, respectivamente. À luz dos fatos, fica claro que decisão de ruptura foi resultado de uma questão política interna.

A agência Terruá atua há seis anos no planejamento e execução de projetos na área de Live Marketing, tanto para o setor público quanto para o privado. Sua trajetória é fundamentada no compromisso com a transparência e a qualidade dos serviços prestados, que inclusive renderam à agência, nesses seis anos, prêmios nacionais e internacionais.

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6 comentários

  1. O PT não fez obstrução à corrupção quando o Lula entregou a Petrobrás e o BNDES para as empreiteiras.

      • Pois é… não entendo como um dos últimos bastiões do Jornalismo deixa passar esses absurdos. O que tem a ver o PT com esse artigo, a propósito, de alguém nitidamente bem informado do Jornal GGN? Duvido de que nosso anfitrião Luis Nassif acolha esse tipo de postagem, meramente, pobremente apenas anti-petista, e o pior, que ocorre quando incompetências do governo atual são mostradas com clareza e até urgência, dada a força com que os alinhados de Bolsonaro promovem destruição das nossas instituições através da banalização dos cargos comissionados.

        A propósito do assunto do artigo, creio que vai ser bem difícil para a protegida de um dos filhos do Bolsonaro conseguir a colaboração dos técnicos da Apex, menos afeitos às estripulias de crianças mal-criadas. Vai ver a “patricinha” foi posta na Apex para isso mesmo, para detoná-la…

  2. Os bots estão de volta e infestando as caixas de comentário que insistem em estarem abertas no Brasil de 2019.

    Fora isso, parece ser só mais uma parte da ofensiva olavista contra a ala militar deste governo.

  3. Bolsonaro ser um asno não impressiona. Sempre foi.
    Espanta o Olavo de Carvalho, um senil escroto, estar ganhando diversas batalhas via os filhos de Bolsonaro.
    Espantosa também é a apatia do corpo de diplomatas que já deveriam atacar em bloco.
    Os nossos empresários e oligarcas estão achando que continuarão no leme dessa nau? Os Bolsonaristas se aliaram aos EUA para se livrar das 200 famílias que governam o Brasil e nos tornar uma monarquia africana.
    Vai dá ruim!!!!

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