Do Valor
A eleição municipal e o futuro
As eleições municipais de 2012 deixaram claras várias mudanças que vêm ocorrendo nos últimos anos no Brasil: maior dificuldade de arrecadar recursos e, portanto, campanhas menos ricas; menor interesse por acompanhar o horário eleitoral gratuito; eleitores mais decididos e, como consequência, menor variação da intenção de voto no decorrer do processo eleitoral; campanhas cada vez mais curtas. O que mais se destaca neste ano é o menor interesse do eleitor pelo pleito. O Brasil cresceu nos últimos anos e o aumento do bem-estar das famílias tornou-as menos dependentes de qualquer governo. Ficou mais claro para o brasileiro médio que ele pode melhorar de vida com o próprio esforço. O que ele precisa é que o governo, em particular o federal, não cometa erros graves.A percepção de que é possível melhorar de vida sem que necessariamente se conte com a ajuda do governo resulta, obviamente, em menor interesse por processos eleitorais. As eleições se tornam apenas um episódio na vida, deixam de ser o momento que define a melhora ou a piora da vida. Quem tem mais renda disponível tem mais mobilidade e, assim, pode mudar de bairro ou de cidade caso a prefeitura não faça melhorias nas vias públicas. Quem tem mais renda pode dispor de um plano privado e deixar de depender do governo para ter acesso a serviços de saúde. São muitos os exemplos de diminuição da dependência em relação ao governo quando a renda melhora.
Menor interesse nas campanhas eleitorais resulta em campanhas efetivamente mais curtas e, acima de tudo, menor variação nas intenções de voto. É interessante notar que a grande maioria das eleições de capitais vem apresentando pouca emoção no que tange à corrida pelo primeiro lugar. Agora em 2012, com muito mais clareza do que nos anos anteriores, ficou evidente quais são os dois principais papéis da propaganda política: tornar conhecidos candidatos novatos em eleições ou que não haviam disputado antes um cargo majoritário e mostrar ao eleitor quem são os candidatos de oposição e quem é o candidato de governo. Esse segundo papel é muito mais importante do que o primeiro.
Temos mostrado nesta coluna, com base em fatos reais, que o grande fator que define o voto é a avaliação da área de governo que está em disputa. Como este ano a eleição é para prefeito, a avaliação de cada administrador municipal é, de longe, o principal fator explicativo do voto. É por isso, por exemplo, que Eduardo Paes será eleito no Rio de Janeiro e que Serra será humilhantemente derrotado em São Paulo. É por isso que o prefeito de Belo Horizonte será reeleito e no Recife vencerá o candidato de oposição ao PT. A decisão eleitoral é simples e direta, não precisa de dezenas ou centenas de informações, coisas do tipo vinculação religiosa dos candidatos, envolvimento com escândalos de corrupção etc. O principal fator de escolha é irritantemente simples: governos bons são mantidos, governos ruins são modificados. Aliás, é para isso que serve a democracia.
Campanhas mais curtas e menos caras, menor interesse do eleitor, menor audiência da propaganda eleitoral, decisão simples e direta, todos esses fatores somados resultaram em poucas emoções no que diz respeito a quedas e subidas de candidatos. Considerando-se a experiência passada, ainda há a última semana antes do primeiro turno, quando ocorrem mudanças nas intenções de voto, mas que nem sempre alteram as posições dos candidatos. Assim, é possível hoje, duas semanas antes da eleição, antever quais partidos serão os principais vencedores e os derrotados nas principais capitais do Brasil.
Em primeiro lugar, o mais provável é que tanto o PT quanto o PSDB sejam os principais derrotados. Não têm candidatos competitivos em nenhuma das capitais da região Sul, não vão controlar nem a Prefeitura de Belo Horizonte nem a do Rio de Janeiro, e têm a tarefa muito difícil de derrotar Celso Russomanno em São Paulo. Para Serra, é uma tarefa impossível. Além de ter um patamar malufista de rejeição, 46%, Serra é o candidato de Kassab, um governo extremamente mal avaliado. Vencerá em São Paulo um candidato de oposição. Pode ser Russomanno ou Haddad. O fato é que Russomanno saiu na frente, ao consolidar o voto daqueles que avaliam Kassab como “ruim” ou “péssimo”. Em Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB, é o favorito. Assim, nas sete capitais do Sul e do Sudeste pode ser que PT e PSDB conquistem só uma prefeitura.
No Nordeste há três capitais de maior destaque, Salvador, Recife e Fortaleza, nas quais o desempenho dos candidatos do PT e do PSDB não indica, com uma exceção, quem tem chance de vencer. Somente em Salvador o candidato do PT, Nelson Pellegrino, enfrenta com chances de vitória o primeiro colocado, ACM Neto. Pellegrino vem crescendo nas últimas pesquisas. Em Recife, o candidato do PT vem caindo, o que está de acordo com a avaliação predominantemente negativa do prefeito do PT, que administra a cidade. Em Fortaleza, a prefeita Luiziane Lins, também tem uma avaliação predominantemente negativa, o que tende a resultar em mais uma derrota do PT. Ou seja, quando se faz um balanço das principais capitais nordestinas, o desempenho do PT e do PSDB fica muito aquém do que se espera dos dois principais partidos brasileiros no nível nacional.
O PSB pode vir a ser o grande vencedor das eleições deste ano. Seus candidatos são os favoritos em Belo Horizonte e Recife e o prefeito de Curitiba também pode vir a ser reeleito. Os socialistas estão no páreo em Fortaleza. Aliás, haverá dois grandes vencedores: o PSB e a fragmentação partidária. Isso mesmo. É forte a tendência de que as principais capitais venham a ser administradas por partidos diversos: PMDB no Rio de Janeiro, PDT em Porto Alegre, o PRB de Russomanno em São Paulo e assim por diante. Nada surpreendente nisso. Em todos os países do mundo há mais partidos no nível local do que no nacional. Na Espanha, por exemplo, a disputa nacional se resume ao embate entre PP e PSOE, enquanto no nível regional há dezenas de partidos sem a menor expressão nacional.
Vencer uma eleição municipal não significa nada mais do que vencer uma eleição municipal. Não há consequência alguma para o futuro da bancada na Câmara dos Deputados, favoritismo em eleição presidencial, controle de governos estaduais etc. Não há nenhum estudo acadêmico que mostre que mais prefeitos eleitos em um ano resultam em mais deputados federais dois anos mais tarde. São poucos os deputados federais que conseguem ser eleitos com votação concentrada em um só município. A regra é precisarem de fatias de eleitorados de vários municípios somados.
Quanto à eleição presidencial, também não há conexão. Na eleição municipal de 2008, o PT, dentre as capitais do Sul e Sudeste, só elegeu o prefeito de Vitória. Mesmo assim, Dilma foi eleita. Kassab, o principal aliado de Serra, foi eleito prefeito de São Paulo e Serra foi derrotado. Há aqueles que hoje já afirmam que o provável desempenho do PSB vai projetar a candidatura de Eduardo Campos para presidente. O governador de Pernambuco tem participado de vários programas eleitorais em todo o Brasil. Do ponto de vista eleitoral, neste momento, para Eduardo Campos o que importa é o aumento de “recall”. A participação dele nas diversas campanhas, porém, não vai alterar seu “recall” nacional.
Até agora, os candidatos a presidente competitivos (não necessariamente vitoriosos) só aumentaram seu nível de conhecimento de duas maneiras: ou disputaram mais de uma eleição presidencial ou ocuparam um ministério em Brasília e se projetaram a partir dele. No primeiro caso estão as trajetórias de Lula, Ciro Gomes e Marina Silva. No segundo caso estão Fernando Henrique, Serra e Dilma. As duas exceções são Fernando Collor e Anthony Garotinho, que se projetaram a partir de seus governos estaduais. Garotinho é menos exceção, uma vez que grande parte de sua votação para presidente veio do Estado do Rio de Janeiro, que é o terceiro maior colégio eleitoral.
Assim, Eduardo Campos vai aumentar, sim, seu capital político quando as urnas de 2012 forem abertas, mas há um longo caminho a percorrer junto ao eleitorado nacional. Os resultados vão colocá-lo com mais força ainda no jogo político, mas as barreiras para se tornar competitivo na disputa eleitoral ainda estão longe de ser superadas.
Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de “A Cabeça do Brasileiro” e “O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo”. E-mail: [email protected] www.twitter.com/albertocalmeida
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